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13/06/2008
Jornada de Lutas
Durante esta semana, militantes de diversas organizações
sociais protagonizam, em todo Brasil, diversos protestos,
tanto no campo, como na cidade. Trancamento de estradas,
ferrovias, ocupações de hidrelétricas e empresas de energia
elétrica fazem parte da Jornada Nacional e Lutas, organizada
pela Via Campesina – entidade que reúne movimentos sociais de
quatro continentes - e pela Assembléia Popular - movimentos de
trabalhadores rurais e urbanos.
Segundo os próprios movimentos, as ações têm como objetivos
denunciar os problemas causados por grandes empresas,
especialmente as estrangeiras, beneficiadas pelo modelo do
agronegócio e pela economia neoliberal.
Para
entender melhor as razões da jornada, a Radioagência NP
entrevistou a integrante da Via Campesina, Micilene Gorete,
e o membro da Assembléia Popular, Frederico Santana.
Entre os temas, eles destacam os objetivos dos protestos
contra a expansão da cana e do eucalipto e as manifestações
contra a transposição do Rio São Francisco.
Radioagência NP – Por que
realizar uma Jornada Nacional contra o modelo econômico do
Brasil?
Micilene Gorete -
A Jornada Nacional
tem esse caráter de temas que estão ligados ao modelo de
desenvolvimento fortalecido hoje em nosso país. A nível
nacional, o que dá unidade, é a luta contra o modelo do
agronegócio. Em torno disso está a questão do aumento do preço
dos alimentos que está ligada ao avanço da produção dos
agrocombustíveis. Outro tema que deu unidade nacional foi a
questão da venda das terras para empresas transnacionais,
usadas para a produção das grandes monoculturas, nisso está a
soja, o eucalipto e a cana-de-açúcar. Outro tema foi a questão
da transposição do Rio São Francisco.
RNP - Qual o problema da
transposição?
Frederico Santana -
A transposição do Rio São
Francisco repete uma fórmula da indústria da seca que perdura
nos 500 anos no Brasil. Não há um interesse concreto em se
acabar com a seca. 70% das águas da transposição serão
destinadas para a produção do agronegócio. Ou seja, os
empresários que possuem terras na região, terão acesso a essa
transposição para produzir alimentos para exportação. Como
produção de uva, caranguejo e camarão. E os custos para a
transposição são gigantescos se comparados a um conjunto de
outras iniciativas que já demonstraram que seria possível
atender muito mais famílias rurais e mesmo o meio urbano.
RNP - E o que justifica a
ocupação de barragens e empresas de energia elétrica?
MG –
Infelizmente, as barragens
sempre representaram a expulsão dos camponeses das terras para
poder expandir o modelo que apenas está a serviço de poucos.
Isso representa que os bens naturais do nosso país cada vez
mais estão sendo privatizados e o preço da energia vai
aumentando para a população em geral.
RNP - Quais os exemplos podem
ser citados?
FS -
A Vale do Rio Doce acaba de
assinar um acordo em que consegue o acesso a energia durante
25 anos por R$ 3,3 o quilowatt, ao passo que a tarifa
residencial de Minas Gerais está em R$ 62. O que a mobilização
está tentado fazer é publicizar que foi aprovado uma lei que
obriga as concessionárias de energia a darem isenção do
pagamento da tarifa para famílias que consumam em média 220
quilowatt.
RNP - Pela cobertura da grande
mídia, parece que todas as ações são de autoria do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). E eles criticam a
postura muito “política” do Movimento. O que você acha?
FS -
A jornada é muito mais ampla que
o MST, não só os movimentos organizados na Via Campesina estão
envolvidos, existem muitos movimentos urbanos. Os movimentos
perceberam que não dá para ficar brigando pelo seu pedaço de
terra em si ou pela moradia no seu bairro. O que os movimentos
estão percebendo é que o modelo de desenvolvimento é que
precisa ser alterado, porque do contrário, não vai acontecer a
reforma agrária, a reforma urbana, não vai acontecer o acesso
a condições de saúde adequada, de educação. Nesse sentido,
eles conseguem transpor de uma pauta que é exclusivamente
econômica, demonstrando que o problema é político. Mas os
movimentos continuam sendo movimentos sociais e não partidos.
De São Paulo, da
Radioagência NP, Vinicius Mansur. |