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13/06/2008
Carta de Otacílio
Costa
Nós
Trabalhadoras e Trabalhadores dos diversos movimentos sociais
populares: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de
Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Pequenos Agricultores
(MPA), Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB),
Movimento por uma Universidade Popular (MUP), Coletivo de Arte
e Ação Punk (CAAP), Sindicato dos Papeleiros de Otacílio Costa
(SINPOC), Pastorais, Consulta Popular e comunidades de
Otacílio Costa, estivemos reunidas/os em seminário que faz
parte da Jornada de Luta Nacional contra o agronegócio, as
transnacionais e por um projeto de agricultura camponesa.
O
atual modelo de produção, caracterizado pelo monopólio das
grandes empresas, concentração de terra e monocultivos para
exportação, tem causado uma enorme problemática do ponto de
vista econômico, ambiental e social.
Muitos trabalhadores/as estão sendo reféns das empresas
transnacionais, estas dominam toda a cadeia produtiva formando
monopólios e ditando a forma de produzir, o que produzir e
para quem entregar os produtos. Essa padronização da produção
através de um pacote tecnológico tem levado a um padrão
mundial também de alimentação, onde se diminuiu a diversidade
e qualidade dos alimentos produzidos e consumidos.
O
chamado mundo globalizado deixa as portas dos países abertas
para a entrada das transnacionais para que direcionem a
economia dos países. Essas empresas se instalam, exploram as
riquezas naturais, contratam trabalho local por baixos
salários, condições precarizadas e ausência de direitos
trabalhistas e sociais, além de terem isenção de impostos por
parte dos governos que contribuem para o fortalecimento desse
modelo econômico. Toda essa amarração entre governos,
organismos financeiros e transnacionais se faz necessário para
assegurar um padrão de consumo das grandes elites e manter
intocáveis os privilégios de uma minoria. Os grandes projetos
de barragens, irrigação que privatizam nossas águas estão
rendendo lucros exorbitantes para as empresas privadas. Temos
um enorme incentivo à exportação enquanto o abastecimento
interno é deixado de lado grande parte da população não tem o
que comer. Esse é o modelo econômico imposto pelas grandes
transnacionais onde a vida dos povos é subordinada aos
interesses desse sistema.
O
modelo produtivo baseado nos monocultivos e no uso intenso de
agrotóxicos é responsável pela degradação dos recursos
naturais necessários à vida, por exemplo a terra, a água e o
ar. A biodiversidade está sendo reduzida numa proporção cada
vez maior, inclusive com extinções de espécies de animais e
vegetais da natureza. Todos conhecem os efeitos causados pelo
plantio de espécies exóticas invasoras (Pinus, Eucalipto etc),
mas nada se faz para impedir o avanço desses desertos verdes.
Grandes áreas de florestas nativas são destruídas sob o falso
argumento de que servirá para a produção de alimentos. Nossas
sementes crioulas também estão sendo perdidas com as
monoculturas. Os efeitos dos transgênicos são ainda piores em
virtude da manipulação genética das espécies e os riscos que
representam para as espécies nativas e crioulas. O planeta
está sofrendo diariamente com as agressões humanas aos
ecossistemas, decorrentes dessa perversidade do capitalismo.
Nós, pertencentes a essa mãe-terra, adoecemos juntos e estamos
nos auto-destruindo, conseqüências das nossas próprias ações.
As
grandes empresas não estão preocupadas com os seres humanos,
destrói nossas raízes, e nos transformam em peças para
produzir lucro. O pacote agrícola imposto aos/as
trabalhadores/as do campo traz consigo não apenas os insumos,
os agrotóxicos, as sementes transgênicas e as máquinas, mas
também as doenças, que estão terminando com a vida de milhares
de pessoas. Um exemplo é o câncer, que vem atingindo um número
cada vez maior de pessoas nos últimos anos, sem falar que os
remédios e tratamentos necessários também são controlados
pelas mesmas empresas do ramo agrícola.
Em
virtude da prioridade que se dá às exportações, a produção de
subsistência fica subordinada à alta ou baixa nos preços
daqueles produtos. Assim, aqueles alimentos necessários à
sobrevivência das pessoas, que são produzidos majoritariamente
pela agricultura camponesa e que chegam às mesas da população
urbana e rural, estão à mercê dos interesses especulativos do
capital financeiro internacional.
Não
bastasse, quando as empresas transnacionais deixam de lucrar,
quem sofre com as conseqüências são os/as trabalhadores/as.
Corte dos salários e aumento do desemprego, retirada de
direitos trabalhistas, aumento da jornada de trabalho são
alguns exemplos. O Estado democrático de direito, ao invés de
defender os direitos fundamentais da população, determinados
na Constituição Federal de 1988, está totalmente voltado a
defesa do capital, defendendo-o com seu aparato repressor de
qualquer indivíduo ou organização que atente contra os
interesses do capital. E, descaradamente, quem mais infringe a
lei nos criminaliza por defendermos o cuidado com a vida.
Diante do modelo colocado e toda destruição da vida que este
vem ocasionando, nos comprometemos com a construção de um novo
projeto. Reafirmamos neste seminário o compromisso com a vida
e com a construção de uma sociedade ancorada em outras bases,
tendo como prioridade:
-
O
resgate dos valores de solidariedade entre os povos,
resgatando a cultura popular como elemento central do
desenvolvimento humano;
-
Um
projeto agroecológico com produção de alimentos saudáveis,
sob novas bases de relações entre seres humanos e natureza,
garantindo a soberania alimentar tornando a alimentação a
maior fonte de saúde;
-
A
preservação, multiplicação, melhoramento das sementes
crioulas sob o controle das famílias camponesas;
-
Defendemos que os bens naturais sejam patrimônio dos povos a
serviço da humanidade e nos comprometemos a cuidá-los e
recuperá-los;
-
O
desmatamento zero na Amazônia, na Mata Atlântica e demais
biomas brasileiros;
-
A
distribuição da terra e que essa cumpra sua função social,
prioritariamente a produção de alimentos;
-
A
definição de um tamanho máximo das propriedades para impedir
a continuidade da concentração da terra, das florestas e da
água;
-
A
aprovação imediata da lei que determina a expropriação de
toda fazenda com trabalho escravo;
-
Um
novo modelo energético baseado na soberania;
-
Que possamos garantir o controle dos territórios a partir
dos povos locais e que estes possam escolher autonomamente o
seu modo de vida;
-
A
valorização e participação das mulheres e dos jovens na
tomada de decisão da produção;
-
Defendemos a distribuição justa de renda conforme a
necessidade dos povos e respeito a sua cultura;
-
Reforçamos a importância de uma educação popular e
libertadora, com acesso a todas as pessoas, de caráter
público e de qualidade. Consideramos o estudo essencial,
sendo extremamente necessário buscarmos informações e nos
dedicarmos a entender a sociedade em sua totalidade;
-
Ter garantido políticas publicas que venham de encontro às
necessidades e aos interesses das famílias camponesas
- Temos o desafio neste
momento de massificar as lutas. A união dos trabalhadores/as
campo e cidade é fundamental na construção do projeto de
sociedade que nós propomos.
Otacílio
Costa, 08, 09 e 10 de junho de 2008 |
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