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11/03/2008
Carta à
governadora do Rio Grande do Sul sobre o Dia Internacional da
Mulher
Á
Exma:
Sra. Governadora Yeda
Crusius!
Escrevo-lhes, neste Dia Internacional da Mulher, como
mulher e mãe, em nome de tantas mulheres e mães! Lutadoras em
defesa da vida, estamos tomadas pelo sofrimento ao acompanhar,
ao carregar em nossos braços nossos filhos, e sentir juntinho
a eles, a dor e o pesadelo de quem luta em hospitais e
clínicas de oncologia, para se curar de tumores, leucemias e
os mais diversos tipos de câncer.
Sabemos estar comprovado cientificamente, que uma de suas
principais causas está na forma pela qual o progresso, fruto
da ganância humana, vem poluindo, destruindo e matando a vida,
as espécies e a energia de nosso planeta. Os rios, a água, o
solo estão contaminados. O ar poluído pela desenfreada fumaça
das indústrias, pela destruição das matas nativas, em troca de
extensas plantações de monocultivos. Os pássaros e animais de
todas as espécies estão sendo exterminados.
Os
salgadinhos, as salsichas, enlatados, transgênicos são
colocados na mesa da grande maioria da população, no lugar do
alimento, que vem da própria natureza e é produzido pelas mãos
de mulheres e homens do campo. Referimos-nos à produção de
alimentos saudáveis, que alimenta e cura: frutas, verduras,
feijão, arroz e toda produção camponesa.
É com
esse sentimento que somente pode medir quem vive e se encontra
hoje nessa condição de milhares de mães, mulheres, vítimas da
dor, que lhes escrevemos, evidentemente, insatisfeitas, e
indignadas para somar com a multidão de vozes que protestam
contra a sua conduta, que permitiu e determinou, amparo e
defesa á empresa capitalista, multinacional, Stora Enso,
nefasta para humanidade, para a natureza e para o planeta,
que, amparada por um “interdito proibitório” conseguiu com a
“justiça” a autorização da polícia para fazer despejo sem
mandato judicial, em qualquer de suas áreas ocupadas.
Governadora! Sabemos quantos atos, fatos e acontecimentos em
suas mais variadas formas, registros de tortura, massacres,
prisões, assassinatos, mortes, constituem a síntese da
violência praticada contra as mulheres, razão pela qual
encontra seus principais fundamentos a origem do dia
internacional da mulher. O contingente da Brigada Militar
que agrediu, violentou centenas de mulheres, camponesas,
trabalhadoras e mães, como aconteceu com a invasão de forma
violenta no acampamento das mulheres da Via Campesina na
Fazenda Tarumã, em Rosário do Sul, por volta das 17h, nesta
terça-feira, dia 03.03.2008, não produz hoje o mesmo efeito e
significado da experiência vivida historicamente pelas
mulheres que de uma ou de outra maneira, foram queimadas,
torturadas, massacradas, presas, assassinadas, mortas, razões
dos protestos no Dia Internacional da Mulher? Isso que está
acontecendo, nesta semana, março de 2008, no seu estado,
contra as mulheres e crianças camponesas, não será a violência
institucionalizada que se perpetua no meio de nós? Será que
essa multidão de mulheres, mães camponesas, com suas mãos
calejadas e sonhos grandes, que deixaram suas casas, não
estariam querendo lhes dizer e falar às autoridades, que a
vida, dentro e fora de nossos lares, está ameaçada? E que é
preciso resolver os problemas pela raiz? Elas lutam por
qualidade de vida!
Nesse
mesmo dia internacional da mulher, de um lado,
violência sobre as camponesas e, de outro lado, a Exma
Governadora entregou o troféu Ana Terra a 25 mulheres em
festividade no Teatro São Pedro. Isso não é uma contradição?
Desta forma, será que seu discurso tem legitimidade?
Exma.
Governadora! Como mulheres e mães, não suportamos mais ver
nossos filhos sendo arrancados brutalmente de nossos braços.
São arrancados pelos diferentes tipos de doenças, enfermidades
que não têm cura, resultado dos venenos/agrotóxicos, químicos,
industrializados, pouco mais pouco menos, vai levando um a
um..., são arrancados pela fome, resultado da concentração de
renda, dos latifúndios, da ganância, são arrancados pela
miséria resultado das grandes desigualdades sociais, são
arrancados também, coletivamente, pela agressão policial, como
aconteceu no seu Estado, quando mulheres e mães que lutam
diariamente por qualidade de vida tiveram a coragem, de
colocar o dedo na raiz do problema. A vida para quem trabalha
no campo é cruel e dolorosa demais. Onde está a solução?
A
exma governadora, ao colocar sua cabeça no travesseiro para
dormir, parou um instante para pensar que marcas ficarão nas
vidas dessas 250 crianças que foram separadas de suas próprias
mães, jogadas no chão, deitadas com suas mãozinhas na cabeça?
Se coloque, por um instante, governadora no lugar dessas mães,
que se viam longe de seus pequenos, de suas pequenas, o que
será que passou em seus corações? Dá para agüentar? Se coloque
por um instante no coraçãozinho dessas crianças inocentes,
vendo suas mães sendo violentadas, com fome, com sede,
querendo abraçá-las, precisando delas, não podendo mais sentar
em seus colos para delas receber afeto, consolo e comida? Na
sua grande maioria, tenha certeza governadora, não sabiam o
que ali estava acontecendo. A quem poderiam elas se dirigir
para buscar socorro? Certamente um dia essas crianças farão a
pergunta:
Professora Ieda, economista, porque você fez isso conosco?
Porque Professora? Que lição é esta? Não tinha outra maneira?
As Ferramentas de trabalho que nossas mães utilizam para
garantir o nosso café da manhã, o almoço e o jantar, que nem
todos têm, usam para produzir comida saudável, foram
apreendidas e os barracos que nós estávamos todos destruídos.
Por que fizeram isso conosco? O que você faria se visse seus
filhos, netos, bisnetos, tataranetos (...) sendo tratados
dessa forma como nós fomos tratados?...
Que
imagem ficou gravada na memória dessas crianças que, ao invés
de ver os soldados lhes protegendo, e exigindo que a empresa
invasora de seu espaço, lhes deixássem viver em paz, viram
suas mães, mulheres camponesas que trabalham dia a dia, sol a
sol, sendo agredidas na entrada daquela fazenda? Certamente
elas não se cansarão de perguntar: Por que permitiu isso?
Quem
sabe essas crianças um dia dirão: Ainda pequeno, nos braços de
minha guerreira mãe, eu já aprendi a lutar pela vida, pela
natureza, pelo planeta. Minha mãe sempre me dizia que o
deserto verde, coloca em risco a vida da humanidade hoje e
condena a humanidade de amanhã. Aprendemos com nossas mães
lutadoras aquilo que, quem tem a tarefa de nos ensinar, não o
faz: Cuidar do planeta, a casa onde moramos. Como diz a canção
do Pe. Zezinho: quando
eu crescer eu vou cuidar do meu planeta e libertá-lo da
destruição, vocês verão!
É
possível que mais tarde essas crianças possam afirmar: Nós e
nossas mãezinhas, trabalhadoras do campo, denunciamos com
nossas vidas que a empresa Finlandesa, cometeu um crime ao ter
comprado 86 mil hectares de médios e grandes proprietários, na
área de fronteira com o Uruguai e Argentina o que é proibido
por lei. Denunciamos também o papel que cumpre o Estado quando
se coloca a serviço das multinacionais, contra o princípio da
vida humana e do planeta.
O que
essas mulheres camponesas, mães na sua grande maioria, estão
querendo é viver com dignidade no campo. Por isso propõem a
soberania alimentar, que prevê a cada país condições de
produção dos alimentos, garantindo autonomia e criando
condições para combater a fome, as doenças, a miséria e as
desigualdades sociais, possibilitando o desenvolvimento da
agricultura e do nosso país.
Exma
Governadora! Pedimos em nome da vida e do direito à liberdade
que sejam liberadas todas as mulheres camponesas, indenizadas
em seus danos, sejam eles morais ou pessoais e que seja
condenada a Empresa Stora Enso, multinacional ilegal. Pedimos
justiça às mulheres e às crianças camponesas e punição à
Empresa Stora Enso.
Salvador,
Bahia, 08.03.2008
Atenciosamente:
Sirlei A. K. Gaspareto
Estudante Ciências
Sociais. UFCG – PB |
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