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05/03/2008
Oito de março -
Mito X Origem
Entrevista com Sirlei Kroht Gasparetto*
Comunicação MMC - O 08 de
março como surgiu? É possível que tenhamos aprendido e
ensinado algo que não aconteceu na forma como divulgamos?
Sirlei
- Nós aprendemos e ensinamos que o Dia Internacional da Mulher
tem sua origem na história de uma greve, que aconteceu em Nova
Iorque, em 1857, na qual 129 operárias morreram depois de os
patrões terem incendiado a fábrica ocupada.
A
primeira menção a essa greve, aparece no jornal do Partido
Comunista Francês, na véspera do 8 de março de 1955. Mas onde
se dá a fixação da data do 8 de março, devido a esta greve,
é numa publicação, que apareceu em Berlim, na então República
Democrática Alemã, da Federação Internacional Democrática das
Mulheres. O boletim é de 1966. O artigo fala
rapidamente, em três linhas, do incêndio que teria ocorrido em
8 de março de 1857 e depois diz que em 1910, durante a 2ª
Conferência da Mulher Socialista, a dirigente do Partido
Social democrata Alemão, Clara Zetkin, em lembrança à data da
greve das tecelãs americanas, 53 anos antes, teria proposto o
8 de março como data do Dia Internacional da Mulher.
A
confusão feita pelo jornal L ´Humanité não fala das 129
mulheres queimadas. Aonde se começa a falar destas mulheres
queimadas é na publicação da Federação das Mulheres Alemã,
alguns anos depois. Esta historinha repetida muitas vezes, de
diversas formas teve origem, provavelmente, em duas outras
greves ocorridas na mesma cidade de Nova Iorque, mas em outra
época. A primeira foi uma longa greve real, de costureiras,
que durou de 22 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro de 1910.
A segunda foi uma outra greve, uma das tantas lutas da classe
operária, no começo do século XX, nos EUA. Esta aconteceu na
mesma cidade em 1911. Nessa greve, em 29 de março foi
registrada a morte, durante um incêndio, causado pela falta de
segurança nas péssimas instalações de uma fábrica têxtil, de
146 pessoas, na maioria mulheres imigrantes judias e
italianas.
Esse
incêndio foi, evidentemente, descrito pelos jornais
socialistas, nos EUA naqueles anos, como um crime cometido
pelos patrões, pelo capitalismo.
Essa
fábrica pegando fogo, com dezenas de operárias se jogando do
oitavo andar, em chamas, nos dá a pista do nascimento do mito
daquela greve de 1857, na qual teriam morrido 129 operárias
num incêndio provocado propositadamente pelos patrões. E como
se chegou a criar toda a história de 1857? Por que aquele ano?
Por que nos EUA? A explicação, provavelmente, é a combinação
de casualidades, nem sempre se encontra uma explicação para o
acontecido, pois é assim que nascem os mitos.
Comunicação MMC - "Porque" e
"como" foi sendo firmada essa data?
Sirlei
- Pouco a pouco, o mito dessa greve das 129 operárias
queimadas vivas se firmou e apagou da memória histórica das
mulheres e dos homens outras datas reais de greves e
congressos socialistas que determinaram o Dia das Mulheres,
sua data de comemoração e seu caráter político. Essa confusão
se deu por motivos históricos políticos, ideológicos e
psicológicos.
Já em
1970, o mito das mulheres queimadas vivas estava firmado.
Rapidamente foi feita a síntese de uma greve que nunca
existiu, a de 1857, com as outras duas, de costureiras, que
ocorreram em 1910 e 1911, em Nova Iorque.
Nesse
ano de 1970, com centenas de milhares de mulheres americanas
participando de enormes manifestações contra a guerra do
Vietnã e com um forte movimento feminista, em Baltimore, EUA,
é publicado o boletim Mulheres-Jornal da Libertação.
Neste já se reafirmava e se consolidava a versão do mito de
1857.
Dolores Farias, no seu artigo no jornal Brasil de Fato,
nº 2, nos lembra que, em 1975, a ONU declarou a década de 75 a
85 como a década da mulher e reconheceu o 8 de março como o
seu dia. Logo após, em 1977, a Unesco reconhece oficialmente
este dia como o Dia da Mulher, em homenagem às 129 operárias
queimadas vivas.
No
ano de 1978, o prefeito de Nova Iorque, na resolução nº 14, de
24/1, reafirma o 8 de março como Dia Internacional da Mulher,
a ser comemorado oficialmente na cidade de Nova Iorque. Na
resolução, cita expressamente a greve das operárias de 1857,
por aumento de salário e por 12 horas de trabalho diário, e
mistura esta greve fictícia com uma greve real que começou em
20 de novembro de 1909. O mito estava fixado, firmado e
consolidado. Agora era só repeti-lo.
A
partir de 1980, o mundo todo contará esta história acreditando
ser verdadeira. Evidentemente que necessitamos de um
aprofundamento maior sobre as diferentes versões contadas e
recontadas. Precisamos estudar a história de luta das
mulheres.
Comunicação MMC - Existem
estudos realizados mostrando que esse fato da greve de 08 de
março de 1857 na qual teriam morrido queimadas 129 operárias,
não aconteceu?
Sirlei
- Uma estudiosa canadense, Renée Cote, pesquisou durante dez
anos, em todos os arquivos da Europa, EUA e Canadá e não
encontrou nenhum marca da greve de 1857. Nem nos jornais da
grande imprensa da época, nem em qualquer outra fonte de
memórias das lutas operárias.
Ela
afirma e reafirma que essa greve nunca existiu. É um mito
criado por causa da confusão com as greves de 1910; de 1911,
nos EUA; e 1917, na Rússia.
Vários estudos, cada um acompanhado de uma vasta bibliografia,
que vão no mesmo sentido das pesquisas da Renée Côté. Entre
eles destacamos os artigos "8 de Março: Conquistas e
Controvérsias" de Eva A. Blay, de 1999. Outro estudo é de
Liliane Kandel, de 1982, "O Mito das Origens: sobre o Dia
Internacional da Mulher". Outro texto muito rico é da
Sempreviva Organização Feminista (SOF), de 2000, "8 de março,
Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida",
entre outros.
Comunicação MMC - Mas não
teve ninguém nessa história que reagiu contrário a versão
desses fatos?
Sirlei
- O que sabemos é que na França, essa confusão não foi aceita
tranqüilamente por todas e todos. O jornal nº 0, de 8 de março
de 1977, História d´Elas, publicado em Paris, alerta
para esta mistura de datas e diz que, em longas pesquisas,
nada se encontrou sobre a famosa greve de Nova Iorque, em
1857. Mas o alerta não teve eco.
Comunicação MMC - Então o Dia
Internacional da Mulher nem sempre foi comemorado no dia 08 de
março?
Sirlei
- Em agosto de 1910, antes do Congresso da Internacional, se
realizou em Copenhague, na Dinamarca, a 2ª Conferência
Internacional das Mulheres Socialistas. Clara Zetkin e outras
camaradas propõem a realização anual do Dia Internacional
da Mulher. O dia ficou indefinido. Ficou a cargo de
cada país escolher a data melhor para comemorar este dia. "As
mulheres socialistas de todas as nações organizarão um dia das
mulheres específico, cujo primeiro objetivo será promover o
direito de voto das mulheres. É preciso discutir essa
proposta, ligando-a à questão mais ampla das mulheres, numa
perspectiva socialista".
A
partir daí, várias foram as datas relativas às comemorações do
Dia Internacional da Mulher. Por exemplo, em 1908, a Federação
dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chicago toma a
iniciativa, autônoma, não ligada oficialmente ao Partido
Socialista, de chamar para um Dia da Mulher, num teatro da
cidade. Era o domingo, 3 de maio. Os debates do dia
tinham dois temas de pauta: 1. A educação da classe
trabalhadora. 2. A mulher e o Partido Socialista. Nessa
conferência, o palestrante Ben Hanford repetiu uma das
idéias-chaves de Engels no seu livro A Origem da Família da
Propriedade e do Estado. Nas palavras do orador, de acordo
com Engels, "As mais exploradas são as mães do nosso povo.
Elas estão de mãos e pés amarrados pela dependência econômica.
São forçadas a vender-se no mercado do casamento, como suas
irmãs prostitutas no mercado público".
Comunicação MMC - Quais foram
as Datas Básicas sobre a origem do 8 de Março?
Sirlei
- 1900-1907 - Movimento das Sufragistas pelo voto feminino nos
EUA e Inglaterra.
1907- Em Stuttgart, é
realizada a 1ª Conferência da Internacional Socialista com a
presença de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra
Kollontai. Uma das principais resoluções: "Todos os partidos
socialistas do mundo devem lutar pelo sufrágio feminino".
1908 - Em Chicago (EUA), no
dia 3 de maio, é celebrado, pela primeira vez, o Woman´s Day (
dia da mulher). A convocação é feita pela Federação Autônoma
de Mulheres.
1909 - Novamente em Chicago,
mas com nova data, último domingo de fevereiro, é realizado o
Woman"s Day ( dia da Mulher). O Partido Socialista Americano
toma a frente.
1910 - A terceira edição do
Woman"s Day é realizada em Chicago e Nova Iorque, chamada pelo
Partido Socialista, no último domingo de fevereiro.
- Em Nova Iorque, é grande a
participação de operárias devido a uma greve que paralisava as
fábricas de tecido da cidade. Dos trinta mil grevistas, 80%
eram mulheres. Essa greve durou três meses e acabou no dia
15/02, véspera do Woman"s Day.
- Em maio, o Congresso do
Partido Socialista Americano delibera que as delegadas ao
Congresso da Internacional , que seria realizado em
Copenhague, na Dinamarca, em agosto, defendam que a
Inernacional assuma o Dia Internacional da Mulher.
"Este deve ser comemorado no
mundo inteiro, no último domingo de fevereiro, a exemplo do
que já acontecia nos EUA".
- Em agosto, a 2ª Conferência
Internacional da Mulher Socialista, realizada dois dias antes
do Congresso, delibera que: "As mulheres socialistas de todas
as nacionalidades organizarão (...) um dia das mulheres
específico, cujo principal objetivo será a promoção do direito
a voto para as mulheres". Não é definida uma data específica.
Comunicação MMC - Qual é a
origem da luta das mulheres por libertação?
Sirlei
- A libertação da mulher tem origem na luta socialista.
A idéia da libertação da mulher nasceu na terra fértil do
movimento socialista mundial, no final do século XIX e começo
do século XX.
A
famosa frase de Marx, "A opressão do homem pelo homem
iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem", demorou em
dar seus frutos, mas deu.
Foi
num ambiente de lutas operárias e de discussões teóricas, no
campo socialista, que nasceu a luta pela participação
política e, pouco a pouco, pela libertação da mulher e não num
fato isolado. Foi um conjunto de fatos, acontecimentos e lutas
anti-capitalistas e anti-machistas, anti-patriarcais que deram
origem ao Dia Internacional da Mulher.
Comunicação MMC - O que
significa o MMC ter essa data como marco da luta das mulheres
trabalhadoras?
Sirlei
- Compreender o 08 de março como dia internacional da mulher
trabalhadora, significa retomar a verdade dos fatos que
incorpora toda a luta da mulher no caminho da sua libertação.
Significa acima de tudo, voltar às origens do ideal socialista
da maioria das mulheres que lutavam por um mundo novo sem
exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da
mulher pelo homem.
Significa enriquecer a comemoração desse dia com a
retomada de seu sentido original. Trata-se de um dia que quer
retomar a comemoração e a luta de mulheres corajosas, ousadas
e que acreditam na libertação para além das flores...que
assumem um 8 de março sem medos.
Significa avançar sem vergonha das derrotas sofridas pelas
revoluções perdidas no século XX, rumo à conquista da
libertação total das mulheres.
Significa integrar todos os aspectos da luta pela libertação
da mulher, descobertos com a evolução histórica da humanidade
no século XX, com a retomada de suas raízes socialistas.
Significa integrar à clássica luta de libertação, socialista e
comunista do começo do século XX, as contribuições de
diferentes linhas de pensamento e países, que vão de Wilhem
Reich a Simone de Beauvoir, de Herbert Marcuse a Samora Machel,
de Betty Friedann a Rose Marie Muraro. Integrar toda a luta do
feminismo para construir uma sociedade onde a mulher seja
reconhecida como gente.
Significa integrar estas elaborações teóricas com as lutas e
as experiências de vida de milhares de ativistas, militantes e
organizadoras da luta das mulheres, no mundo inteiro: das
guerrilheiras latino-americanas, às mulheres vietnamitas, das
trabalhadoras das fábricas às plantadoras de arroz da Índia,
das Mães dos desaparecidos argentinos, das lutadoras pela
reforma agrária do MST às corajosas mulheres dos movimentos
autônomos que lutam diariamente para derrubar as cercas das
desigualdades e das injustiças sociais. Aquelas que com a
mesma coragem lutam por uma revolução, que deverá ser social,
sexual, e profundamente cultural. Aquelas que lutam por
dignidade em suas propriedades rurais e também enfrentam o
latifúndio de pinhos, eucaliptos que ameaçam a natureza e toda
humanidade. Sem medo levantam as bandeiras da luta pela
libertação da humanidade. A libertação de homens e mulheres. A
libertação da natureza, do cosmos, do planeta e do universo.
Significa a luta pela libertação, plena, integral e
integradora.
Parabéns a
todas às mulheres, mães, lutadoras...
Um grande
abraço.
* Sirlei compõe
a direção política do MMC coordenando o grupo de elaboração e
proposição.
Está
cursando mestrado em Sociologia Rural pelo MMC- Brasil em
Campina Grande – Paraíba.
Seu
estudo retornará a nosso favor. |