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31/07/2007
Semente da Paixão:
plantando e colhendo solidariedade
e riquezas no
Semi-Árido
Carta Política
da IV Festa da Semente da Paixão
Nós, mais de 2.000 pessoas,
entre agricultoras e agricultores familiares e
representantes de entidades que integram a Articulação do
Semi-árido Paraibano e a Vía Campesina, nos reunimos na cidade
de Patos-PB, nos dias 23, 24 e 25 de julho de 2007, na IV
Festa Estadual da Semente da Paixão, para celebrar as conquistas
que alcançamos nos últimos anos em defesa da agricultura
familiar e camponesa ecológica como base de sustentação de um
modelo de desenvolvimento para o semi-árido que seja justo
socialmente, viável economicamente, sustentável ecologicamente e
respeitoso culturalmente. O evento foi também uma oportunidade
para renovarmos nossas estratégias de ação frente às sérias
ameaças à construção desse modelo.
O nosso
evento é o coroamento de um processo de preparação que vem se
desenvolvendo desde o último mês de março nas regiões do Cariri,
do Seridó, do Alto Sertão, do Agreste, do Curimataú, do Médio
Sertão, do Brejo e do Litoral da Paraíba, que mobilizou milhares
de famílias articuladas à Rede de Bancos de Sementes
Comunitários no Estado que, atualmente, é composta por 6.560
famílias associadas a 228 bancos que estão distribuídos em
municípios de todas as regiões do Estado.
A
articulação dessa rede se deu em resposta à constatação de que
as famílias agricultoras vinham perdendo ano após ano as
variedades locais de sementes do roçado que vêm sendo guardadas
e aprimoradas por gerações. Além de serem sementes de variedades
adaptadas às diferentes condições ambientais, atendem às
preferências culturais das famílias agricultoras e se ajustam
bem aos seus sistemas de produção. Além disso, são sementes que
estão à disposição na hora exata do plantio, não ficando as
famílias dependentes de programas de distribuição de sementes
governamentais. As sementes da paixão são, portanto, um
verdadeiro patrimônio genético da agricultura familiar e
camponesa do estado. Elas não podem ser colocadas em risco em
nenhuma hipótese, sob pena de tornar as famílias agricultoras
atreladas aos interesses das multinacionais ou dependentes de
ações de governo, tornando os seus sistemas de produção
inviáveis técnica e economicamente e gerando, como conseqüência,
insegurança alimentar para as famílias.
Também
consideramos que as sementes de plantas nativas da caatinga e as
raças das diferentes espécies de animais pertencem a esse
patrimônio genético. Além de sermos detentores das sementes da
paixão, dominamos como ninguém os conhecimentos sobre o uso
delas. Esse patrimônio genético, portanto, é também um
patrimônio cultural do qual não abrimos mão.
Manter
as sementes da paixão em uso permanente e intercambiá-las entre
as famílias e comunidades tem sido a principal forma como
cuidamos e multiplicamos nosso patrimônio. Além de preservar as
sementes da paixão, essa estratégia reforça laços de
solidariedade em nossas comunidades e organizações.
Colhendo também
A nossa boa vontade
Agricultor ensinando
Sem cobrar isso é verdade
Trabalhando em mutirão
Irmão ensinando irmão
Isso é solidariedade
Embora
estejamos certos de nossas estratégias de ação nas comunidades,
também temos a certeza de que precisamos fortalecer nossa luta
em defesa de políticas públicas que reforcem o caminho que
estamos trilhando. Apesar de visualizarmos alguns pequenos
avanços, infelizmente o que assistimos é o apoio irrestrito do
Estado ao fortalecimento do modelo do agronegócio no semi-árido,
inclusive nas políticas direcionadas à agricultura familiar.
O
Pronaf, por exemplo, apesar de ter sido uma conquista dos/as
trabalhadores/as, tem servido para atrelar os/as agricultores/as
familiares às empresas produtoras de insumos e sementes e tem
promovido sistemas de produção especializados, pouco
diversificados, cumprindo o papel de fortalecer a lógica do
agronegócio e enriquecer as empresas e fazendeiros, indo na
contramão da proposta de uma agricultura familiar e camponesa
diversificada, autônoma, baseada nos princípios da agroecologia.
Apesar
desse cenário desfavorável, os agricultores e as agricultoras
familiares têm lutado para garantir o uso de suas sementes da
paixão e têm alcançado algumas
vitórias: a Lei de Sementes de 2003 reconhece a legalidade das
sementes da paixão e isto permitiu que a Conab financiasse a
compra destas sementes. Fruto da mobilização das organizações
sociais, o governo tomou medidas para que os projetos de crédito
e o seguro da agricultura familiar reconhecessem o uso da
semente da paixão e não as excluísse dessas políticas. No
entanto, a vivência dos agricultores e das agricultoras mostra
que estes avanços ainda não são suficientes e é preciso
continuar na luta.
Apesar
das aberturas conseguidas junto ao Pronaf, os bancos continuam
rejeitando financiamentos para projetos que prevêem o uso de
sementes da paixão. As recentes mudanças na diretoria da Conab
também nos colocam em estado de grande apreensão quanto à
continuidade de um de seus melhores programas, o Programa de
Aquisição de Alimentos que, inclusive, vem viabilizando a
aquisição das sementes da paixão para fortalecer as redes de
bancos de sementes no estado.
O
Ministério do Desenvolvimento Agrário se equivocou ao financiar
um programa voltado à distribuição no semi-árido de sementes de
milho e feijão da Embrapa.
Este programa repete os erros de sempre: sementes de poucas
variedades, pouco adaptadas às condições e necessidades dos
agricultores, envenenadas, e com uma distribuição controlada
pelos políticos locais.
O
governo Lula cometeu um erro ainda mais grave ao ceder à pressão
do agronegócio e forçar a liberação dos transgênicos no Brasil.
Após a soja e o algodão, agora querem liberar o milho
transgênico. Além dos riscos para a saúde dos
consumidores, as plantas
transgênicas, sobretudo o milho, contaminam as outras através de
cruzamentos espontâneos.
Se o milho transgênico for
liberado, em poucos anos todas as variedades de milho estarão
contaminadas.
Uma
outra ameaça às sementes da paixão vem da política do governo
federal de incentivo a produção de agrocombustíveis,
principalmente a produção de mamona e da cana-de-açúcar para
etanol. A produção da mamona se insere num modelo extremamente
prejudicial para a agricultura familiar e camponesa, pois se
baseia no monocultivo, gera dependência dos agricultores e das
agricultoras em relação às empresas que compram a produção e não
gera a renda prometida para as famílias. A política de expansão
da produção de cana-de-açúcar para a fabricação do etanol,
altamente apoiada pelo governo brasileiro, é ainda pior, uma vez
que prevê a expansão do monocultivo de cana em grandes áreas,
disputando território com a agricultura familiar e explorando de
forma absurda e inaceitável o trabalho humano. Os nordestinos
continuam servindo de mão-de-obra barata para o trabalho no
corte da cana nas regiões sudeste e centro-oeste. Os
agricultores e as agricultoras familiares estão muito ameaçados
de perder suas terras para a expansão do agronegócio da cana, no
litoral e no semi-árido, neste último caso articulada ao projeto
de transposição do Rio São Francisco. Soma-se a isso as ameaças
advindas da pesquisa com variedades transgênicas de cana.
Pelas
razões expostas, manifestamos com firmeza os pontos abaixo,
também constantes nas moções aprovadas na III Conferência
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional realizada
recentemente em Fortaleza:
1. Exigimos uma Conab comprometida
com a agricultura familiar e camponesa;
2. Repudiamos a tentativa de
violação dos direitos dos agricultores ao uso próprio das
sementes;
3. Posicionamo-nos contra a
liberação do milho transgênico;
4. Repudiamos a decisão do governo
federal de levar a frente o projeto de transposição das águas do
Rio São Francisco.
Nosso encontro é uma mostra do vigor de nossa luta. Saímos dele
fortalecidos para permanecer unidos em defesa de nossos direitos
sobre a nossa agrobiodiversidade. Daremos continuidade ao nosso
trabalho de base, associando um número crescente de grupos
comunitários à rede de bancos de sementes no estado. A partir
dela daremos continuidade aos esforços de resgate, intercâmbio e
multiplicação da semente da paixão. Ficaremos ao mesmo tempo
atentos às iniciativas do Estado. Manifestamos desde já o nosso
total e irrestrito apoio ao Programa Nacional de
Agrobiodiversidade que vem sendo construído pela Articulação
Nacional de Agroecologia junto a diferentes organismos do Estado
(ver moção de apoio à criação do Programa Nacional de
Agrobiodiversidade, também aprovada na III Conferência Nacional
de SAN).
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