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Ficha-limpa vira ficha-suja
Pe.
Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais
Sociais
Adital
Gabriel García Marques, prêmio Nobel da
literatura representa um dos principais expoentes do
realismo latinoamericano, notadamente com a obra Cien
años de soledad. Entre seus títulos menores, porém,
figura o livro Crônica de uma morte anunciada. O
título serve bem para comentar a trajetória acidentada da
Lei da ficha-limpa. No dia 23 de março/2011, o Supremo
Tribunal Federal (STF) por 6 votos a 5, anulou sua aplicação
para as eleições de 2010, beneficiando com isso todos os
políticos de ficha suja eleitos no último pleito.
Seguindo a inspiração do escritor colombiano,
não é exagero falar de uma crônica de um fracasso
anunciado. Se, por um lado, a Lei da ficha-limpa procura
resgatar a ética na política, impedindo a eleição dos que
estejam condenados por algum tipo de crime, por outro,
encontra resistência nos setores mais retrógrados e
corruptos da sociedade brasileira. Como lei que nasceu da
iniciativa de um projeto popular, ela ajuda a quebrar o
privilégio das elites brasileiras quanto ao ato de "fazer
política”. O exercício do bem comum não é monopólio dos
políticos de carteirinha, eleitos ou filiados a determinado
partido. É dever e direito de todo cidadão! Infelizmente,
como podemos notar, a iniciativa popular que "se meter nos
negócios da política” bate de frente com vícios históricos e
estruturais, profundamente arraigados na prática dos "donos
do poder”, para usar a expressão de Raymundo Faoro.
Uma vez mais, estupefata e indignada, a
sociedade brasileira assiste a uma decisão do Judiciário em
sua instância superior, que se coloca na contramão da
crescente consciência política dos cidadãos. Também caminha
na contramão dos fundamentos básicos de uma democracia
sólida, madura e efetiva. A opinião popular, através de
instrumentos de participação como plebiscito,
abaixo-assinados, projetos de lei, etc. é requisito
indispensável à consolidação da prática democrática. A
decisão do STF, adiando a validade da Lei da ficha-limpa,
representa um duplo revés: ao mesmo tempo que frustra as
expectativas alimentadas pelo esforço de milhares de
eleitores, como diz um representante da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), confere novo fôlego ao vírus da corrupção e
do mau uso do poder, que não raro se nutre da riqueza
indevidamente adquirida, além de incentivar o tráfico de
influência no campo minado da "politicagem”.
Como se não bastasse, a decisão do STF
reveste os eleitos de ficha-suja da famigerada "imunidade
parlamentar”, atrás da qual se escondem inúmeros crimes que,
em não poucos casos, nada têm a ver com o exercício da
política. Automaticamente, os processos são engavetados e os
criminosos de colarinho branco seguem desfilando
ostensivamente pelos corredores do Congresso Nacional, da
Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais, quando
não no espaço da mídia e das páginas dos jornais. Já para os
criminosos comuns, a lei costuma ser um carrasco implacável,
de dedo em riste, apontando ameaçadoramente o castigo:
"cadeia neles!”. A essa altura, inevitavelmente, surgem
emergem à tona os conceitos de promiscuidade entre os três
poderes e de corporativismo das classes dominantes. Apesar
de uma memória tradicionalmente curta, o povo não esqueceu
ainda o recente aumento de mais de 60% aprovado para os
altos escalões do Executivo, Judiciário e Legislativo. A
conclusão inevitável é que, lamentavelmente, a balança do
poder judiciário trabalha com "dois pesos e dias medidas”. |
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