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Celebrar 1º de Maio hoje significa lutar pela retomada
da organização autônoma
dos trabalhadores
Escrito por Waldemar Rossi*
(27.04.2011)
Com o
início da industrialização, lá por volta de 1775, com a
criação da máquina a vapor, surgem duas classes sociais
distintas: o Empresariado Industrial e a Classe Operária.
Aproveitando-se da forte migração campo-cidade da época em
busca de trabalho assalariado, os empresários passaram a
exigir dos seus empregados jornadas longas, que chegavam a
16 e até 18 horas diárias. Os descansos dos fins de semanas
eram raros. Os salários baixos, o que levava a que muitas
donas de casa fossem para as fábricas, assim como crianças,
visando a melhora do rendimento para o lar.
A jornada
prolongada fazia com que muitos adoecessem, sofressem
acidentes graves e provocou muitas mortes. Foi daí que
começaram as reações dos operários (os que operam as
máquinas). As reações iniciais foram individuais, isoladas,
o que permitiu a repressão patronal. Essas derrotas
individuais forçaram o aprendizado de que era necessário
organizar a luta coletiva. Encontros internacionais de
trabalhadores decidiram organizar movimentos pela redução da
jornada em todos os países industrializados: oito horas de
trabalho, oito horas de descanso e oito horas para convívio
familiar, atividades sociais e culturais.
No dia 1º
de Maio de 1886, nos Estados Unidos, grande greve paralisou
mais de um milhão de operários. Mais de 100 mil pararam a
cidade de Chicago. Ali houve forte repressão policial, com
gente ferida e mortes. Quatro dias depois uma greve ainda
maior, nova repressão, outras mortes e a prisão de oito
dirigentes daquela manifestação. Num julgamento a "toque de
caixa" e com "cartas marcadas", os jurados decidiram pela
condenação dos oito como os responsáveis pelos
acontecimentos. Dois foram condenados à prisão perpétua e um
a 15 anos de prisão (Miguel Schwab, Oscar Neeb e Samuel
Fielden). Os outros cinco foram condenados à morte pela
forca em praça pública: August Spies, Albert Parsons, Adolph
Fischer, George Engel e Luiz Lingg - este último preferiu o
suicídio na cela.
As lutas
se intensificaram em todos os países e, aos poucos, as oito
horas foram sendo conquistadas, assim como condições
específicas para o trabalho das mulheres e menores e tantos
outros benefícios.
Passados
125 anos, o Capital desfecha novos golpes contra a classe
trabalhadora em todo o mundo capitalista, roubando direitos
conquistados com muita luta e muito sangue derramado. No
Brasil não é diferente. Os empresários querem o fim da
jornada de 44 horas.
Na
prática, obrigam seus trabalhadores a jornadas mais longas,
superiores até a 10 horas, inclusive aos sábados, domingos e
feriados. Exigem reformas da Previdência para que os
trabalhadores se aposentem após 65 anos (mulheres aos 60) de
idade, e um mínimo de 35 anos de contribuição. Com a
rotatividade no emprego, o desemprego e os trabalhos
precários, poucos chegarão à aposentadoria: morrerão
trabalhando. Querem o fim do 13º salário, diminuição das
férias, eliminação da licença gestação/maternidade e a livre
negociação por empresas para facilitar o achatamento dos
salários e quebrar de vez o papel representativo dos
sindicatos.
Quantos
outros direitos já não vêm sendo surrupiados aos
trabalhadores, disfarçadamente? Um exemplo: a contratação
para trabalhar sem registro por experiência ou
temporariamente.
Nossas
esperanças foram depositadas na formação da Central Única
dos Trabalhadores (CUT), em 1983. O momento político da
época e o avanço da consciência da classe trabalhadora foram
determinantes para esse novo passo do conjunto do movimento
sindical.
Entretanto, o empresariado não estava dormindo. Buscou novos
aliados e provocou o racha no movimento dos trabalhadores.
Da união do peleguismo comandado por Joaquinzão com a
direção do então PCB, do PC do B e do MR-8, nasce a
divisionista CGT para combater as greves por categorias
profissionais ou mesmo gerais, como vinha acontecendo. Era o
esforço para dividir a classe operária, colocando-a a
serviço dos interesses patronais.
Contrariados com os fracos resultados dessa divisão, os
homens do capital patrocinaram a formação de mais uma
central: A Força Sindical (ou Farsa sindical?). O
"sindicalismo de resultados", troca dos dedos por alguns
anéis, levou à capitulação progressiva da direção cutista.
Já nos anos 90 percebia-se que a direção da CUT não estava
mais interessada em defender os interesses dos
trabalhadores. Sua meta era outra: levar Lula à presidência
da República, a qualquer preço. E esse preço incluía a
passividade do movimento sindical.
Hoje,
estamos assistindo à mais vergonhosa capitulação das
centrais sindicais tradicionais aos interesses do capital
nacional e internacional. Sobretudo a CUT e a Força Sindical
- verdadeiras inimigas entre si nos anos 90 -, tornaram-se
cúmplices da entrega dos nossos direitos ao capital e se
unem para abafar a consciência e a memória histórica dos
trabalhadores. Em São Paulo, estão unidas na promoção do
show no dia 1º de maio, a Força, a UGT, CGTB, CTB (esta
correia de transmissão do PC do B) e Nova Central. Show
financiado por empresas estatais (Petrobras, Caixa,
Eletrobrás) e muitas empresas particulares (Brahma,
Carrefour, Casas Bahia, Pão de Açúcar, BMG, Banco Itaú,
Bradesco*), que financiarão também 20 carros a serem
sorteados durante o show.
O que é,
então, celebrar o 1º de Maio, hoje, 125 anos depois dos
acontecimentos de Chicago? É retomar a organização autônoma
dos trabalhadores, a começar pelos locais de trabalho
(fábricas, comércio, hospitais, escolas, unidades públicas e
também nas comunidades), para reforçar os sindicatos que
continuam comprometidos com os trabalhadores; é fazer novas
experiências de organização e de lutas visando a construção
de um outro instrumento de lutas, que não repita os desvios
ideológicos como vem acontecendo nos últimos 20 anos; é
entrar nas lutas em defesa dos nossos direitos, pelas 40
horas semanais, contra as reformas que visam eliminar
direitos conquistados e que estão circulando no Congresso
Nacional, entre tantas outras importantes.
Participe
dos atos em memória dos nossos mártires! É urgente somar
forças com os setores do movimento sindical e popular que
ainda resistem aos ataques do capital e renovar o
compromisso de lutar em defesa dos nossos direitos.
Em São
Paulo, ato na Praça da Sé, a partir das 10h
Atividades
culturais, memória dos 125 anos de lutas e apresentação da
pauta de lutas da Classe Trabalhadora. Patrocínio das
Pastorais Sociais, de parcela do movimento social, dos
sindicatos ligados à Conlutas e Intersindical, Consulta
Popular e partidos da esquerda (PSOL, PCB, PSTU).
Fonte: Folha de 24/04, página
A10.
*Waldemar Rossi é metalúrgico
aposentado e coordenador da Pastoral Operária da
Arquidiocese de São Paulo |
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