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29/04/2008
A miopia do debate
energético
Enquanto no Brasil se desqualifica qualquer referência à
eletricidade de origem solar e eólica, no resto do mundo esses
setores estão entre os que mais crescem
Por Heitor
Scalambrini Costa*
O
debate energético brasileiro sofre um bloqueio praticamente
impenetrável contra qualquer iniciativa a favor de fontes de
energia elétrica, que não sejam geradas pelas
mega-hidrelétricas. Por outro lado, não faltam ainda aqueles
que consideram a opção nucleoelétrica limpa (?), por não
emitir gases de efeito estufa, desconsiderando os efeitos de
eventuais acidentes e do "lixo" produzido pelos reatores
nucleares.
O que
se constata é que o mundo inteiro está investindo em energia
eólica e fotovoltaica (eletricidade solar).
O
mercado de energia eólica cresceu 30%, em 2007. Na China, ele
triplicou. No EUA, dobrou. Na Espanha cresceu 30%, com adição
de 3.500 MW à rede. Na Alemanha, cresceu 8%, representando a
adição de 1.700 MW ao parque eólico, totalizando quase 22.500
MW, o maior do mundo. No Brasil não chega a 250 MW de potência
instalada.
O
setor de eletricidade solar cresce 45% ao ano, em média, no
mundo, desde 2002. No ano passado, cresceu 50%, em relação a
2006. Significa que ele dobra de tamanho a cada dois anos.
Também os investimentos em novas tecnologias para energia
solar fotovoltaica crescem a ritmo acelerado. O custo da
potência instalada da eletricidade solar caiu 9%, em termos
reais, entre 2000 e 2006. Sua participação no total da
capacidade elétrica instalada ainda é pequena, em comparação
às fontes tradicionais, mas tem uma curva exponencial de
crescimento que justifica cenários futuros que projeta uma
fatia expressiva no sistema elétrico mundial.
Cresce, também, o tamanho das usinas de eletricidade solar, e
o número de casas conectadas à rede elétrica, que, atualmente,
corresponde a mais de 1,5 milhões de unidades.
Enquanto, no Brasil, se desqualifica qualquer referência ao
uso da eletricidade de origem solar e eólica, no resto do
mundo, esses dois setores estão entre os que mais crescem, os
custos caem e as instalações se expandem.
Em
qualquer ambiente do setor, público ou privado, que se fale em
energia solar ou eólica, como opção para aumentar a oferta de
energia elétrica, é visto com preconceito, como uma
excentricidade ambientalista. Os argumentos são sempre os
mesmos: não dão escala - escala é uma das palavras mágicas do
paradigma elétrico dominante - são muito caras. Como se as
hidrelétricas fossem baratas, e que seus reservatórios não
emitissem gases de efeito estufa, e nem atingissem as
populações ribeirinhas. A realidade é que elas existem em um
sistema que mistura subsídios cruzados, sem nenhuma
transparência e com custos não contabilizados - entre eles o
ambiental.
O
lobby hidrelétrico se baseia no fato que a maioria absoluta
dos engenheiros e técnicos do setor é especializado em
hidreletricidade e deve sua carreira profissional à indústria,
que se formou, historicamente, em torno dos mega-projetos,
desconsiderando as alternativas e com argumentos técnicos e
econômicos, que parecem totalmente persuasivos, de que devemos
continuar sendo assim para sempre. A outra força do poder
hidrelétrico são as empreiteiras especializadas em grandes
obras. Ambas as forças deste lobby se baseiam em uma
mentalidade de grandes obras, legitimada por uma ideologia de
desenvolvimento pela qual devemos fazer tudo grande, para ter
um Brasil grande.
O
paradigma das mega-hidrelétricas nunca foi rompido, não apenas
como centro do processo de constituição da indústria elétrica
no Brasil, mas como proposta para o futuro, para o médio e
longo prazo. Daí os resultados pífios do Proinfa, o Programa
de Incentivo de Fontes Alternativas de Energia, que é
gerenciado pela Eletrobrás como um projeto marginal vis-à-vis
da política energética tradicional. Apesar de suas metas
modestíssimas, produção de 3.300 MW a partir de biomassa,
eólica e hídrica (PCH´s), está empacado. Em cinco anos não
realizou nem 40% das suas metas originais e jamais é
mencionado como opção para enfrentar a crise do setor
hidrelétrico.
O
debate energético, monopolizado pelo lobby hidrelétrico, não
admite que o modelo atual está baseado em premissas antigas e
equivocadas, precisando ser substituído por um projeto
energético diferente, contemporâneo dos desafios e
possibilidades do século XXI, para que tenhamos segurança
energética de longo prazo, que diversifique e complemente a
matriz energética nacional com fontes renováveis (energia
eólica, solar, pequenas centrais hidrelétricas e biomassa), e
que leve em conta um modelo de desenvolvimento sustentável
tanto no aspecto econômico, como social e ambiental.
Estamos na contra mão da historia. As estratégias energéticas
hoje estão definidas, tendo como objetivo central buscar uma
matriz energética com baixas emissões de gases que causam o
efeito estufa, que leve em conta a diversificação com fontes
renováveis de energia e livres dessa mentalidade das grandes
obras, que centralizam a geração elétrica.
É
este debate que deve ser realizado pela sociedade brasileira.
*Professor da
Universidade Federal de Pernambucoe membro da ONG Centro de
Estudos
e
Projetos Naper Solar (filiada à ASA - Associação do
Semi-Árido). |
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