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29/04/2008
Crise esvazia
debate ideológico sobre modelo ideal do agronegócio
Necessidade de
aumentar produção deixa em segundo plano opção entre
agricultura familiar e empresarial
Por João
Domingos
Pela
segurança alimentar do País, num momento de crise mundial de
aumento de preços e escassez na oferta de alimentos, e pela
garantia de excedentes de grãos para a exportação, o governo
decidiu abandonar o discurso ideológico sobre a pequena e
grande propriedade, da agricultura familiar ou empresarial. “O
discurso ideológico perde completamente o sentido quando o
interesse geral de todos é a segurança alimentar. Temos é de
produzir alimentos para o consumo interno e aumentar a
produção destinada à exportação”, diz o ministro do
Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, de esquerda,
defensor da agricultura familiar.
“Não
faço distinção entre pequena, média e grande propriedade. O
agronegócio é de todos. Na batalha pela segurança alimentar,
técnicos nossos e do Desenvolvimento Agrário trabalham em
conjunto para melhorar as condições de produção. Isso é o que
interessa”, complementa o ministro da Agricultura, Reinhold
Stephanes, de centro, que cuida dos interesses da agricultura
empresarial e tem como responsabilidade o controle sanitário e
o combate à febre aftosa e a outras doenças, medidas
necessárias para a política de exportação do País.
De
fato, se o próprio governo tem dois ministérios para cuidar da
questão agrícola - o do Desenvolvimento Agrário para os 4,2
milhões de agricultores familiares, e o da Agricultura para
todo o restante -, todo mundo está envolvido com o agronegócio.
De acordo com dados fornecidos pelo ministro Guilherme Cassel,
40% do movimento do agronegócio brasileiro vem da agricultura
familiar, onde a renda bruta não pode ultrapassar os R$ 110
mil anuais e ninguém pode ter mais do que dois empregados
fixos. Quem se enquadra nessas condições tem direito a
empréstimos subsidiados. Para 2007/2008, o governo destinou R$
12 bilhões à agricultura familiar. Em 2003, a verba era de R$
2,3 bilhões.
Para
o ministro Reinhold Stephanes, o Brasil goza de uma situação
privilegiada no mundo, no que se refere à produção de
alimentos. À exceção do trigo, o País não apenas é
auto-suficiente no que produz, como bate recorde em cima de
recorde em termos de excedentes.
“Crescemos 16% todo o ano na produção de excedentes
alimentares para exportação; o segundo lugar não chega a 10%”,
diz ele. “Temos solo, tecnologia, mão-de-obra e somos,
reconhecidamente, o mais produtivo e eficiente país na
produção de alimentos”, afirma.
Guilherme Cassel diz que hoje a agricultura familiar é
responsável por 70% de todo o alimento que o brasileiro
consome. Arnoldo Campos, secretário de Agricultura Familiar do
Ministério do Desenvolvimento Agrário, fornece os dados:
feijão, 70%; mandioca, mais de 90%; leite, mais de 50%; aves e
suínos, mais de 60%; trigo, mais de 50%; hortigranjeiros, mais
de 90%. “A agricultura empresarial é responsável por quase 70%
da produção de bovinos, arroz e soja; e 51% do milho, além de
predominância quase total na cana-de-açúcar”.
Campos, que é técnico e não é filiado a nenhum partido
político, afirma que o Brasil deve ser pouco afetado pelo
aumento de preços e pela crise mundial de alimentos. “Assim
como aconteceu na crise do subprime (a recente crise que teve
início nos Estados Unidos, por causa da supervalorização de
imóveis), em que o Brasil praticamente não foi atingido porque
tinha reservas monetárias muito altas, no caso dos alimentos o
País está blindado”.
Em
parte, diz Campos, por causa da agricultura familiar, que
consegue suprir toda a demanda interna por alimentos. “Se
tivéssemos nos concentrado na produção para exportação, como
fez a Argentina, provavelmente estaríamos passando pelos
mesmos problemas do país vizinho. Felizmente, a produção
interna criou uma barreira contra a crise alimentar. Temos
condição de aumentar em muito a produção, tanto para o consumo
crescente no País, quanto para a exportação, porque temos
excedentes”.
Campos cita o caso do leite como exemplo de como o País tem
conseguido passar ao largo das crises. Enquanto no exterior o
produto aumentou mais de 210%, no Brasil os preços subiram
18%. Hoje, ao contrário do que ocorria há cinco anos, quando o
País importava leite em pó, o Brasil tem grande excedente para
exportação, tendo passado dos 10 bilhões para 25 bilhões de
litros de leite anuais.
“O
desafio da política agrícola do governo, seja na agricultura
familiar, seja na empresarial, é garantir o consumo interno e
aumentar o excedente. Apesar da crise mundial, as condições
são altamente favoráveis ao Brasil, visto que o mundo passa
por desarranjos climáticos e enfrenta problemas com os
biocombustíveis, como nos Estados Unidos, que passaram a
utilizar parte do trigo para produzir etanol. Isso, de fato,
tem impactado os preços”, diz o secretário.
Agricultura familiar, como
uma 'empresa organizada'
Evandro Fadel
O
agricultor Eduardo Rugiski, de 61 anos, nasceu ali e nunca
deixou a chácara de 9 hectares no município de Campo Magro, na
região metropolitana de Curitiba. Casado com Bronislava, de 60
anos, que morava em propriedade vizinha, teve cinco filhos e
hoje embala duas netas. Da terra própria tirou e continua
tirando boa parte da sobrevivência da família. “Foi tudo feito
no cabo da enxada”, exulta. Os filhos têm outros empregos, mas
nenhum abandonou a lavoura.
Segundo a mãe, a terra é o elo que mantêm todos eles unidos,
morando no mesmo local. Além dos 9 hectares, os filhos alugam
áreas vizinhas para ampliar a produção. Atualmente, a maior
parte está coberta pelo milho, utilizado para alimentar os
animais e complementar a renda. Eles também plantam feijão,
para consumo próprio e venda. E desistiram do arroz pela falta
de tempo para se dedicar à cultura.
Perto
da casa, uma horta garante verduras e legumes para consumo, e
ainda sobra para vender a um mercado. A responsabilidade pela
horta é do filho Teodoro, de 39 anos, que, agora, com o pai e
a mãe, está terminando um curso sobre a qualidade no meio
rural. “A propriedade precisa ser uma empresa organizada”,
salienta. Segundo ele, auxílio governamental para produzir
nunca faltou. “Principalmente para a agricultura familiar.” No
entanto, eles têm optado por evitar financiamentos.
Também para consumo próprio, o pomar fica recheado com
laranja, tangerina, uva e caqui. Até vassoura é plantada na
propriedade. Para complementar a renda, Bronislava, conhecida
como vovó Bruna, montou uma casa de café colonial. Os produtos
são feitos por ela. E por isso costuma ir ao supermercado,
onde adquire, sobretudo, o trigo, cultura inviável pela falta
de pequenos moinhos. Mas da terra ela tira a batata-doce,
matéria-prima para fabricar balas, sua mais nova
especialidade.
Eles
quase foram à falência na grande geada de 1975. Toda a batata
plantada se perdeu. Para pagar o financiamento bancário,
desfizeram-se de muita coisa, entre elas o Aero Willys, ainda
hoje lembrado com saudade. “Foi uma época difícil e chegamos a
pensar em vender tudo”, diz vovó Bruna. “Mas, se tivéssemos
vendido, não sei se não estaríamos em barracos de sem-terra”.
Trabalhando desde os 6 anos em lavouras, ela não consegue se
ver em outra atividade que a obrigue a morar na cidade. “Na
roça, a vida é muito tranqüila, apesar de muito difícil. O
agricultor é um herói”. Hoje, um trator ajuda nas atividades.
No pasto, um cavalo curte a aposentadoria depois de ter puxado
muito arado. Ao lado, três bois pastam. “Não compramos carne”,
acentua vovó Bruna.
Dezenas de galinhas ciscam no quintal, enquanto porcos
engordam para fornecer a banha usada no dia-a-dia. “Aqui toda
a alimentação é pura”, arremata.
Fonte:
Estadão de
domingo - Crise esvazia debate ideológico sobre modelo ideal
do agronegócio. |
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