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28/05/2008
‘Alimentos não são
mais baratos como foram’, diz FAO
A
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a
Alimentação (FAO) divulgou relatório onde prevê que os
preços dos alimentos em todo o mundo não deverão cair
substancialmente nos próximos anos, mesmo com o aumento da
produção. A reportagem é de Jamil Chade para o jornal
O Estado de S.Paulo, 23-05-2008.
Para
a entidade, uma série de fatores levou as cotações
internacionais desses produtos para um patamar mais elevado.
Por isso, o agronegócio deverá movimentar mais de US$ 1
trilhão neste ano. O Brasil deve ganhar mercados,
especialmente de carnes e milho. Mas uma expansão
significativa da produção brasileira de grãos na próxima safra
não é certa.
Além
disso, nem toda a alta de preços deverá ter repercussão
positiva para o País, especialmente no caso do trigo, em que
há forte dependência das importações. No arroz, a oferta e a
demanda estão ajustadas, o que mantém os preços em alta.
A
FAO acredita que o novo nível de preços será mantido mesmo
diante de projeção de produção recorde de alguns produtos,
como cereais. Algumas commodities tiveram os preços
reduzidos nas últimas semanas, mas não há previsão de voltar
aos níveis anteriores.
Desde
fevereiro os preços médios de alguns produtos têm se
estabilizado. O problema é que haviam aumentado 53% nos quatro
meses anteriores e as projeções são de que a pressão
inflacionária poderia persistir pelos próximos dez anos.
Segundo a FAO, a supersafra de 2008 será registrada em
vários setores. Os americanos terão sua maior safra do trigo
desde 1998, com crescimento de 16%. A União Européia terá uma
safra 13% maior.
A
produção de arroz deve crescer 2,3%. Ao contrário de 2007,
haverá mais produção do que consumo. Mas, diante das barreiras
às exportações em vários países, a previsão é de que não
haverá arroz suficiente para derrubar a cotação, que teve alta
de 71% entre janeiro e abril.
Para
a FAO, portanto, o impacto será significativo. Os
países mais pobres terão de pagar US$ 169 bilhões neste ano
para se alimentar, 40% mais que em 2007 e quatro vezes mais
que o importado em 2000.
Para
a entidade, a solução seria uma maior ajuda da comunidade
internacional à essas economias. O pior, segundo a agência da
ONU, é que essa alta não significa que vão comprar mais
alimentos. Alguns estão até cortando as importações.
No
total, o mundo gastará com alimentos US$ 215 bilhões a mais
neste ano que em 2007, uma alta de 26%. Grande parte dessa
conta irá para o pagamento de arroz, trigo e óleos vegetais.
Os três setores atingiram níveis recordes de preço.
Os
motivos são variados, incluindo a explosão nos preços dos
fertilizantes - derivados de petróleo, cujo preço supera
recordes todos os dias -, o custo do frete, que duplicou em
alguns casos, e a especulação. Esses fatores explicariam ainda
a alta de 30% nos preços do açúcar e, principalmente, no
comércio de milho, com até mesmo uma queda nas importações.
Para
a FAO, o cenário deve levar a um aumento da fome no
mundo. “Alimentos não são mais baratos como foram”, afirmou o
diretor-assistente da FAO, Hafez Ghanem. O planeta tem
hoje 854 milhões de famintos, número que deve aumentar. Para a
ONU, a crise é a pior em mais de meio século.
Até
mesmo o Vaticano decidiu intervir na crise. Em declarações ao
Estado, o embaixador da Santa Sé na ONU, arcebispo Silvano
Tomasi, alerta que os subsídios nos países ricos deveriam
ser revistos. “Subsídios injustos precisam ser eliminados”,
disse. “Precisamos mudar a mentalidade do mundo e não pensar
na agricultura apenas como lucros”, disse.
Para
reverter o problema, a FAO já indica que uma safra
apenas não será suficiente e pede que investimentos sejam
feitos na agricultura, principalmente nos países emergentes. O
aumento na demanda e a necessidade de repor estoques devem
fazer com que os preços continuem altos.
Hoje,
a crise ocorre diante de uma produção recorde de cereais, de
2,1 bilhões de toneladas. Mas a volatilidade, inclusive no
trigo, deve continuar. |