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27/06/2008
Pesquisa para
quem?
Nota da
Via Campesina Pernambuco à sociedade brasileira
Dia
10 de junho a Via Campesina Brasil deu início a sua Jornada
Nacional de Luta Contra o agronegócio e em defesa da
agricultura camponesa.
Em
Pernambuco, entre várias ações que estão se realizando durante
a semana, foi realizada uma ação em protesto contra a produção
em larga escala de agro-combustíveis, em específico o avanço
da monocultura da cana-de-açúcar. O ato foi realizado na
Estação Experimental de Cana-de-Açúcar (EECAC), no município
de Carpina, Zona da Mata Norte de Pernambuco. A Estação
Experimental é uma Parceria Público-Privada entre o Sindaçúcar
- Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de
Pernambuco, que reúne as 20 maiores usinas do Estado - e a
Universidade Federal Rural de Pernambuco, e há 38 anos
desenvolve pesquisas para o desenvolvimento genético de cana,
inclusive, de cana transgênica.
O
objetivo da ação política não foi um ataque à universidade ou
às pesquisas acadêmicas em geral. O objetivo principal foi
demonstrar à sociedade que os camponeses e camponesas do
Brasil são contra este modelo que privilegia a monocultura
exportadora, utilizando nossas riquezas naturais, nossas
terras e mão-de-obra barata, destruindo o meio ambiente e
produzindo trabalho escravo. Entendemos que o papel da
universidade não é usar recursos públicos para pesquisas que
beneficiam usineiros, mas sim, para pesquisas que construam
uma alternativa de desenvolvimento para região que possa
servir à grande maioria.
A
Estação Experimental de Cana-de-Açúcar recebe cerca de 6
milhões de reais por ano para investir em pesquisa de
"melhoramento genético" de cana-de-açúcar. Metade desse
recurso - R$ 3 milhões - são provenientes de usinas ligadas ao
Sindaçúcar, o que prova a estreita relação entre a Estação, a
UFRPE e os usineiros. Os outros R$ 3 milhões são captados por
projetos de pesquisa vinculados à UFRPE - ou seja, é dinheiro
público.
Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(Incra), o custo médio para o assentamento de uma família na
região nordeste é de R$ 25 mil por família. Isso quer dizer R$
6 milhões poderiam assentar pelo menos 240 famílias por ano no
nordeste, que estaria produzindo alimentos saudáveis para elas
e para a população local. Ao invés disso, esse dinheiro é
utilizado para beneficiar 28 usinas e destilarias nos estados
de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, e para promover
ainda mais o avança do monocultivo de cana-de-açúcar, causando
a elevação dos preços dos alimentos e a concentração da
propriedade da terra por empresas estrangeiras.
A
diminuição sucessiva da área plantada de alimento terá, em
breve, conseqüências gravíssimas para toda população mundial.
Hoje a população urbana já está sofrendo em função do aumento
dos preços dos alimentos, conseqüência principalmente da
utilização da soja brasileira para produção de biodiesel e do
milho dos Estados Unidos para produção de etanol.
Nós,
da Via Campesina, somos aqueles que foram despojados de toda e
qualquer sorte e possibilidade em conseqüência da ação
devastadora da monocultura da cana-de-açúcar, concentradora de
terra e riqueza. Somos pobres, fomos durante toda história
escravos do setor sulcroalcooleiro, que sempre dominou a Zona
da Mata Pernambucana, que chega até a ser chamada por alguns
pesquisadores de "região canavieira". Somos filhos desta terra
e ao longo da história fomos construindo a consciência de que
nesta região podemos construir um outro modelo de agrícola e
de desenvolvimento econômico.
Queremos fazer entender que a responsabilidade da universidade
publica é para com o povo e não para com o agronegócio e o
capital financeiro, que querem transformar os alimentos, as
sementes e todos os recursos naturais em mercadoria para
atender os interesses, o lucro e a ganância das grandes
empresas transnacionais.
Os
recursos financeiros e humanos de uma instituição pública como
a Universidade Federal Rural de Pernambuco devem ser usados
para ajudar a resolver os problemas do povo brasileiro. E a
fome é um deles. Portanto que pesquisem desenvolvimento de
milho, de feijão, de macaxeira. Se os usineiros querem fazer
pesquisa para aumentar seus lucros, que façam em suas terras e
contratem seus técnicos.
Certamente quando a universidade pública entender seu papel
social ela poderá contribuir muito utilizando o conhecimento
acumulado e os técnicos servidores públicos que se apropriaram
destes conhecimentos, com recursos públicos do povo
brasileiro, para a melhoria das condições de vida da maioria e
a produção de alimentos saudáveis e baratos. Esse é certamente
o anseio da maioria do povo brasileiro e de inúmeros
professores e alunos da UFRPE e da UFPE que nos parabenizaram
pela ação e continuam nos prestando sua solidariedade.
Via Campesina
- Pernambuco |