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27/06/2008
Declaração final
da Conferência Internacional sobre os Direitos das Camponesas
e Camponeses
No 60°
aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
reclamamos como camponesas e camponeses do mundo nossa própria
convenção.
Jakarta,
Junho 24 do 2008.
Camponesas e camponeses, membros do Movimento Internacional da
Via Camponesa e provenientes de 25 países, nos reunimos entre
o dia 20 e 24 de junho de 2008 durante cinco dias na
Conferência Internacional sobre os Direitos das Camponesas e
Camponeses em Jakarta, Indonésia. Após sete anos de intensas
discussões sobre os conteúdos e as estratégias, nossos
espíritos estão animados e plenos de confiança em que
poderemos alcançar uma Convenção dentro das Nações Unidas
sobre os direitos das Camponesas e Camponeses. Esta convenção
será uma das pedras angulares de sustentabilidade de vida para
os seres humanos no planeta.
As
camponesas e camponeses, mulheres e homens sem-terra,
trabalhadores rurais, povos indígenas e agricultores de
pequena e média escala, representamos quase a metade da
população mundial e somos a coluna vertebral dos sistemas
alimentícios. A crise alimentaria e as mudanças climáticas nos
demonstram de que maneira se produziram violações em massa e
sistemáticas a nossos direitos.
Vemos
como tem aumentado o desalojamento violento de nossas terras e
como fomos alienados de nossas fontes de subsistência. Os mega
projetos de desenvolvimento como as grandes plantações para os
agrocombustibles, as grandes represas, os projetos de
infra-estrutura, a expansão industrial, a indústria
extrativista e o turismo deslocaram de maneira forçada nossas
comunidades e destruíram nossas vidas. Muitos conflitos
armados e muitas guerras estão ocorrendo nas áreas rurais. A
expulsão das terras e a destruição dos cultivos estão sendo
utilizados freqüentemente como arma contra a população civil
rural.
Não
temos ter entradas econômicas que nos permita viver
dignamente. A mistura das políticas nacionais e das condições
internacionais são as responsáveis de conduzir-nos à extinção.
É importante ressaltar dentro destas políticas os processos de
privatização e posse da terra que tem levado à reconcentração
da propriedade sobre a terra; ao desmantelamento dos serviços
públicos rurais e de todos aqueles que apóiam a produção e a
comercialização da pequena e a média agricultura; ao fomento
da agroexportação altamente capitalizada e dependente de
insumos; que impulsionam a liberalização do comércio na
agricultura e as políticas de segurança alimentícia baseadas
no comércio internacional.
Em
muitos países, vemos como aumenta a proibição para manter,
preservar, intercambiar e cultivar nossas próprias sementes.
Nosso conhecimento e sabedoria estão desaparecendo e somos
forçados a comprar sementes produzidas pelas grandes
transnacionais que aumentam seus benefícios. Estas companhias
estão produzindo Organismos Geneticamente Modificados e
fomentando as monoculturas com a subseqüente perda de muitas
espécies e da biodiversidade em geral.
Adicionalmente, nós, as mulheres camponesas, sofremos de uma
dupla marginalização: como camponesas e como mulheres. A
responsabilidade de nossas famílias está em nossas mãos e a
dificuldade e a incerteza dos cuidados em matéria de saúde e
de educação nos obriga a trabalhar muitas horas em troca de um
mínimo retorno econômico. As mulheres que trabalham como
diaristas no meio rural estão sendo forçadas a utilizar
produtos químicos e por isto estão arriscando sua saúde.
A
opressão violenta constitui uma experiência cotidiana para o
campesinato. Somos vítimas de detenções e tortura, nos vemos
fustigados e intimidados e também somos vítimas de
assassinatos. Milhares de camponesas e camponeses estão sendo
criminalizados por causa da luta que levam pela defesa de seus
direitos. As mulheres camponesas também sofremos da violência
das mãos de nossos maridos, companheiros ou empregadores. Esta
violência pode ser física ou psicológica e pode chegar a
ameaçar nossas vidas.
Herdamos uma longa história de lutas camponesas pela defesa de
nossos direitos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e
os principais tratados de direitos humanos são instrumentos
importantes dentro de nossas lutas contemporâneas. No entanto,
pensamos que assim como outros grupos oprimidos como os povos
indígenas e as mulheres, chegou o momento de tornar explícitos
nossos direitos individuais e coletivos, chegou o momento da
soberania alimentaria. Existem grandes vazios na interpretação
e na implementação dos principais tratados em matéria de
direitos humanos quando se aplicam ao campesinato. Além disso
nos enfrentamos a uma série de violações sistemáticas de
nossos direitos; um exemplo, são os crimes cometidos pelas
grandes transnacionais e os Acordos de Livre Comércio. Esta
série de violações devem ser abordadas com precauções e
mecanismos específicos que garantam a completa proteção de
nossos direitos.
Uma
futura Convenção sobre os Direitos das Camponesas e os
Camponeses conterá o conjunto dos valores do campesinato – e
deverá particularmente fortalecer os direitos das mulheres
camponesas - que serão respeitados, protegidos e garantidos
pelos governos e pelas instituições internacionais.
Com
este propósito, nos comprometemos a desenvolver uma estratégia
em vários níveis que trabalhe de maneira simultânea nos
âmbitos nacional, regional e internacional para conscientizar,
mobilizar ajudas e construir alianças não somente com as
organizações camponesas, mas também com as organizações de
trabalhadores rurais, de pastores, de povos indígenas, de
comunidades pesqueiras, ambientalistas, mulheres,
intelectuais, defensores de direitos humanos, jovens, de
movimentos urbanos e de consumidores e com grupos religiosos.
Também buscaremos o apoio de nossos governos, dos parlamentos
e instituições de direitos humanos para o desenvolvimento da
Convenção dos Direitos das Camponesas e Camponeses. Fazemos um
chamado à FAO e ao FIDA a cumprir plenamente seus mandatos
contribuindo para a proteção dos direitos do campesinato. Com
este propósito, solicitamos ao departamento de assuntos
jurídicos da FAO, compilar todos os instrumentos existentes
dentro desta instituição que protejam os direitos das
camponesas e camponeses. Levaremos nossa Declaração ao seio do
Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.
Organizaremos campanhas e ações, e faremos um chamado a nossos
membros e a nossas redes para mobilizar-nos por nossa
Convenção sobre os Direitos das Camponesas e Camponeses no
próximo dia 10 de dezembro, por conta do 60º. aniversário da
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
À luz
das ameaças impostas pelo ataque neoliberal capitalista sobre
os sistemas alimentícios locais e sobre o campesinato em
geral, fazemos um chamado a unir forças para o bem da
humanidade.
Globalizemos a
luta! Globalizemos a esperança!
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