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A força das mulheres contra a fome
José Graziano da Silva
Não
constitui exclusividade brasileira a triste evidência de que
a exclusão tem rosto e gênero e pode ser personificada na
figura de uma mulher pobre, de baixa escolaridade,
trabalhadora rural. O que nem sempre é lembrado é que a
redenção desse símbolo da desigualdade pode significar,
também, a redenção de um pedaço expressivo da fome, tornando
a superação das discriminações de gênero no acesso à terra,
ao crédito e a insumos uma das prioridades da luta pela
segurança alimentar em nosso tempo.
O alcance
dessa agenda não pode ser subestimado.
Nos países
pobres e em desenvolvimento, 43% da força de trabalho
agrícola é formada por mulheres. A Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) acaba de
demonstrar na edição 2010-2011 de sua publicação "O Estado
Mundial da Agricultura e da Alimentação" que as restrições
de gênero provocam uma produtividade de 20% a 30% menor nas
lavouras sob controle feminino, em comparação com áreas
equivalentes sob comando masculino.
A
igualdade de acesso à terra, insumos e crédito poderia
elevar a oferta de alimentos em até 4%, tirando de uma
condição de subnutrição de 100 milhões a 150 milhões de
pessoas num universo de quase um bilhão de famintos. Fechar
o abismo de gênero traria desdobramentos ainda mais
expressivos em economias asiáticas e africanas, onde se
entrecruzam as manchas de fome mais densas do planeta e, não
por acaso, as demografias femininas mais significativas da
agricultura.
Enquanto
na América Latina e Caribe a participação feminina na mão de
obra agrícola é da ordem de 20%, na Costa do Marfim já
atinge 36%; bate em 60% no Lesoto, Moçambique e Serra Leoa,
sendo superlativa em praticamente toda a África subsaariana.
Em muitos casos, tal hegemonia espelha o saldo de conflitos
e doenças, como o HIV, ademais do êxodo maciço da força de
trabalho masculina.
Razões
migratórias distintas, decorrentes sobretudo da aceleração
do ciclo industrial, têm peso significativo na China, onde a
mulher representa 48% da mão de obra rural com viés
ascendente. No Vietnã, quase 50% da produção de arroz, uma
das mais importantes do mundo, tem por trás mãos femininas.
A
igualdade de acesso à terra, insumos e crédito poderia
elevar a oferta de alimentos em até 4%, tirando de uma
condição de subnutrição de 100 a 150 milhões de pessoas num
universo de quase um bilhão de famintos, especialmente na
Ásia e África.
Independente da latitude, as produtoras rurais têm menor
acesso à terra, a sementes, fertilizantes, ferramentas,
tecnologia, extensão e crédito. O desequilíbrio se reproduz
no controle das criações que representam 40% da renda no
campo. Em todo o mundo, aproximadamente 400 milhões de
mulheres agregam o cuidado dos rebanhos aos afazeres
domésticos, que incluem a responsabilidade pelos filhos e a
alimentação, bem como a de assegurar o suprimento de lenha
para o fogo e água limpa para consumo.
A
discriminação de gênero gera paradoxos desconcertantes. À
medida que a demanda por proteína animal cresce no planeta e
os pequenos rebanhos dão lugar a criações intensivas as
titulares tradicionais são preteridas. Se tivessem acesso a
linhas de crédito específicas para expandir seu próprio
criatório - bovino, suíno ou a piscicultura - esse
deslocamento seria significativamente menor.
A
transição alimentar, ao mesmo tempo, abre uma janela de
oportunidade à construção um novo estatuto de gênero no
campo. Um leque cada vez mais variado de verduras e frutas
frescas, mas também de carnes especiais, peixes, temperos e
vegetais semipreparados atende à sofisticação do consumo
urbano atualmente, indo ao encontro das aptidões femininas
para reafirmar a urgência da democratização de direitos e
oportunidades.
Entre as
barreiras a serem superadas, uma das mais importantes é a
extensão rural. Estudos anteriores da FAO (1988/89) em 97
países demonstraram então que apenas 5% da assistência
técnica era dirigida às mulheres, que por sua vez
representavam apenas 15% dos extensionistas.
Embora
desvalorizadas, elas desempenham papel cada vez mais
relevante nas decisões comerciais, sendo o personagem oculto
por trás das análises de contratos e compromissos de compra
e venda assinados pelos seus companheiros. No Brasil, desde
a criação do Fome Zero em 2003 os programas de transferência
de renda associaram o seu sucesso a essa aptidão
administrativa, dando o cartão de benefícios à mulher da
família.
Hoje, 93%
dos repasses do Bolsa Família tem a mulher como titular.
Idêntica percepção incentivou a criação do Pronaf-Mulher na
área do crédito agrícola e canalizou às agricultoras volumes
crescentes (24% atualmente) dos recursos destinados à
aquisição de safra da produção familiar. A titulação
conjunta da terra, obrigatória na política agrária
brasileira, é outra conquista exemplar, a contrapelo da
discriminação. Precede a essas decisões uma providência ao
mesmo tempo simples e crucial: promover a documentação da
agricultora, inclusive seu credenciamento comercial, para
que possa, de fato, assumir as rédeas do seu negócio.
Num mundo
de especulação financeira e eventos climáticos extremos,
muitas vezes impermeáveis à ação local, superar a
desigualdade de gênero nas políticas agrícolas não pode ser
visto como um fardo. A força da mulher na luta contra a fome
constitui um trunfo adormecido cujo despertar não pode mais
ser adiado. |