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22/06/2007
Morre nessa madrugada de 22 de
junho, aos 84 anos de idade, Manuel Correia de Andrade.
Manuel foi um dos grandes pensadores da questão agrária e do
nordeste brasileiro. Um intelectual comprometido com seu povo
que, ao longo dos seus 84 anos, manteve coerência com suas
idéias e ideais.
Nascido
no engenho Jundiá, município de Vivencia, em 3 de agosto de
1922, conhecia como ninguém os problemas dos sem-terra e da
região da cana nordestina. E sempre defendeu com coragem a
necessidade da reforma agrária. Escreveu mais de cem livros.
Segue
uma de suas últimas entrevistas, que representa uma espécie de
legado da sua trajetória intelectual.
O
homem do Nordeste
Entrevista com Manuel Correia de Andrade
Revista Teoria e Debate, São Paulo, Nr.45. jul/set 2000
Autor
de um clássico dos estudos brasileiros, A terra e o homem no
Nordeste, o pernambucano Manuel Correia de Andrade é, hoje,
diretor do Centro de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco.
Testemunha viva dos principais acontecimentos da história
política de Pernambuco neste século e profundo conhecedor da
realidade nordestina.
por José Correia Leite*
1. A sua obra é em grande
medida voltada para a questão agrária. O senhor a considera o
principal problema do Brasil?
Eu
nasci num engenho de açúcar, em Jundiá, a mais de 100
quilômetros do Recife, numa família relativamente abastada e
convivi com trabalhadores rurais, numa certa intimidade que há
no campo. Eu ficava chocado porque aqueles meninos da minha
idade não iriam ter oportunidade na vida. e eu, filho de um
senhor de engenho, iria. Isso me causava um impacto muito
grande. Por que uns tinham e outros não tinham direito? E entre
aqueles meninos, uns eram ignorantes, mas havia alguns que
tinham uma inteligência muito acima do normal.
Quando
eu fui estudar no Recife, ao voltar de férias todo ano, ia
notando que aquela camaradagem ia desaparecendo. Eu procurava
explicação para isso. E isso contribuiu para que eu me
preocupasse com o problema agrário. E depois cheguei à
conclusão, por meio de leituras, que a questão agrária era o
problema fundamental do Brasil. Isso determinou toda essa minha
contribuição.
2. O senhor se formou em geografia
e história e também em direito?
Eu
queria me formar em ciências sociais, mas naquela época era
muito difícil porque não havia esse curso em Pernambuco e eu
teria de ir para São Paulo. Em 1940 terminei o ginásio, mas
houve a queda do preço do açúcar e meu pai não pôde financiar
minha ida para São Paulo. Meu pai era bacharel em direito e
achei que estudando direito poderia fazer minha sociologia.
Quando estava no terceiro ano criaram a Faculdade Particular de
Geografia e História, dos Jesuítas. Fiz vestibular e entrei,
cursando ao mesmo tempo geografia e história e direito.
Formei-me nos dois em 1945. Advoguei durante um certo tempo.
Procurei advogar para os sindicatos operários. E dei aulas no
curso médio. Mas num certo momento achei que deveria optar. Aí
me afastei da advocacia, embora continue membro da OAB até hoje.
Dediquei-me à geografia e à história. Sempre indeciso entre uma
e outra. Ainda hoje, eu examinava uma tese de doutorado em
história e um dos autores disse que eu era um historiador que
tinha percepção do espaço, e não um geógrafo.
3. Grande parte da sua vasta obra
é antes de tudo como historiador do Nordeste. Dá a impressão que
ela é muito marcada por essa articulação permanente entre
história e geografia. Esses dois aspectos não estão nunca
separados. O senhor pode falar um pouco sobre esse imbricamento?
Quando
me formei, geografia e história eram o mesmo curso. Então, eu
não sei se me consideraria geógrafo ou historiador. Também
porque acho que a geografia, ao analisar o espaço, vê os marcos
que existem naquele espaço. Mas esses marcos não foram feitos
hoje, são o resultado de uma evolução histórica. Por isso é que
eu me preocupo muito com a história. Continuando meus estudos,
eu percebi que as relações de trabalho dominantes no Nordeste
eram resultado de uma evolução histórica, e aí fui estudar a
história. Daí eu ter feito um livro sobre o conselheiro João
Alfredo, que fez a abolição da escravatura em 1888, e um livro
sobre a Guerra dos Cabanos, que ocorreu em Pernambuco e Alagoas
de 1831 a 36, e que foi uma revolta de escravos, índios e negros
pobres contra o poder central. É por isso que a história e
geografia se interpenetram nas minhas preocupações.
4. O senhor é marxista?
Eu
tenho uma formação marxista e, como tal, não entendo uma
separação rígida entre várias ciências sociais. Para mim, há uma
ciência social que tem enfoques diferentes. Mas a ciência é a
mesma. Eu estudei Marx desde os 18 anos de idade, despertado por
um professor integralista, mas que dizia que a crítica feita por
Marx à sociedade capitalista tinha validade. Para ele, as
soluções que Marx apresentava é que não tinham. Depois, recebi
uma influência muito grande de Gilberto Freyre e de Caio Prado
Júnior. De Gilberto Freyre na minha juventude, quando ele me
indicou a leitura de um livro: A interpretação econômica da
história, do historiador americano Seligmann, que fora seu
professor na Universidade da Colúmbia.
5. O senhor foi aluno dele?
Não. Eu
era seu companheiro na luta – que ele liderava – do movimento
estudantil contra o Estado Novo. Depois, ele foi presidente da
chamada Esquerda Democrática, que foi um bloco ligado à UDN, e
que posteriormente deu origem ao Partido Socialista Brasileiro.
E mais tarde recebi uma influência marcante de Caio Prado
Júnior, com quem convivi muito, apesar de ele viver em São Paulo
e eu em Recife. Foi ele quem me aconselhou a escrever A terra e
o homem no Nordeste – que é o meu livro mais conhecido –, que
ele publicou e prefaciou. E isso permitiu que eu entrasse no
mercado editorial paulista. Porque se eu tivesse publicado o
livro em Pernambuco, ninguém teria tomado conhecimento. Mas como
foi publicado pela Brasiliense, que era uma editora de muito
prestígio em 1963, com prefácio de Caio Prado Júnior... Aliás,
eu escrevi o livro porque o Caio tinha um projeto de contratar
cinco geógrafos, cada um para escrever sobre uma região. Então,
me entregou o Nordeste. Não sei a quem ele entregou as outras.
Não
devem ter saído...Não saiu nenhum. O único que escreveu fui eu!
6. O senhor mencionou Gilberto
Freyre e Caio Prado Júnior. Há alguma outra influência marcante
no seu pensamento?
Eu
recebi uma influência muito forte do Nelson Werneck Sodré,
embora tivesse uma certa divergência com ele, porque o acho
muito mecanicista. Recebi uma influência muito grande de Josué
de Castro e também de um professor francês, Pierre Monbeig, que
foi meu diretor de estudos na Universidade de Paris.
7. E as influências mais
afastadas?
Eu li
muito Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Manoel Bonfim, que faz
uma excelente interpretação do Brasil. Sou muito influenciado
pelas obras de Marx, Engels, Kautski, com A questão agrária,
Rosa Luxemburgo, Trotski, Lenin. Na minha adolescência, tinha
verdadeiro embevecimento com a obra de Trotski, que chegou às
minhas mãos por intermédio de um parente meu, do Rio de Janeiro,
que foi um famoso trotskista, o Mário Pedrosa.
8. O senhor é parente do Mário
Pedrosa?
A mãe
do Mário é prima da minha avó, tanto que ele se chamava Mário
Xavier de Andrade Pedrosa. Eu não fui militante trotskista, mas
era um entusiasta porque Trotsky era um grande escritor. Li
também muito o Elisée Reclus que era anarquista, inimigo de
Marx, foi até expulso da II Internacional. Eu até preparei uma
antologia dele que foi publicada pela editora Ática, naquela
coleção que o Florestan Fernandes dirigiu, "Sociologia e
Política".
9. O senhor foi influenciado pelo
Florestan?
Fui
amigo do Florestan Fernandes, mas não posso dizer que recebi
influência dele porque ele já é da minha geração.
10. Mas havia diálogo?
Sim,
tanto que organizei dois livros da coleção dele na Ática. Um,
infelizmente não foi publicado, sobre Pierre Monbeig. Foi quando
o Florestan se elegeu deputado e se afastou da Ática. Quando
estive na França, além da influência do Monbeig, recebi também
uma grande influência do François Perroux, tanto que tenho
livros publicados com a tentativa de aplicação, no Brasil, da
sua metodologia. Numa homenagem que recebi na universidade, ao
fazerem meu panegírico, disseram que eu tinha uma mobilidade
intelectual tal que fui divulgador no Brasil de Perroux e fui o
autor de uma antologia de Reclus, figuras teoricamente bem
distantes. Mas, acho que aprendi muita coisa também nos romances
de José Lins do Rego, Jorge Amado, José Geraldo Vieira – que é
um dos meus autores prediletos, embora hoje pouco falado –,
Machado de Assis e outros mais. Da literatura francesa também.
11. A influência de autores
pernambucanos foi muito marcante?
Pernambuco é um estado que tem uma tradição cultural muito
forte. Aqui há autores marcantes, Orlando Valdeverde é uma
figura impressionante, que tem um livro sobre Brasil, a terra e
o homem; e um outro, O Porto do Recife, que é muito mais do que
a análise do porto do Recife. Há também Vasconcelos Sobrinho,
autor de livros de ecologia. Eu li muito autores pernambucanos
como Amaro Quintas que deu uma contribuição formidável sobre a
Revolução Praieira, Mário Lacerda de Melo, que tem livros muito
bons sobre Pernambuco e a indústria açucareira, Gileno de Carli,
muito direitista mas que tem informações abundantes; Gilberto
Ozório de Andrade, da área da geografia física do Nordeste.
Barbosa Lima Sobrinho, Sílvio Rabelo, Olívio Montenegro, Estêvão
Pinto também tiveram muita influência.
12. Gilberto Freyre é considerado
um pensador conservador, mas tem uma influência marcante,
inclusive sobre a esquerda...
Gilberto Freyre foi muito dialético nas suas atitudes. Foi um
homem que reagiu contra o modernismo, porque achava que devia se
dar importância aos valores tradicionais. Mas, ao mesmo tempo,
ele levantava a questão da poluição dos cursos dd’água pelas
usinas de açúcar, o que contrariava tremendamente os usineiros.
Ele chegou até a ser preso por causa dessas coisas e, a meu ver,
em Casa grande e senzala seu pensamento se aproxima muito de
Caio Prado Jr. no livro Evolução política do Brasil. No final da
sua obra, quando defende o luso-tropicalismo, ele tinha uma
posição conservadora. Mas sempre foi um homem que tolerou bem a
crítica.
13. O senhor poderia falar da
influência de Josué de Castro?
Josué
de Castro era um médico que se tornou geógrafo. E deu uma
contribuição muito grande à análise do problema da fome no
Brasil. Ele se baseou numa divisão que Gilberto Freyre tinha
feito, caracterizando a existência de uma região do Nordeste
úmida e outra seca, e fez uma análise alimentar no úmido e no
seco. Josué demonstrou que os problemas econômicos são mais
importantes como causas da fome do que os problemas físicos. E
que por isso no Nordeste úmido – que era mais rico –, a fome era
epidêmica, e no Nordeste seco era endêmica.
14. Qual foi o impacto da obra de
Josué de Castro no debate político da época?
Foi
muito grande. Teve uma repercussão internacional enorme. Seus
dois livros básicos são: Geografia da fome e Geopolítica da
fome, nos quais ele procura transferir para a escala mundial o
problema que ele analisou no Brasil.
15. Ele era ligado à esquerda?
Para um
homem de esquerda, do PTB. Mas ligado a Getúlio. Josué foi
deputado federal duas vezes, eleito por Pernambuco.
16. Ele chegou a participar do
governo Arraes?
Não.
Eles se davam bem, mas não tinham muita afinidade política.
17. Outra figura marcante quando a
gente pensa a esquerda em Pernambuco é Francisco Julião...
Foi meu
amigo muito próximo. Julião era uma espécie de revolucionário
missionário. Ele era muito bíblico. E meio romântico. Então às
vezes ele atuava com muito idealismo, mas não no momento
oportuno. Não era um político, mas era uma figura extraordinária
que teve um papel importantíssimo no Brasil inteiro. Armando
Monteiro Filho, um empresário que é dono da Folha de Pernambuco,
fez um artigo comparando Julião com Joaquim Nabuco. Eram
aristocratas, vindos do engenho, e que dedicaram a vida às
causas populares.
18. O senhor também sempre
destacou muito o papel histórico das sucessivas revoltas
populares, mobilizações, movimentos separatistas que marcaram a
história de Pernambuco.
Eu
tenho um livro sobre a Guerra dos Cabanos, em que estudo esse
movimento de negros escravos e de brancos pobres de Pernambuco e
Alagoas, que durou cinco anos e teve um impacto muito grande,
chefiado por Vicente Ferreira de Paula. Escrevi um livro sobre a
Setembrizada, uma revolta de populares no Recife. Escrevi
artigos e prefácios sobre a Confederação do Equador, a Revolução
de 1817 e tenho um livro sobre a Revolução de 30.
19. Há uma tradição de esquerda
muito forte em Pernambuco, tão forte que até resistiu aos vinte
anos de ditadura militar. A que o senhor atribui a força da
esquerda aqui?
Pernambuco é um estado sempre rebelde. Ele fez a Revolta de
1710, após a independência de Olinda; fez a Revolução de 1817;
fez a Revolução de 1824 e proclamou uma república, a
Confederação do Equador. Teve uma atuação muito grande na
Revolução Praieira. Há historiadores que acham que no Recife a
Revolução de 30 foi uma revolução popular. Depois há a Revolução
de 31, a de 35; a fortíssima campanha contra o Estado Novo, a
eleição de Miguel Arraes como governador do estado.
Há em
Pernambuco uma tradição de luta operária muito forte no período
de 1915 a 1930, com os anarquistas, liderados por Joaquim
Pimenta, que depois aderiu ao Estado Novo mas é uma figura
interessante para ser estudada. E depois com o PC. Cristiano
Cordeiro, um dos fundadores do PC, era daqui. Nessa luta toda,
as oligarquias açucareira e algodoeira dominavam o estado, mas
sempre surgiram dissidentes no seu interior. Gente com posições
avançadas. Joaquim Nabuco foi um deles. João Alfredo, que era do
Partido Conservador, durante o Império prendeu o bispo Dom
Vital. Você já imaginou botar na cadeia um bispo? E aboliu a
escravidão sem indenização. Nunes Machado, que era filho de um
senhor de engenho, desembargador e deputado, se pôs à frente da
Revolução Praieira, morrendo no dia 2 de fevereiro de 1849. Os
únicos grandes líderes pernambucanos vindos de setores populares
foram Frei Caneca e agora Lula. A maioria são dissidentes da
classe dominante.
20. Vamos falar um pouco de sua
atividade política. O senhor foi membro do PCB?
Eu fui
do PCB por pouco tempo, na década de 40, quando ele entrou na
legalidade. Eu era católico muito fervoroso até os 15, 16 anos.
E deixei a Igreja quando um missionário me criticou porque eu
lia Renan. Aí eu pensei: entre Renan e a Igreja, fico com Renan.
E caminhei para a esquerda. Comecei a ler Lenin, Marx etc. Eu
era estudante de direito e na faculdade tinha essas obras, que
eram proibidas no Estado Novo. Entrei no PC e militei uns seis
ou sete meses. Um dia, cheguei numa reunião da célula do PC com
o livro de Trotsky, Minha vida, debaixo do braço. Foi um
escândalo. Um líder comunista disse "você vai deixar esse livro
aqui, você não pode carregá-lo". "Posso, eu comprei." "Você é
trotskista?" "Não, nunca fui. Mas admiro Trotski, ele escreve
muito bem." "Mas ele é inimigo da classe operária". Eu disse:
"Você acha? Mas eu não sou operário! Eu sou da burguesia
açucareira". Havia muita gente da burguesia que era do PC. Aí
ele disse "então, você tem de escolher entre Trotski e o PC". Eu
dei a mesma resposta que havia dado entre Renan e a Igreja.
"Fico com Trotski". E fui embora. Eu era um rebelde! Mas nunca
tomei uma posição anticomunista. Terminei na esquerda
democrática, no Partido Socialista, onde eu podia pensar, dizer
o que queria, escrever o que pensava. Participei da luta pela
criação da Petrobrás, da luta contra o Acordo Militar
Brasil-Estados Unidos e de outras. Fiquei no PSB até quando o
dissolveram, em 65, logo depois do golpe.
21. Nos anos 50, há um processo de
efervescência popular que leva à criação das Ligas Camponesas e
à eleição de Arraes...
Em
1945, derrubado Vargas, o PSD, que era o partido mais
conservador, liderado por Agamenon Magalhães, assumiu o poder, e
fez vários governadores. A esquerda era expressiva, mas não
tinha forças para ganhar as eleições. Então, houve a aliança da
esquerda com um grupo de usineiros da UDN, em 58, concretizada
na chapa Cid Sampaio para governador e Pelópidas Silveira para
vice. É interessante que, nessa eleição, o candidato do PSD era
uma criatura excelente, o Jarbas Maranhão, que foi senador. Um
homem aberto, liberal. O Cid ganhou a eleição e tratou de fazer
um governo moderno, industrializante mas conservador.
Modernizava, mas não mudava as estruturas. Na eleição seguinte
ocorreu a vitória de Arraes. Inverteu-se a chapa, em vez de ser
um candidato conservador para governador e um esquerdista para
vice, foi o contrário. Arraes para governador e Paulo Guerra
para vice. O governo de Arraes foi realmente um governo popular,
destruído pelo golpe de 64.
22. O senhor participou do
governo?
Eu fui
diretor superintendente do Grupo Executivo da Produção de
Alimentos. Foi um grupo criado pelo Arraes para ampliar a
assistência creditícia e técnica aos pequenos produtores.
23. No período posterior ao golpe,
o senhor se filiou a algum partido?
Fui do
MDB. Eu tinha voltado da França e militei com Marcos Freire, que
era o líder do MDB. E ainda estou filiado ao PMDB. Não cancelei
a minha ficha, mas não tenho nenhum compromisso. Quando criaram
o PSDB, me convidaram, alegando que era a regeneração, porque o
PMDB tinha se desmoralizado. Eu disse: "o MDB se desmoralizou,
concordo com vocês, mas o PSDB vai se desmoralizar. Então, para
não sofrer nova decepção, fico no PMDB". Mas é uma filiação só
formal porque eu não sigo orientação, tanto que apoiei Lula
abertamente em todas as suas candidaturas a presidente.
24. Por que o senhor apoiou Lula?
Eu
achei que Lula representava a possibilidade de transformação das
estruturas brasileiras. Sem ter grandes ilusões, porque não sei
se, assumindo o poder, a oligarquia o deixaria fazer as
mudanças. Mas acho que é ocasião de alguém que vem da classe
operária alcançar o poder. Não estou 100% de acordo com ele, mas
em grande parte estou. É de quem mais me aproximo
ideologicamente. Participei do Comitê Estadual Pró-Lula, na
eleição; ajudei Tânia Bacelar e Osvaldo Lima Filho na
organização do programa do governo no que toca ao Nordeste. Mas,
a essa altura eu não sou mais um militante. Com 78 anos é muito
difícil se manter uma militância. Além disso, o PT tinha – não
sei se ainda tem – 17 tendências. O PT era muito forte na
universidade. E as tendências brigavam entre si quase tanto
quanto com os partidos tradicionais.
25. Pernambuco é um dos poucos
estados onde uma tradição de esquerda se manteve no período de
ditadura. Com a nova realidade partidária e a criação do PT,
como o senhor vê a relação entre esta corrente muita encarnada
pelo Arraes e o PT?
Não
houve um atrito entre Arraes e o PT, mas o Arraes tinha um
prestígio tão grande que as pessoas de esquerda não foram para o
PT. Ficaram com Arraes. O espaço estava ocupado. Depois o PT
cresceu. Agora, há deputados muito bons do PT. Eles brigam entre
si mas são bons deputados, ativos no combate às coisas erradas.
Eu tenho amigos que dizem "não voto em Lula. Mas para o
Legislativo só voto no PT".
26. O senhor foi um dos
responsáveis pela montagem do curso de pós-graduação em Recife.
Foi. Eu
montei o curso de mestrado em Economia em 1970. E o dirigi até
75. E em 76 montei o curso de mestrado em Geografia, que dirigi
até 79. E trabalhei também como professor no mestrado de
Sociologia e no mestrado de Desenvolvimento Urbano.
27. O senhor foi homenageado pelo
MST. Como o senhor vê esse movimento?
Por
ocasião dessa homenagem eu fui jantar com o João Pedro Stédile,
acompanhado do Bernardo Mançano, professor da Unesp, do meu
filho Joaquim Correia e do Jaime Amorim, coordenador do MST em
Pernambuco. E num bate-papo muito amigável, eu disse que eles
tinham de enfrentar dois problemas. Primeiro, se livrar um pouco
da formação econômica, porque ela é muito útil, mas tem de
deixar se influenciar pelo problema social. O segundo, é lembrar
que não existe um Brasil, mas vários brasis. As aspirações dos
sem-terra do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que são
essencialmente pequenos proprietários, podem ser muito
diferentes das aspirações dos trabalhadores rurais assalariados
do Nordeste, ou dos extrativistas da Amazônia. E ele concordou.
28. Assim, a reforma agrária não
pode ser uniforme em todo o país...
São
necessárias muitas reformas agrárias. O Brasil se formou em
função de ocupação estrangeira. E apesar do país ter
independência política, a dependência do exterior continua se
exercendo até hoje. Eram os portugueses, depois os ingleses, e
após a Revolução de 30, os americanos. No momento há uma disputa
de espaço no Brasil entre a União Européia e os Estados Unidos.
O
Brasil deveria ter realizado uma série de reformas estruturais
que já eram defendidas no século passado e que até hoje não
foram concretizadas. A principal delas é a reforma agrária.
Joaquim Nabuco, em 1884, defendeu a sua necessidade. Depois, o
imperador, feita a abolição, ainda quando o gabinete era
chefiado por João Alfredo, propôs que se estudasse a
possibilidade de desapropriação de terras situadas às margens
dos rios navegáveis e das estradas de ferro, para instalação de
colonos. Com a República e o crescimento da população, se fez a
marcha para o Oeste, ocupando a Amazônia. Mas se transferiu para
a área as instituições fundiárias existentes no resto do país.
Não houve mudança. Nos Estados Unidos, quando houve a expansão
para o Oeste, foi feita uma real distribuição de terra. No
Brasil nunca se fez isso, e é provável que uma das causas do
desenvolvimento dos EUA tenha sido esta. Eles produziram
cidadãos, e nós não.
29. Quais são os outros problemas
centrais do país?
Um
segundo problema é o da centralização político-administrativa.
Quando o Brasil se tornou independente, havia uma corrente
descentralizadora e outra centralizadora. O grupo centralizador
foi vitorioso, estabeleceu o Império, mantendo a dinastia e as
instituições portuguesas, com o imperador exercendo controle
através dos Poderes Executivo e Moderador. A República, em 1899,
descentralizou o país e deu autonomia aos estados, mas os
desníveis econômicos entre eles eram de tal ordem que se fez uma
política na qual havia os estados de primeira classe, os de
segunda e os de terceira. Os de primeira eram São Paulo e Minas
Gerais, tanto que o presidente da República era sempre paulista
ou mineiro. Os de segunda classe davam, em geral, os
vice-presidentes. Eram Maranhão, Pernambuco, Bahia e Rio de
Janeiro. Entre um e outro estava o Rio Grande do Sul, que queria
a Presidência, mas não conseguia ser de primeira. A partir da
Revolução de 30, ocorreu um processo de centralização, que foi
muito forte de 1937 a 1945, durante o Estado Novo. De 1945 a
1964, abriu-se um pouco a Federação. E de 1964 para cá a
centralização vai aumentando, quer no regime militar, quer na
chamada Nova República. Os governos estaduais vivem sob controle
do governo federal. Basta que ele não repasse os recursos a que
os estados têm direito para paralisá-los.
Um
terceiro problema, é que o Brasil nunca deu a importância devida
à educação. O Brasil é um país com um nível de analfabetismo
muito elevado. As universidades brasileiras praticamente
surgiram depois de 1930, enquanto nos países de colonização
espanhola elas surgiram no século XVI. O ensino público no
Brasil – que deveria receber maior assistência governamental –
sofre as maiores restrições, enquanto o privado, hoje, é o
grande negócio.
Outro
problema grave é o da saúde. Não há maior interesse na rede
pública de saúde. Quando eu era estudante do curso pré-jurídico,
em 1939, o professor de higiene falou de certas moléstias que
existiam no Brasil e que tinham desaparecido com o saneamento.
Entre elas estava o chollera morbus, a varíola, a tuberculose.
Hoje elas estão grassando em larga escala! Há um descuido total
da saúde. Tudo isso contribui para que o Brasil se encontre numa
situação difícil, a tal ponto que ele é a oitava ou nona
economia do mundo quanto ao PIB, mas está abaixo de mais de 50
países, inclusive de alguns da América Latina, nos indicadores
sociais.
30. Grande parte da sua produção
intelectual é dedicada à análise da realidade nordestina. Qual a
perspectiva que o senhor vê hoje para o Nordeste?
As
perspectivas não são boas. O Nordeste é aproximadamente um
quinto do território brasileiro, e mais ou menos um quarto da
população. Mas é uma região empobrecida por fatores externos e
internos. Fatores externos como o crescimento da produção
açucareira do Sudeste e mais recentemente do Centro-Oeste. No
Nordeste, a cultura do açúcar é feita em regiões naturais
desfavoráveis, em grande parte onduladas, que não permitem o uso
de técnicas mais modernas. Por outro lado, o Brasil não planejou
ainda uma política permanente para evitar o impacto das secas –
que são temporárias mas se sabe que ocorrem, aproximadamente,
uma vez em cada decênio. Uma das frases mais demagógicas que já
ouvi na história do Brasil foi de Pedro II, que disse que
venderia a última jóia da coroa, mas o nordestino não morreria
de fome nem de sede! Só que nunca se fez uma política permanente
para atender a população nordestina.
Além
disso, o Nordeste é controlado por velhas oligarquias que fazem
com que os recursos vindos do governo federal sejam aplicados em
benefício delas, e não da população. Generalizou-se até, na
década de 60, a expressão "a indústria da seca". Celso Furtado
afirmou que não adiantava mandar recursos para o Nordeste que
eles não chegavam ao povo. Ficavam nos meios intermediários. É
comum se fazer, nos períodos de seca, obras públicas que
beneficiam os grandes grupos econômicos e não a população de
modo geral.
Mas o
Nordeste não é inviável. Ele é rico em recursos naturais. O Rio
Grande do Norte, a Bahia e Alagoas são ricos em petróleo. O
Nordeste é rico em gipsita, Pernambuco é o maior produtor
nacional. O Nordeste é rico em calcário e argila. Em certas
áreas, em que predominam rochas sedimentares, sobretudo no
Maranhão e no Piauí, há muita abundância de água. Na bacia do
Parnaíba há água abundante. Na Chapada do Apodi, na Chapada do
Araripe, na Chapada Diamantina, também. O Nordeste poderia
desenvolver atividades agrícolas e pecuárias sem o perigo da
seca, em condições controladas tecnicamente.
No caso
da Zona da Mata de Pernambuco, que já foi muito rica, o grande
problema é que os subsídios oficiais estenderam os canaviais por
toda a região. Ela tem uma boa produtividade industrial mas
baixa produtividade agrícola e não pode competir. No semi-árido
há uma área irrigável e outra não irrigável. A quantidade de
água é pequena. Então, se fala muito de resolver o problema do
Nordeste com cultura irrigada. Mas a área apta à cultura
irrigada é 5% da extensão do semi-árido! A agricultura irrigada
traz vantagem para os grandes grupos econômicos, sobretudo as
empreiteiras, na construção de grandes obras. Mas a agricultura
não irrigada atende os pequenos produtores, com a construção de
cisternas e o cultivo de produtos adaptados ao clima semi-árido.
Há
experiências interessantes no que chamamos de agricultura seca,
feita por uma série de ONGs que estão atuando no interior. E a
própria Ceptsa, o centro de agricultura do semi-árido, que
pertence à Embrapa, vem desenvolvendo trabalhos
interessantíssimos de lavouras e de pecuária em área seca.
31. O senhor é contra a proposta
da transposição do São Francisco?
Sou. A
transposição do São Francisco tem dois problemas sérios:
primeiro, a sua água não é sequer suficiente para irrigar a área
próxima a ele na Bahia e em Pernambuco. E ela tem de ser usada
em irrigação e em produção de energia. Em segundo lugar, a
construção de um canal de transposição seria caríssima num país
onde há poucos recursos. Além disso, não sabemos os impactos
ecológicos que ocorreriam com a construção desses canais. Eu dei
uma conferência no Rio Grande do Norte, onde estão os maiores
defensores dessa proposta. E falei contra. E tive, para surpresa
minha, apoio de grande parte dos técnicos que estavam lá. E eles
me deram uma informação que eu não tinha: que grande parte das
águas do açude Armando Ribeiro Gonçalves, que breca o Açu no
médio curso e irriga todo o Vale do Açu, é perdida no oceano.
Então, seria muito mais barato se fizessem estações de retorno
da água para a barragem, para ser liberada outra vez. No Ceará a
situação é semelhante com o rio Jaguaribe.
32. A Sudene foi a instituição
símbolo do desenvolvimentismo no Brasil. No entanto, o balanço
de sua atuação é bastante contraditório, o próprio Celso Furtado
já enfatizou isso. O senhor tem um juízo sobre essa experiência?
A
Sudene foi um fator muito positivo até 1963. Porque ela planejou
o desenvolvimento do Nordeste, com algumas falhas, que eu mesmo
critiquei no meu livro A terra e o homem no Nordeste. A Sudene
propunha grandes coisas: uma reforma agrária; desenvolver uma
política de industrialização; modernizar as estruturas
secundárias. Ela encontrou facilidades em certos setores e
dificuldades em outros. E começou a ser esvaziada com a ditadura
militar. Ela se transformou quase num órgão de fazer empréstimos
a empresas, através do artigo 3.418. Houve muito desvio de
dinheiro. Hoje ela está praticamente morta. Mas sua extinção
pode trazer prejuízos ainda maiores, tirando qualquer
possibilidade de conduzir algum recurso para o Nordeste. Acho
que ela deveria ser reformulada, numa espécie de volta às
origens, porque apesar dos pesares ela deu uma contribuição
razoável em certos aspectos. Por exemplo, se dispõe hoje de uma
estrutura de conhecimento do Nordeste que não havia antes. A
Sudene montou postos pluviométricos no Nordeste inteiro. Isso
não é um trabalho que apareça eleitoralmente, mas é fundamental
para se fazer previsões de chuvas e distribuição de água. A
Sudene realizou uma série de estudos sobre os desequilíbrios
existentes entre as várias regiões do Nordeste. A Sudene
possibilitou o desenvolvimento do ensino, dando apoio a
universidades e emprego aos que se formavam. Ela deu uma
contribuição!
O
senhor escreveu um livro sobre isso...Meu caro, eu tenho mais de
cem livros publicados! Eu acho que escrevi sobre tudo no mundo!
*José Corrêa Leite é editor do jornal Em Tempo e do Conselho de
Redação de TD.
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