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22/06/2007
"Em 14 anos, 3,4 mil
tocos de eucalipto no chão..."
*Publicada
na revista Adverso, nº 147, da Associação de Docentes da Ufrgs (Adufrgs),
junho 2007
"...aí
essas empresas vão embora e nós ficamos aqui com uma miséria
representada por 1 milhão de hectares de toco de eucalipto". As
palavras do professor Ludwig Buckup criam uma imagem
amedrontadora, resultado da monocultura de árvores exóticas para
produção de celulose no Estado. A entrevista do professor do
Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Ufrgs à
Adverso aconteceu em um dia que ficará marcado na História do
Rio Grande do Sul pelo descaso governamental com o meio
ambiente. No dia 3 de maio, depois de uma semana de tensas
negociações que culminaram na demissão da secretária do Meio
Ambiente e do presidente da Fepam, a governadora Yeda Crusius
resolveu passar uma borracha no zoneamento ambiental,
desconsiderando o trabalho realizado pela Fepam. Buckup anunciou
que a ONG Igré, da qual faz parte, ingressará com uma ação civil
pública, apoiada por outras organizações, garantindo que o
zoneamento seja encaminhado ao Conselho Estadual do Meio
Ambiente (Consema), como deveria ter acontecido. Professor
titular da pós-graduação em Biologia e doutor em Ciências
Naturais pela Universidade de Tübinger (Alemanha), Buckup está
convencido de que o importante é "procurar alternativas
tecnológicas que preservem o ambiente e favoreçam atividades na
indústria, na agricultura e na administração pública. Isso é
ciência e este é o papel da Universidade".
Adverso – O Espírito Santo é um
exemplo inquietante das conseqüências da monocultura de
eucalipto: aumento de pragas, comprometimento dos recursos
hídricos, desrespeito por áreas indígenas e quilombolas. É este
o destino do Rio Grande do Sul?
Ludwig Buckup
– Se as empresas tiverem liberdade para agir como elas têm agido
no resto do Brasil, sim. Diante de exemplos anteriores,
esperava-se que os órgãos ambientais do Governo exercessem uma
fiscalização sobre estas propostas de lavoura arbórea.
Lamentavelmente, o governo tem mostrado que não está a fim de
fazer isso, liberando plantios em qualquer lugar e de qualquer
maneira. É uma ameaça muito grande para o nosso espaço natural.
No Espírito Santo, o retrato desse descalabro está nos out doors
da Aracruz espalhados pelas estradas: "Nós trazemos o progresso.
A Funai, os índios". Isso é um desaforo. O Brasil deveria mandar
essa gente embora, urgentemente.
Adverso – Qual a importância do
zoneamento da silvicultura para evitar tais problemas?
Ludwig Buckup
– Antes de mais nada, o zoneamento
é uma exigência da lei, o Código Estadual de Meio Ambiente
determina que ninguém pode promover uma atividade agrícola, que
implica em profundas modificações ambientais, sem licenciamento.
E não pode haver licenciamento sem um trabalho que identifique
as zonas do Estado mais ou menos aptas para receber
investimentos de natureza silvicultural. O zoneamento é um
excelente documento, foi feito por pessoas qualificadíssimas,
baseado em informações altamente confiáveis e referenciais
bibliográficos incontestáveis. E em alguns lugares não se deve
plantar nada, em uma vasta área disponível pode-se plantar
moderadamente. O zoneamento mostra que o Estado possui nove
milhões de hectares disponíveis para plantar eucalipto. Acontece
que, durante o Governo anterior, aceitaram a vinda das empresas
sem que fosse dito: "olha gente, aqui não é terra de ninguém". É
como se tivessem dito: "plantem que a gente garante". Só que
fizeram o zoneamento porque a lei manda. Só aí viram que não era
bem assim. Parte importante das terras já compradas está em
locais não apropriados e as empresas estão em cima do Governo.
Quem criou este problema foi o Governo do Rio Grande do Sul.
Como permitem que essas empresas iniciem suas atividades,
comprem terras e comecem a plantar através de documentos de alta
questionabilidade jurídica, como o tal de TAC? Como permitem
isso sem o zoneamento feito? Sequer aparelharam a Fepam de
maneira adequada, com mais gente, recursos, combustível,
técnicos. A Fepam, com todas conhecidas dificuldades, teve que
arcar com uma tarefa gigantesca, finalizada com total dedicação
e qualidade.
Adverso – É possível um manejo
adequado ao ecossistema, o solo agüentaria o cultivo de outras
espécies entre as fileiras de eucalipto?
Ludwig Buckup –
Em alguns lugares do mundo, existe uma proposta que se chama de
unidade agrosilvopastoril, ou seja, para não abandonar por
inteiro as atividades tradicionais de campo, a proposta é que
elas estejam juntas no espaço rural. A idéia foi desenvolvida
por pesquisadores aqui no Rio Grande do Sul. O eucalipto seria
plantado em fileiras duplas, no máximo triplas, e haveria um
espaço livre de cerca de dez metros até a próxima fileira.
Nesses corredores, milho, trigo, soja, sorgo, girassol seriam
plantados enquanto o eucalipto é pequeno. Além disso, plantas
forrageiras para atividade pecuária. Lógico que isso só é
possível enquanto o eucalipto é pequeno. Mas as empresas não
querem fazer isso. Os diretores da Stora Enso disseram
publicamente a seguinte frase: nós viemos para plantar eucalipto
e colher madeira. Ou seja, qualquer atividade desse gênero, que
é interessante, não será adotada pelas empresas. Até porque
plantar poucos eucaliptos é completamente antieconômico para
eles.
Adverso – O governo de Yeda
Crusius anulou o parecer técnico da Fepam sobre o zoneamento
para silvicultura. O que leva um governo a deslegitimar a
opinião de técnicos de um órgão com a estatura da Fepam? É
exagero dizer que, neste caso, o Estado não está sendo agente
dos interesses públicos, mas sim dos interesses privados?
Ludwig Buckup
– Não é exagero, é exatamente
isso. A obrigação do Governo é priorizar, ao lado do
desenvolvimento econômico, a preservação ambiental. O Brasil, na
Eco 92, assinou inúmeros compromissos internacionais, inclusive
perante a Organização dos Estados Americanos (OEA), de só
admitir desenvolvimento sustentável. Sustentabilidade é um termo
que surgiu na área ambiental e significa que você pode crescer,
pode gerar desenvolvimento econômico e pode usar recursos
naturais, mas de tal maneira que sobre o suficiente para as
gerações subseqüentes. O que está acontecendo no Rio Grande do
Sul não é sustentabilidade, é a repetição de uma mesma história
de exaustão dos recursos até as últimas reservas. O eucalipto
pode trazer renda, mas é essencialmente para o dono da empresa e
existem custos ambientais elevados nesta atividade agrícola.
Para começar, é preciso varrer por definitivo desta discussão o
nome florestamento ou reflorestamento. Na região reservada para
o plantio dos eucaliptos, nós temos o pampa há doze mil anos,
nunca teve floresta ali. Não se pode falar em reflorestamento
porque plantar árvores significa uma profunda modificação da
paisagem, com reflexos fortes que o ambiente não será capaz de
suportar. A natureza sabe que, em função dos nutrientes
disponíveis, do solo e da quantidade de água, a paisagem deve
ser de campo. O eucalipto tem uma enorme taxa
evapotranspiratória, ou seja, chupa muita água. Ele vai buscar
água no solo e nos arroios, rios e lagos. A secagem completa de
fontes de água já foi descrita com detalhes em publicações
científicas importantes e aconteceu em lugares como o sul da
África, na Península Ibérica e em um lugar próximo daqui, o
pampa argentino. Aliás, nem é preciso apelar para a ciência,
qualquer habitante do interior sabe que plantar eucalipto é
ótimo para secar banhado.
Adverso – Quais as conseqüências
destas alterações?
Ludwig Buckup –
São alterações profundas e, naturalmente, quando existe
degradação ambiental, junto acontece a piora da qualidade de
vida das pessoas. Existe uma propaganda das empresas de que
surgiria grande quantidade de emprego, cerca de 30 mil, mas isso
é uma falácia. A silvicultura não oferece tantos postos de
trabalho porque ninguém mais planta eucalipto com as mãos,
tampouco abate, porque o processo é totalmente mecanizado. De
resto, já se observou, e eu tenho visto pessoalmente, que os
maiores bolsões de pobreza do Brasil rural estão junto aos
grandes empreendimentos florestais. Porque depois que a terra
das pessoas está cheia de eucalipto, não tem mais serviço. Vai
fazer o que durante oito anos até o abate? Ele vai ter que sair
do campo. Depois da assim chamada Revolução Verde, vai acontecer
um novo momento de êxodo rural para engrossar os cinturões de
exclusão social e pobreza na periferia das cidades.
Adverso – O senhor se arriscaria
dizer como seria um projeto alternativo de desenvolvimento
econômico, especialmente para a metade sul?
Ludwig Buckup –
São inúmeras atividades para o pampa. Vamos começar com o homem
do campo. Quem vive naquela região está inteiramente ajustado às
tradições sócio-ambientais do espaço. Qual é a verdadeira
vocação do pampa? Uma atividade de pecuária semi-extensiva,
atividades agrícolas e outras vocações ainda nem totalmente
exploradas como a fruticultura, por exemplo. A olericultura e as
culturas tradicionais de arroz, soja, trigo. Um colega nosso, o
professor Carlos Nabinger, da Faculdade de Agronomia e um
estudioso da produtividade dos nossos campos, tem afirmado
publicamente que não existe essa pobreza da metade sul. Existe
falta de atenção para as pessoas que lá vivem. Não são levados
recursos técnicos, propostas alternativas de atividade
econômica, nem apoio financeiro de fomento. O professor Nabinger
afirma que, com um pouco de apoio, a produtividade no pampa
poderia crescer 200%.
Adverso – Enquanto isso, a Caixa
RS cria o Programa de Financiamento Florestal Gaúcho para
financiar o plantio de eucalipto...
Ludwig Buckup
– Então, existe aí a insistência de que a metade sul está tão
pobre e que precisa de qualquer solução, o que interessa as
multinacionais. Veja bem que ninguém vai produzir alimento, não
se come eucalipto. O objetivo é produzir celulose, 95% para
exportação. O brabo é que vamos exportar celulose pura e vamos
ter que comprar o papel do exterior. Uma tora de eucalipto não é
só madeira, são sais e nutrientes do solo, água. E tudo isso vai
embora. Outra falácia é o investimento grandioso de bilhões. Na
verdade, eles estão contabilizando o que vão investir para
ganhar dinheiro, ou seja, as árvores, as sementes. Não é
enriquecimento do Estado. Não vão construir infraestrutura,
estradas para escoar a produção, escolas, nada disso. O que
existe é uma preocupação imediatista e eleitoreira do governo.
Aquela velha história: "eu vou ganhar dinheiro hoje e as
gerações subseqüentes que se danem". Mas isso nós não podemos
aceitar, afinal estamos vinculados à ecologia na pesquisa e as
outras gerações têm que sobreviver.
Adverso – Recentemente, a Ufrgs
suspendeu um protocolo de cooperação entre a Universidade e a
Aracruz Celulose...
Ludwig Buckup
– Suspendeu a tramitação, não está
rejeitado, mas suspenso porque o Reitor determinou que, antes de
discutir amplamente o tema, dentro da Universidade não se assina
convênio nenhum.
Adverso – Como a Universidade pode
participar deste debate e quais critérios ela deve usar antes de
envolver empresas privadas na pesquisa acadêmica?
Ludwig Buckup
– As empresas estão buscando apoio
científico nas universidades. É muito mais fácil e barato uma
empresa alcançar um recurso a um pesquisador, que fica feliz com
o dinheiro que recebe. Porque se a empresa for contratar o
indivíduo, terá que pagar salário, décimo terceiro, férias,
previdência, montar laboratório. É mais fácil dar um dinheirinho
para comprar um microscópio, uma estufa ou um tubo de ensaio. Aí
entra uma questão que tem que ser examinada com cuidado: a
Universidade não pode competir com seu próprio graduado, mas sim
formar gente que seja contratada pelo empresariado. Sem falar na
necessidade de reavaliar o papel da Universidade. Temos um
quadro qualificado de pessoas para instrumentar as decisões
políticas e públicas que interessem à região ou ao País. Mas se
eu começo a trabalhar para as empresas, eu renuncio a este papel
e passo a ser uma cópia da sociedade externa. Vou dar um
exemplo: a universidade se concentra em prestar consultorias
sobre alternativas de produção de concreto protendido em
construções de pontes internacionais. Tem um monte de dinheiro
para fazer isso, mas será que é prioridade nacional? Ou nós
deveríamos pesquisar sobre materiais de construção baratos e
acessíveis para a população de baixa renda fazer sua casa? Isso
ninguém pesquisa porque não recebe dinheiro. Quando professores
servem a Votorantin, estão usando a infraestrutura e os salários
que nós estamos pagando. Eles têm que pesquisar para
instrumentar o poder público a controlar as atividades das
empresas e não estimulá-las a fazer o que estão fazendo. Devemos
procurar alternativas tecnológicas que preservem o ambiente e
favoreçam atividades na indústria, na agricultura e na
administração pública. Isso é ciência e este é o papel da
Universidade.
Adverso – A iniciativa do Governo
de cancelar o zoneamento tem volta?
Ludwig Buckup –
Administrativamente, não acredito.
Na Justiça, sem dúvida. As ONGs estão articuladas e o Governo
será acionado. O zoneamento ainda não é um documento acabado,
teria que ser aprovado no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema),
mas é uma diretriz, um ordenamento. Sem este controle, vão
plantar eucalipto como doidos. Depois de dois anos, quando o
zoneamento for aprovado, o texto vai ser um documento fictício.
Aí a coisa fica irreversível. Ou você acha que uma empresa vai
derrubar as árvores por causa de um documento da Fepam? Vão dar
um jeito, através até de medidas judiciais. Por isso é preciso
sustar este processo. O diretor do Consema declarou em uma
entrevista que o exame do zoneamento é longo porque tem que
passar pelas três câmaras setoriais (Biodiversidade, Agronegócio
e Recursos Hídricos) e fica 90 dias em cada uma. As audiências
públicas só acontecem em junho. Aí já vai um ano, antes de março
de 2008 não tem zoneamento. As ONGs querem sustar este processo,
aí há a possibilidade de criar um prazo para a aprovação. Vai
ser uma queda de braço. O Governo deveria ser mais maiúsculo e
não aceitar chantagens das empresas que afirmam deixar o Estado.
Deveriam dizer "até logo" e elas não iriam embora porque nenhum
outro país as aceita, nem o país de origem. E mentem que chega a
dar pena. Dizem que apenas 3% da área do Estado será coberta por
eucalipto. O Rio Grande do Sul tem 28 milhões de hectares; a
metade sul, 14 milhões. Destes 14 milhões, tire a Lagoa dos
Patos, a Mirim, toda faixa arenosa onde não se planta nada e as
áreas já utilizadas pela agricultura que somam quatro milhões de
hectares. No final, 24% da metade sul do Estado ficará coberta
de eucalipto, o que é muita coisa. O impacto sobre recursos
hídricos e as demais influências que uma monocultura arbórea
geram serão imensos. Não há como plantar eucalipto sem grande
quantidade de inseticida e isso vai para o lençol freático. Eu
estive na Austrália para estudar o eucalipto no seu ambiente
natural. Lá, o eucalipto vive em forma de mata de savana, uma
paisagem de campo com arbustos e árvores esparsas que nem sempre
tocam suas copas. Na média, são 60 eucaliptos por hectare. Aqui
vão plantar 1,7 mil por hectare. Imagina o impacto. Outro
exemplo: eles dizem que é possível colher a madeira depois de
sete, oito anos. O abate é feito por máquinas que cortam a
árvore rente 30 centímetros do solo e fica um toco no chão. Você
imagina 1,7 mil tocos de eucalipto no meio do campo? O toco
começa a se decompor depois de dez anos. Para arrancar, só com
correntes e tratores. E quem paga isso? A Stora Enso não vai
pagar e o proprietário da terra não terá dinheiro. No plantio de
eucalipto, não se faz o destocamento, planta-se outras mudas
entre os tocos. Ou seja, em 14 anos, são 3,4 mil tocos de
eucalipto no chão. Aí essas empresas vão embora e nós ficamos
aqui com uma miséria representada por 1 milhão de hectares de
toco de eucalipto. Nosso solo, sem nutrientes ou água e cheio de
veneno. É isso que a Yeda Crusius quer nos dar de presente? Eu
não quero, muito obrigado, nem meus filhos, nem meus netos. A
última coisa que deveria ser investigada pelos órgãos públicos,
até pelo Conselho de Segurança Nacional, é que estas empresas
estão comprando terras exatamente sobre o Aqüífero Guarani. Em
dez anos, água será mais importante que celulose. Será que
queremos comprar água potável destas empresas? Como se pode ver,
são muitas lâmpadas vermelhas acesas no painel do cuidado
ambiental.
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