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21/07/2006
O bioma pampa no atual modelo de desenvolvimento econômico
Entrevista especial com a bióloga Luiza Chomenko

No segundo semestre deste ano, a revista IHU On-Line terá como um dos temas de capa uma discussão sobre o bioma pampa. A equipe das Notícias Diárias decidiu antecipar o debate e entrevistou por e-mail a bióloga Luiza Chomenko, que trabalha no Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.

Graduada em Ciências Biológicas, Luiza é mestre em Ecologia e doutora em Biogeografia, com dupla ênfase, em Ecotoxicologia e Avaliação Espacial (gestão ambiental). É também docente no curso de Pós-Graduação em Educação Ambiental, no Centro Universitário La Salle, e no curso de Pós-Graduação em Direito Ambiental, na PUCRS.

Na entrevista que segue, a professora traça um panorama sobre diversos pontos relacionados às características do bioma pampa no estado gaúcho, no Uruguai e na Argentina, no contexto do modelo econômico praticado atualmente pela humanidade. Confira:

IHU On-Line - Quais os caminhos para alcançarmos, enquanto sociedade humana, o amplo respeito pelos recursos naturais?

Luiza Chomenko - A fim de se obter um desenvolvimento constante, permanente, a conservação da biodiversidade requer mudanças fundamentais nos padrões e práticas do modelo econômico mundialmente praticado na atualidade. A priorização de ações e dos objetivos a serem atingidos é distinta quando se avaliam aspectos sob ênfases local, regional, nacional ou internacional. Além disso, há que se considerar a observância de preceitos constantes em documentos internacionalmente aceitos entre as nações, destacando-se a Convenção da Diversidade Biológica (CDB), o Princípio da Precaução (PP), a Convenção de Ramsar, o Protocolo de Biossegurança de Cartagena, a Convenção das espécies migratórias, entre outros, os quais têm estreita relação com o uso que se faça da biodiversidade.

Um desrespeito à vocação regional

É possível constatar ainda que, em muitas regiões, há um desrespeito à real vocação regional, deixando de levar em conta resultados positivos que se poderiam obter a partir da utilização sustentável de recursos locais, sejam eles sob enfoque abiótico, biótico, social ou cultural. Não restam mais dúvidas de que as regras mais importantes para a evolução das regiões são aquelas consideradas "ambientalmente corretas", criando, em muitos casos, grandes dificuldades entre os seres humanos e o meio ambiente, pois é muito difícil convencer as comunidades mais pobres, principalmente aquelas que vivem no meio rural, e que por vezes lutam pela sobrevivência, de que as elas devem preservar seus recursos naturais e saberes tradicionais.

Disseminação dos processos de educação

Podemos ter certeza de que grande parte da discussão deve obrigatoriamente passar pela vertente da disseminação de processos de educação e divulgação. Neste caso, deve-se trabalhar ativamente na questão de que a aproximação entre ecologia e economia é irreversível. Muitas empresas e governos já perceberam, embora ainda de forma incipiente, que é mais barato fazer direito desde o início, do que consertar depois, pois pode não haver conserto para eventuais danos causados, ou então seus custos serão praticamente insuportáveis. Em nosso País falta, de certa forma, esta percepção da integração entre os distintos elementos constituintes do meio ambiente de uma determinada região, e faltam também os conhecimentos técnicos que permitam fazer destes uma utilização socialmente útil.

A harmonização como fonte de bons negócios

A harmonização dos aspectos econômicos, ambientais, sociais e culturais, é uma fonte de bons negócios para as sociedades que se preocupam em fazer uma correta avaliação destes aspectos. É fundamental que a própria ênfase científica seja avaliada de forma mais coordenada, no sentido de dar o devido valor aos recursos originalmente existentes em cada região, e as formas mais corretas de internalizar estes conhecimentos na gestão do espaço e seus elementos constituintes, sejam eles flora, fauna ou seres humanos. Faz parte da característica humana se sentir prestigiada no momento em que se dão valores positivos às suas ações e condições de vida. Entretanto, justamente neste ponto é que se distanciam as práticas realizadas e o discurso aplicado, pois com a introdução de novos modelos que, teoricamente, visam o desenvolvimento econômico, não se levam em conta as especificidades locais, tendo em vista que na maior parte das vezes estes modelos têm aplicação global, sem levar em conta aspectos locais.

IHU On-Line - Quais as principais conseqüências sociais, culturais e ambientais do novo modelo de "desenvolvimento" para a metade sul do Rio Grande do Sul?

Luiza Chomenko - Sob ênfase ambiental há um complexo conjunto de mudanças que tem ocorrido em função da entrada deste novo sistema de produção, pois há várias questões que se devem levar em conta:

1. há troca da composição original de flora e fauna;

2. mudam dinâmicas de funcionamento dos ecossistemas;

3. rompem-se ciclos de desenvolvimento das espécies, comunidades e ecossistemas, com efeitos diretos nos habitats e eventuais corredores, que originalmente permitiriam uma troca de bagagem gênica entre os seres vivos que ocupavam estes espaços;

4. há perda de espécies nativas importantes, muitas delas de importância global, considerando-se distintos aspectos;

5. há perda de utilização sustentável de organismos da biodiversidade nativa local.

A alteração em aspectos de cunho biótico implica na transformação do comportamento das populações humanas residentes na região, visto que é uma característica regional a integração estreita do ser humano com a natureza. Esta mudança comportamental leva a inúmeros novos fatores que influenciam a própria cultura, podendo induzir à perda da identidade cultural destas populações humanas. Há que se salientar que esta situação pode levar à redução da auto-estima das pessoas que tiveram seus vínculos tradicionais rompidos, e inclusive colocando em risco a própria figura do "gaúcho", que é um tipo humano mundialmente conhecido e admirado.

IHU On-Line - Como podemos relacionar os temas "agronegócios", "crescimento da metade sul" e o bioma Pampa?

Luiza Chomenko - Inicialmente poderíamos questionar o termo "agronegócios", visto que o mesmo vem sendo empregado quase sempre em relação à utilização de produtos que são commodities internacionais, embora a conotação correta não possa levar a esta visão. Os negócios derivados da produção agrícola podem (e são) muitas vezes resultado de produtos oriundos de pequenas propriedades ou que não estejam envolvidas com produção destas "commodities". Assim sendo, faz-se necessária uma reflexão sobre o que o pampa produz como sua vocação tradicional: serão grãos ou celulose (commodities), ou serão produtos que fazem parte da cadeia produtiva da carne (pecuária extensiva)?

No caso de serem produzidos grãos, servirão estes para que finalidade? Serão alimentos ou produtos utilizados para fins de produção de bioenergia? Além disso, considerando-se o novo modelo de agricultura que vem sendo introduzido na região (plantio de arvores exóticas), colocam-se outros questionamentos, tais como:

  • a agricultura atualmente desenvolvida na região se compatibiliza com este novo modelo, não conduzindo a conflitos por recursos naturais escassos (solo, água)?

  • o ambiente do bioma pampa, com suas características naturais sustenta (suporta) o novo modelo de agricultura que vem sendo introduzido na região?

  • o Rio Grande do Sul é um estado que se caracteriza por ter grande parte de sua economia baseada na agricultura, e destacando-se a qualidade de seus produtos, em grande parte exportados. Esta situação se manterá?

  • finalizando, poderíamos analisar a inserção humana neste contexto, e avaliar a permanência das populações humanas nas suas regiões, em equilíbrio com os recursos bióticos e abióticos disponíveis, e que são exatamente a característica básica deste espaço denominado bioma pampa. A nova modalidade de utilização da região manterá esta situação ou conduzirá à saída destas pessoas para outros locais? Neste caso, qual será o resultado sócio-econômico e cultural, quer no se que refere à região original (de onde saem), quer seja nas novas (aonde chegam)?

IHU On-Line - O que faz parte da nova percepção da realidade local no pampa gaúcho?

Luiza Chomenko - Destacam-se dois distintos enfoques:

a) o enfoque de ações do governo que tenta estimular o "desenvolvimento" da região utilizando um modelo externo à realidade local;

b) o enfoque daquelas pessoas, instituições, organizações, que avaliam a situação existente desde há muitos séculos e a que vem se formando.

Em função das distintas visões ("conflitos"), que vêm surgindo, começa uma reação pela preservação (ou manutenção) das características locais. Neste sentido, ONGs ambientalistas, empresas privadas, entidades de classe, entre outros segmentos da sociedade, vêm promovendo eventos, discussões e outras ações que têm como objetivo discutir a proposta que se tem implantado. Assim, destaca-se que há um movimento em expansão, que vem envolvendo inclusive parte de segmentos ligados à pesquisa e à ciência. Esta situação é extremamente positiva, pois conduz à ampliação da reflexão, não só do projeto de expansão de plantios de arvores exóticas para produção de madeira e celulose, mas de todo um modelo global de desenvolvimento, que tem levado ao incremento de consumo destes produtos. Por outro lado, começam a surgir novos eixos da discussão, tais como a localização das indústrias de celulose, conflitos com outros usos já existentes e, inclusive, com recursos naturais escassos (por exemplo, a água).

IHU On-Line - O que mudou com a introdução de cultivos de plantios de árvores exóticas, com fins de produção de celulose e madeira no Estado, principalmente falando dos dois biomas, o Pampa e a Mata Atlântica? Em que sentido a implantação de "industrias papeleiras" junto ao Rio Uruguai podem ajudar a ilustrar esse ponto?

Luiza Chomenko - O movimento que aqui no Rio Grande do Sul é ainda bastante incipiente, em outros países já tem desdobramentos muito mais complexos. Nesse sentido, destacam-se, pela proximidade geográfica, as imensas discussões que têm ocorrido entre Argentina e Uruguai relativamente sobre as "industrias papeleiras", inclusive com encaminhamentos para tentar obter soluções junto a esferas internacionais (Tribunal de Haia). Entretanto, destaca-se nesta questão uma situação que deve ser avaliada com cuidado: até agora a mídia de uma forma geral (e por conseqüência o público em geral), tem destacado o tema dos plantios de árvores como se fosse um problema especificamente ligado ao Rio Grande do Sul e não um problema que ocorre em outros estados do Brasil, o que não é verdadeiro.

Também há que se destacar a própria questão que cria o conflito entre Uruguai e Argentina, e que em parte se relaciona com a alegada poluição que virá ocorrer no Rio Uruguai. Até agora o Brasil vem se mantendo à parte desta discussão, embora o mesmo banhe parte do território do Brasil. Além disso, parte dos cultivos que ora vem se implantando no Estado, com o objetivo de fornecer matéria prima para uma empresa de celulose, também se localiza muito próximo à fronteira com Argentina (e, portanto, próximo ao Rio Uruguai), podendo-se pressupor desde já que a discussão hoje restrita apenas ao Uruguai e à Argentina virá a envolver o Brasil.

IHU On-Line - O que caracteriza o morador do Pampa? Ele se difere culturalmente de quem nasce e cresce em regiões montanhosas?

Luiza Chomenko - Há uma diferença e ela não é tanto de pampa x montanha, mas sim de processos de colonização e história. Assim sendo, difere inicialmente pela própria origem, visto que a maior parte dos colonizadores da região do pampa, e ainda hoje em maioria, é de origem espanhola e portuguesa, além de indígenas que viviam no Rio Grande do Sul, enquanto que na metade norte temos distintas origens destacando-se: alemães, italianos, poloneses, entre outros.

IHU On-Line - Como se dá a sobrevivência econômica na região?

Luiza Chomenko - O modelo atual apresenta distintas formas de desenvolvimento econômico e isso, em parte, é influenciado pelas dimensões das propriedades rurais. Nas propriedades maiores há como economia dominante aquela baseada na produção primária, através de pecuária extensiva (principalmente bovinos, ovinos), e produção de grãos (arroz e soja). Em propriedades menores, temos a pecuária (de leite), aliada com culturas variadas. Recentemente tem se expandido a fruticultura em algumas regiões aliando-se a outros usos das propriedades. A produção primaria é fornecedora de matéria prima para indústrias e também para a produção de artesanatos (em expansão no que se refere à produção com lã). Ainda de forma incipiente, mas já despontando, claramente subutilizado, surge o desenvolvimento de turismo.

 
 

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