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Trabalho escravo no Brasil: uma herança maldita do
capitalismo
Entrevista com Frei Xavier Plassat
IHU - Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos
Adital
"O trabalho escravo contemporâneo no Brasil
tem sido principalmente detectado e combatido em atividades
rurais”. Assim Xavier Plassat descreve a situação de um dos
grandes problemas do país: o trabalho escravo. Na entrevista
a seguir, realizada por email, ele fala da saída da empresa
Cosan da lista suja, um cadastro público produzido pelo
Ministério do Trabalho de empresas acusadas de submeter
trabalhadores a situações análogas à escravidão. "No caso da
Cosan, o que acontece é que o advogado do governo está
renunciando a defender seu cliente, acordando por escrito
com a Cosan que a União deixará de apelar contra a última
decisão da justiça em favor da desta e não buscará,
portanto, reincluir seu nome na lista suja”, explicou.
A Cosan é uma das maiores produtoras e
exportadoras de açúcar e etanol do mundo, e a maior
produtora de energia elétrica a partir do bagaço da
cana-de-açúcar. Em fevereiro deste ano, a empresa se uniu a
Shell e, juntas, criaram a Raízen que será a marca
corporativa dos negócios e a aposta para o crescimento das
vendas internacionais de etanol. No entanto, a Cosan havia
sido incluída no cadastro de empregadores flagrados com mão
de obra escrava em dezembro de 2009 por conta da libertação
de 42 pessoas em sua usina em Igarapava-SP.
Nascido na França, Frei Jean Marie Xavier
Plassat é coordenador da Campanha contra o Trabalho Escravo
e destaca-se pela sua atuação na Comissão Pastoral da Terra
(CPT) e na luta contra o trabalho escravo contemporâneo no
Brasil. Seu trabalho rendeu-lhe o Prêmio Nacional de
Direitos Humanos em 2008. É graduado em Ciência Política em
Paris em 1970, ingressou na ordem dominicana no ano
seguinte.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Depois de fazer um acordo com o
governo federal, o nome da Cosan não consta mais na chamada
"lista suja" do Ministério do Trabalho. Qual sua avaliação
deste acordo? Ele abre brecha para a continuidade do
trabalho escravo no Brasil?
Frei Xavier Plassat
– É preciso voltar um pouco antes deste acordo. Os fatos
caracterizando o trabalho análogo ao de escravo resultam de
uma fiscalização de 2007 na Usina Junqueira, do grupo Cosan,
em Igarapava-SP. Na oportunidade foram resgatados 42
cortadores de cana aliciados em Pernambuco por um gato
camuflado de empresa terceirizada de corte de cana.
Esgotados os recursos disponíveis contra os autos da
fiscalização, o nome da Cosan foi para o Cadastro de
Empregadores da Portaria nº 540/04 do Ministério do Trabalho
(vulgo: "lista suja”). Bem antes de qualquer conversa com o
governo federal, aCosan já conseguiu na Justiça do Trabalho
uma decisão liminar – concedida pelo juiz substituto Raul
Gualberto Fernandes Kasper de Amorim, do Tribunal Regional
do Trabalho da 10ª Região (TRT-10) posteriormente confirmada
por sentença de 1ª instância –, retirando seu nome da Lista
suja: este é o expediente regularmente procurado por outros
empregadores na mesma situação. Eles têm esse direito e há
juízes para atendê-los prontamente, mesmo se para isso se
utilizam de argumentos impróprios, demonstrando
frequentemente seu grave desconhecimento em relação ao que a
lei brasileira considera como trabalho análogo ao de
escravo.
Geralmente, esses argumentos não resistem aos
recursos interpostos e apreciados nas instâncias superiores.
É dever do Advogado do Governo, que é a Advocacia Geral da
União, defender judicialmente os atos do Executivo: portanto
cabe ao Advogado Geral da União recorrer de tais decisões
até a última instância. No caso da Cosan, o que acontece é
que o advogado do governo está renunciando a defender seu
cliente, acordando por escrito com a Cosan que a União
deixará de apelar contra a última decisão da justiça em
favor desta e não buscará, portanto, reincluir seu nome na
"lista suja". É uma situação para lá de bizarra: inédita e
escandalosa. Como para dizer: "ao agronegócio tudo é
permitido” ou ainda: "o Ministério responsável pela
publicação da lista suja – que é o Ministério do Trabalho –
agiu de forma equivocada e não dá para defendê-lo”. Essa
postura (a de desqualificar a atuação do Ministério do
Trabalho e Emprego – TEM) já havia sido adotada pelo então
ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, cuja pasta é
mesmo a de advocacia geral do agronegócio brasileiro (ele
chegou a qualificar a inclusão da Cosan na "lista suja" de
"exagero" e de "erro"). A presidente da Confederação da
Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA, senadora Kátia
Abreu, é mais radical: "Agentes partidários, travestidos de
funcionários públicos, empenham-se em difundir a infâmia de
que a maioria dos produtores rurais ou é predadora do meio
ambiente ou escravagista. A manipulação de causas contra as
quais ninguém, na essência, se opõe é um dos truques de que
se vale uma certa esquerda fundamentalista, adversária da
livre-iniciativa, para manter como reféns os produtores
rurais, difamando-os” (O Estado de São Paulo, 25-5-2010).
Bizarro e escandaloso: porque há provas
caracterizando como "análoga à de escravo” a situação
encontrada pelos fiscais em junho de 2007 na Usina da Cosan
(usina Junqueira, em Igarapava-SP). Trata-se do relatório do
Grupo Móvel de Fiscalização onde são reunidas as evidências
coletadas pelos Auditores Fiscais do Trabalho, o Ministério
Público do Trabalho e a Polícia Federal presentes na
operação. Mesmo assim, na sua decisão o magistrado sustentou
que os autos de infração eram insuficientes para a
"tipificação da redução à condição análoga à de escravo". E
ainda argumentou que, por ter assinado – três meses antes do
caso em tela – um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPT
(TAC nº 2803/2006), em consequência de uma fiscalização
anterior, a Cosan não podia ser questionada por
procedimentos que já havia se comprometido a resolver...
entre os quais justamente o uso da terceirização ilegal.
O que impressiona e desola ao mesmo tempo é
ver que um Advogado Geral da União, por tarefa, eminente
sabedor das leis, venha se utilizar dos mesmos argumentos
falhos: segundo a reportagem de João Carlos Magalhães,
publicada na Folha de São Paulo (28-2-2011), o ministro
Adams afirma que só fez acordo para resolver uma situação
"excepcional”: pois há "fatores que indicam a não
intencionalidade” da Cosan em submeter os trabalhadores a
tratamento análogo à escravidão, e mais: não foi nem ela que
infligiu esse tratamento, foi um terceiro: a tal empresa
terceirizada! Ora justamente esta é estratégia mais comum na
prática contemporânea do trabalho escravo: o responsável
pela atividade-fim contrata os serviços de terceirizados,
imaginando eximir-se da responsabilidade de empregador. É
jurisprudência constante a requalificação deste truque:
porque no direito brasileiro do trabalho, o que predomina é
a realidade da relação, não a sua roupagem legal. Tanto é
que já se perdeu a conta dos fazendeiros obrigados a pagar
pelas falcatruas do gato por eles interposto, das
siderúrgicas intimadas a assumir as contas dos seus
carvoeiros de fachada, e das usinas responsabilizadas por
terceirização ilegal.
Mas tem outro "detalhe", provavelmente
determinante no caso da Cosan: a mesma empresa já havia
assinado pactos de responsabilidade empresarial: entre estes
o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de
Trabalho na Cana-de-Açúcar. Inclusive, no comunicado público
sobre o episódio, a companhia assume para si o "papel de
liderança, junto aos governos estadual e federal, no esforço
de regulamentar e melhorar as condições de trabalho de toda
a cadeia produtiva do agronegócio". No intuito de promover a
imagem limpa do produto brasileiro, esse compromisso foi
laboriosamente articulado pelo governo federal, na busca
frenética de conferir ao etanol o status de commodity
global. Este é um compromisso do tipo amistoso: basta
assinar que ninguém cobra nada, ninguém monitora, ninguém é
sancionado. Você, por encantamento, vira ficha limpa. No ano
passado, a própria Comissão Nacional Para a Erradicação do
Trabalho Escravo – Conatrae chamou para discutir esta
bizarrice um representante da Presidência da República. Foi
prometida a iminente elaboração de mecanismo de
monitoramento independente.
Até hoje esperamos... Entendo assim: ficava
realmente muito feio na fotografia ter a mesma empresa ao
mesmo tempo incluída na lista suja e presumida "liderança”
da lista limpa. A solução imaginada foi a de quebrar um dos
dois termômetros. Ao descartar a possibilidade de a Cosan
voltar a frequentar o cadastro do Ministério do Trabalho, o
Advogado Geral da União (Luis Inácio), cumprindo ordens
recebidas de cima (...), acabou provocando uma deflagração
que promete de ir longe. Se o Compromisso da Cana já era
considerado um duvidoso instrumento de marketing, agora
virou um has been. Já era. A comunidade internacional, a
ONU, a OIT costumavam louvar a corajosa política de
erradicação do trabalho escravo adotada no Brasil, embasada
em avançado conceito legal, alicerçada na independência e no
rigor da fiscalização, e amparada por intensa mobilização
social e institucional. Já era. Se tal bizarrice foi
concedida à Cosan, por que seria recusada a outra qualquer
empresa de renome ou de peso ou de boa contribuição
eleitoral? Quem pode garantir – como insistiu o ministro
Adams – que o governo não virará um "balcão de TACs".
IHU On-Line – O senhor sabe dizer como a
Cosan trata seus funcionários? Quais os indícios de trabalho
escravo?
Frei Xavier Plassat
– A fiscalização realizada na Usina Junqueira trouxe
evidências robustas. Segundo a procuradora do trabalho,
Carina Rodrigues Bicalho, que atuou na fiscalização da Cosan,
as constatações do Grupo Móvel foram plenamente suficientes
para caracterizar o trabalho análogo ao de escravo.
São assim resumidas pelo jornalista Maurício
Hashizume, da Repórter Brasil (10-1-2010): Aliciamento de
trabalhadores, submissão a sistema de endividamento
(conhecido também como "barracão" ou "truck system”);
condições degradantes e irregulares nas frentes de trabalho
e em termos de alojamento, alimentação, transporte etc. Um
preposto da empresa terceirizada José Luiz Bispo Colheita -
ME arregimentou mão de obra em Araripina-PE. De lá,
mobilizou transporte irregular – sem a Certidão Declaratória
exigida pelo MTE – até Delta-MG, na divisa entre SP e MG,
próximo a Igarapava-SP. A viagem foi cobrada antecipadamente
(R$ 210). As vítimas contaram que, no momento da abordagem
inicial, não foram informadas que teriam de arcar com
aluguel, comida e produtos de necessidade básica para o
trabalho. Quando chegaram ao precário "Alojamento do Guri",
em Delta-MG, as vítimas se viram obrigadas a pagar pela
estadia. Alimentos e outros itens essenciais (chapéu de
proteção contra o sol, marmita para refeições e garrafa
térmica para levar água) adquiridos nos supermercados do
Carlinhos e do Juarez, indicados pelo intermediário na
contratação; eram contabilizados como dívidas e acabavam
sendo descontados dos salários. "Não estava sobrando
dinheiro para que eles pudessem mandar para a família",
sublinhou a procuradora.
A maior parte do grupo começou a trabalhar em
maio de 2007 e a fiscalização recolheu "vales"
correspondentes aos produtos contabilizados no sistema de
dívidas. Entre os libertados da Usina Junqueira, havia um
jovem de 17 anos trabalhando no corte de cana, atividade
proibida para quem não tem 18 anos completos. No Alojamento
do Guri, foram constatadas outras irregularidades tais como
excesso de pessoas, alimentos próximos a EPIs e ferramentas
sujas e dispostos no chão, carnes penduradas em varais pelos
cômodos, instalações sanitárias sem condições de uso e
fiação elétrica inadequada. Havia ainda problemas graves nas
frentes de trabalho como a ausência de água potável e o
transporte irregular. A água que os trabalhadores levavam
para beber era retirada diretamente das torneiras do
Alojamento do Guri, sem passar por qualquer filtragem ou
purificação. Sem documentação regular e em péssimo estado de
conservação, o ônibus que levava o grupo estava sem freio e
foi apreendido pela fiscalização.
IHU On-Line – O que caracteriza o trabalho
escravo na modernidade? A que situações e condições de
trabalho as pessoas são submetidos?
Frei Xavier Plassat
– No Brasil, além de referido aos compromissos
internacionais assumidos pelo país junto à ONU, à OIT e à
OEA, o trabalho escravo é definido por lei interna,
incorporada ao Código Penal (artigo 149). Essa lei não pode
ser acusada de ser defasada: ela foi reformulada pelo
Congresso Nacional em 2003 (Lei 010.803-2003). Na redação
anterior, o legislador só aludia ao crime de trabalho
análogo ao de escravo e definia as penas incorridas (2 a 8
anos de reclusão). Como consequência, vários intérpretes da
lei procurava na escravidão antiga, colonial ou imperial, o
modelo de referência: grilhões, castigos, correntes. Na nova
redação, o legislador enumera as hipóteses em que esse crime
é configurado e se atenta às modernas correntes da
escravidão: trabalho forçado, dívida, coação da liberdade,
degradância da pessoa, jornada exaustiva. Eis as
características destacadas.
No texto atual, é crime "reduzir alguém a
condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos
forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a
condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por
qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída
com o empregador ou preposto. § 1º Nas mesmas penas incorre
quem: I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por
parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de
trabalho; II – mantém vigilância ostensiva no local de
trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do
trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. § 2º
A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: I –
contra criança ou adolescente; II – por motivo de
preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.” É
interessante ver que também, na legislação internacional
moderna sobre servidão e escravidão, estão cada vez mais
incorporados esses critérios centrados simultaneamente na
dignidade e na liberdade da pessoa, porque – e isto é uma
evidência – não há como garantir esta sem aquela.
IHU On-Line – O senhor percebe, no país, uma
tentativa de desmoralizar a fiscalização do trabalho
escravo? Como vê a fiscalização nesta área?
Frei Xavier Plassat
– Especialmente quando se interessa a grandes
empreendimentos do agronegócio brasileiro, a fiscalização do
Ministério do Trabalho é alvo de ataques coordenados:
Unaí-MG foi o mais cruel (3 fiscais e seu motorista foram
chacinados quando fiscalizavam lavouras de feijão);
Confresa-MT e Ulianópolis-PA foram os mais "políticos”
(senadores e representantes classistas, tentaram tumultuar o
resgate de, respectivamente, 1108 e 1064 cortadores de cana
na Gameleira e na Pagrisa). O casoCosan abre novo capítulo
nessa história.
Embora sujeita às imprevisíveis contingências
orçamentárias, deve-se reconhecer que o Brasil tem na
fiscalização do trabalho um instrumento de que poucos países
dispõem. O Grupo Móvel de fiscalização opera desde 1995, mas
a largada de verdade foi dada a partir de 2003,
conseguindo-se libertar de lá para cá mais de 35 mil
trabalhadores, 85% do total resgatado desde 1995. Não é que
tudo funciona a contento: há problemas tais como o
engessamento do planejamento gerando atrasos no atendimento
a denúncias que, se não tratadas com urgência, perderão
consistência; há dificuldades operacionais para garantir
efetiva participação da Polícia Federal com sua competência
específica de polícia judiciária; há resistência em algumas
superintendências regionais para assumir esse tipo de
fiscalização.
Mas, no geral, pode-se dizer que a
fiscalização melhorou em termos de atendimento. Já é menor a
proporção de denúncias (um terço) que continuam sem
fiscalização. Mas, importante que seja lembrado, a
fiscalização é só um passo inicial no combate ao TE: passo
indispensável mas insuficiente. Libertar 100 escravos, 1000
escravos ou 40.000, como aconteceu desde 1995, não erradica
a escravidão. Ela é um sistema que tem raízes profundas e
mecanismos eficazes para garantir sua reprodução: ganância,
miséria, impunidade, um ciclo onde cada elemento é produtor
e gerador dos demais.
IHU On-Line – Que órgão é responsável pela
fiscalização?
Frei Xavier Plassat
– A fiscalização móvel, que é a fiscalização especializada
no combate ao trabalho escravo, é competência do Ministério
do Trabalho o qual articula as operações do Grupo de
Fiscalização Móvel, um grupo especial, com comando central
independente das pressões locais ou regionais. Em função das
competências locais disponíveis e do caráter das denúncias
investigadas, um número significativo de operações acaba
sendo assumido por Grupos de Fiscalização constituídos nas
próprias Superintendências Regionais do Trabalho, mas
obedecendo aos mesmos critérios operacionais.
IHU On-Line – Como atua a Comissão
Nacional/Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo?
Frei Xavier Plassat
– Sob a presidência do ministro-chefe da Secretaria de
Direitos Humanos, a Comissão Nacional de Erradicação do
Trabalho Escravo (Conatrae) é formada por representantes do
executivo, por meio de vários ministérios (Trabalho e
Emprego, Justiça, Ministério do Desenvolvimento Agrário,
Fazenda Desenvolvimento Social, etc.), representantes de
entidades (sociedade civil: Comisão Pastoral da Terra,
Repórter Brasil, Movimento Humanos Direitos, Organização
Internacional do Trabalho, Ministério Público, associações
de magistrados, procuradores), inclusive entidades sindicais
patronais (CNA, CNI) e de trabalhadores (Contag).
Cabe à Conatrae acompanhar a execução das
políticas e fomentar ações e articulações de que a
conjuntura necessita. Deveria ser por excelência um espaço
de monitoramento e adaptação das ações do plano. A partir de
2006, como resultado da mobilização social, começaram a ser
criadas algumas Coetrae (ou equivalente), em nível estadual,
com a mesma finalidade, relacionada à implementação de
planos estaduais específicos: assim foi no Maranhão,
Tocantins, Mato Grosso, Piauí e, mais recentemente, na
Bahia. Rio de Janeiro e São Paulo estão em processo de
criação. A bem da verdade, muitas ficaram ainda no papel,
destacando-se positivamente algumas iniciativas em Mato
Grosso e Piauí, e algumas tentativas no Tocantins.
IHU On-Line – Como se descobrem os casos de
trabalho escravo? Os trabalhadores têm o hábito de
denunciar?
Frei Xavier Plassat
– A denúncia dos próprios trabalhadores é o principal canal
para descobrir os casos de trabalho escravo e orientar a
fiscalização. Para um trabalhador submetido a tal situação,
a decisão de fugir para denunciar não é ato qualquer: é ato
de resistência e de risco assumido que só vem acontecendo
quando um limite é ultrapassado na violação de sua dignidade
ou de sua liberdade. Como muitos acabam resumindo, o limite
é quando se acham "tratados pior que animais” e que se
rompem as amarras que os prendiam ainda à cultura ou à norma
da obediência, da promessa feita, da dívida a pagar ("peão
paga o que deve”).
Com a divulgação do tema, sua maior exposição
na mídia, a consciência de que denunciar pode provocar
resposta efetiva, a decisão de partir para a denúncia tem
virado menos problemática. Por muito tempo as equipes da
Comissão Pastoral da Terra – CPT foram o canal principal de
recepção e encaminhamento das denúncias desses
trabalhadores. Isso reflete provavelmente a credibilidade do
trabalho desenvolvido junto às comunidades rurais nos 35
anos de presença solidária da CPT ao seu lado. Hoje
ainda,sua campanha nacional acolhe e identifica mais do
terço dos casos. Acolher um trabalhador implica em muito
mais que documentar e encaminhar sua denúncia para o Grupo
Móvel: redunda em ações pré- e pós-fiscalização: na
prevenção e no exercício coletivo da vigilância, na busca de
alternativas para que o ciclo da escravização não volte a se
reproduzir. Caso contrário, se devolvido às mesmas condições
que provocaram seu aliciamento, o trabalhador resgatado terá
séria probabilidade de voltar qualquer dia à situação
análoga à de escravo.
IHU On-Line – Em que setores industriais
brasileiros há maior evidência de trabalho escravo?
Frei Xavier Plassat
– O trabalho escravo contemporâneo no Brasil tem sido
principalmente detectado e combatido em atividades rurais.
Mesmo assim, sabemos que é uma realidade urbana também,
principalmente em oficinas de confecção de São Paulo, onde
predomina a exploração de imigrantes bolivianos, geralmente
irregulares ou traficados. Em 2010, 242 pessoas foram
libertadas de situação análoga à de escravo em atividades
não agrícolas: construção civil (175, inclusive em obras...
do PAC), entretenimento (24), confecção (43) e foram 25 os
casos registrados de um total nacional de 211. No campo dois
terços dos casos identificados entre 2003 e 2010 estão na
pecuária em sentido amplo (desmatamento, abertura e
manutenção de pasto); 17% em lavouras de soja, algodão,
café, milho, plantações de cana de açúcar, culturas de
frutas e legumes, reflorestamento; 10% em carvoarias a
serviço da siderurgia (o carvão vegetal é insumo para a
produção de ferro-gusa, insumo do aço). Em termos de pessoas
resgatadas (na conta da CPT: 35.027 entre 2003 e 2010), a
pecuária representa 35%, a cana: 29%, as outras lavouras e o
reflorestamento: 20% e o carvão vegetal: 7%.
IHU On-Line – O trabalho escravo é acentuado
em alguma região específica do país? Quais os estados que
ainda permitem essa prática?
Frei Xavier Plassat
– No início, detectado essencialmente no chamado arco do
desmatamento – que vai do Maranhão até Mato Grosso passando
por Pará e Tocantins –, houve uma extensão do fenômeno à
totalidade do território nacional, com pouquíssimas
exceções. Mesmo assim a Amazônia respondeu por dois terços
dos casos em 2009 e 2010 (sendo 47% no Norte e 35% somente
no Pará) e um terço dos resgates (23% no Norte); Sudeste e
Sul por 12 e 10% respectivamente (mas 63% e 11% dos
resgates, resultado em que influi o efeito "canavial”: a mão
de obra concentrada num só canavial ultrapassa e muito o
número de trabalhadores explorados em uma fazenda de gado);
15 a 18% dos casos e dos resgates estão no Centro-Oeste (em
parte inserido na Amazônia).
De 2003 a 2010, o Sul registrou 85 casos
sendo 47 no Paraná, 26 em Santa Catarina e 12 no Rio Grande
do Sul. Longe ainda dos "campeões”: Pará (901 casos),
Maranhão (218), Tocantins (208), Mato Grosso (195), Goiás
(84), Bahia (56). Perto de Minas Gerais (48), Mato Grosso do
Sul (38), Rio de janeiro (27), São Paulo (24), Piauí,
Rondônia e Espírito Santo (20 cada). Pelo número de
resgatados, eis os estados mais críticos: Pará (8973), Mato
Grosso (4026), Goiás (3070), Tocantins (2400), Mato grosso
do Sul (1969), Maranhão (1967), Minas Gerais (1846), Rio de
janeiro (1680), Espírito Santo (968).
IHU On-Line – Como explicar que ainda exista
trabalho escravo no século XXI?
Frei Xavier Plassat
– Essa questão do "ainda” é complexa e simples ao mesmo
tempo: lucrar é a razão derradeira que move o escravagista,
não a maldade em si. Esse motor é cego, tanto é que, se
flagrado, o escravagista moderno "justifica” que nem sabia
que aquilo estava acontecendo em suas terras, sob seu
comando. Esse motor cego não tem época: somente encontra
mais ou menos freios na lei, no Estado, na sociedade.
Trabalho degradante, jornada exaustiva,
dívida fabricada, humilhações, ameaças e violência, junto
com o isolamento, são as correntes eficazes do moderno
cativeiro. Obviamente há diferenças em relação à forma
antiga de escravizar. Sobre o escravo moderno, o patrão não
exerce como antigamente um direito de propriedade, mas sim
de uso e abuso, o que muitas vezes se revela até pior, pois
não se responsabiliza pela "conservação” deste patrimônio ou
a reprodução de sua prole. Pelo contrário, descarta-o quando
não lhe serve mais, depois de explorá-lo até ou além do
limite, em serviços braçais necessariamente de limitada
duração (a duração média dos serviços "contratados” nessa
modalidade não passa geralmente de 3 a 4 meses). Carvoeiro,
roçador de pasto ou cortador de cana do século XXI tem
expectativa de vida inferior a muitos escravos dos séculos
passados. O trabalho escravo segue o rastro do agronegócio o
qual, na última década, se tornou a menina dos olhos das
políticas públicas: na fumaça das carvoarias que sacrifica
homens e florestas para produzir aço; nas pegadas do gado
que continua avançando sobre a Amazônia Legal, com
desmatamento em grande escala; na onda da lavoura de soja
que conquistou os cerrados centrais; no boom do etanol que
explode de norte a sul e ressuscita o velho canavial.
Presente nas principais cadeias produtivas do agronegócio
brasileiro: carne e madeira (metade das denúncias), cana e
demais lavouras (metade dos libertados), e carvão vegetal
para uso na siderurgia. Operadores internacionais demandam
produtos sempre mais baratos sem se preocupar com o que isso
implica lá na ponta. Parece haver ligação entre essa
expansão desenfreada do agronegócio, no contexto da economia
globalizada, e a precarização das relações trabalhistas.
Como costuma dizer Leonardo Sakamoto,"em nome da conquista
de novas fatias de mercado, sem redução das margens de
lucro, há umapressão contínua para flexibilizar os direitos
do trabalhador”. É fato que aonde o Ministério do Trabalho
leva a fiscalização, flagra situações degradantes e
identifica trabalho escravo. E aí fica a contradição: é o
mesmo Estado que apoia a expansão acelerada das monoculturas
de exportação e que corre atrás dos prejuízos brutais que
ela própria provoca. Que liberta escravos na Cosan e confere
à megaempresa brasileira, líder global do açúcar e do
etanol, seu duvidoso atestado de lisura.
IHU On-Line – É possível estimar quantos
trabalhadores escravos existem no Brasil atualmente?
Frei Xavier Plassat
– Não é possível falar um valor certo: nenhum IBGE da vida
se arrisca a contabilizar um crime ainda por ser desvelado.
O que existe são estimativas "a mínima”: a CPT avançou anos
atrás uma hipótese conservadora de pelo menos 25.000
trabalhadores entrando anualmente no ciclo da escravidão,
somente na Amazônia. Muitos fiscais do trabalho hoje falam
em 40 a 100.000 pessoas, para o conjunto do país. É muito e
pouco ao mesmo tempo: significa que só uma fração dos
empregadores rurais mantém essa pr´tica criminosa e que
seria teoricamente fácil acabar com isso. Para isso já
precisaria uma CNA mais responsável. Comparado aos números
disponíveis para o mundo (entre 12,5 e 27 milhões de
escravos), o Brasil não está entre os piores; está entre os
poucos que adotaram uma política de combate: um modelo que –
até este episódio daCosan – havia virado artigo de
exportação, aprovado pela OIT e pela ONU. Sobre a situação
mundial, sugiro ao leitor uma visita ao Freedom Project,
lançado este mês pela CNN:
http://thecnnfreedomproject.blogs.cnn.com. Ali
assistirá uma cena impressionante: após ver imagens e ouvir
depoimentos de uma brutal clareza, o ministro do trabalho da
Índia, país líder em trabalho escravo, teima em negar o
óbvio: "No, this is not slavery!”. Um discurso que já
ouvimos aqui. Para brasileiro ou para inglês ver?
IHU On-Line – Que aspectos sociais,
políticos, econômicos têm favorecido a manutenção do
trabalho escravo no Brasil?
Frei Xavier Plassat
– O Brasil tem na escravidão uma herança maldita que gerou
estruturas e atitudes até hoje fincadas nas entranhas do
país. São muitos ainda – fazendeiros, parlamentares,
magistrados, políticos, advogados (gerais ou particulares) e
peões – que consideram normal ou, simplesmente, tradicional
ou ainda meramente atrasado esse jeito de se conseguir um
trabalho braçal de baixo custo, compatível com as ambições
agroexportadoras do país.
Como explicar a frequência com a qual
escravos são encontrados em terras de juiz, de deputado, de
senador, de advogado, de médico, de cantor, de industrial?
Como entender a teimosia dos deputados brasileiros em se
negar, há mais de 10 anos, em aprovar uma emenda
constitucional que propõe simplesmente retirar a propriedade
da terra onde for encontrado escravo? Se a propriedade é
sinônimo de poder inquestionável e o latifúndio forma em que
qualquer política nacional há de ser moldada, então fica
difícil garantir os direitos da dignidade, da liberdade, e o
acesso de todos a todos os direitos.
A persistência desta gerança maldita do
capitalismo brasileiro decorre da força exorbitante da "Casa
Grande" nas estruturas do poder. Uma expressão paradigmática
é a chamada bancada ruralista do Congresso Nacional.
IHU On-Line – Qual é o perfil do trabalhador
escravo? Tal como nos séculos passado, é ele
majoritariamente negro?
Frei Xavier Plassat
– Hoje, um brasileiro não se torna necessariamente escravo
por ser negro. Porém, pela sua persistente marginalização
socioeconômica, o afrodescendente continua fornecendo os
maiores contingentes. Grilhões e ferros não são mais o meio
comum de subjugar a liberdade de outrem: os escravos "da
precisão”, trabalhadores sem terra e sem alternativa,
vítimas das promessas de aliciadores organizados, migram
país afora em busca de sustento a qualquer preço. Usar
trabalhadores trazidos de fora sempre tem sido a regra na
história mundial da escravidão. Nas condições do Brasil
contemporâneo, o avanço da fronteira agrícola sobre as
terras da floresta amazônica, mas também do Cerrado central
e do Pantanal, tem constituído um apelo muito forte para a
migração temporária ou definitiva de trabalhadores
empobrecidos do nordeste e do norte do país, devidamente
aliciados por mirabolantes promessas.
Rotas e empreendimentos foram se
diversificando: escravos encontrados no Paraná foram
aliciados em Minas e Bahia para plantar pinus ou extrair
erva-mate; já em São Paulo, Rio, Mato Grosso e Goiás, os
migrantes da cana encontrados em situações degradantes – uma
das condições do trabalho análogo à de escravo, culminando
em ocorrências de morte por exaustão – vêm do Piauí,
Maranhão ou Alagoas. Na maioria dos casos, é encontrada no
Norte e Nordeste, os trabalhadores migraram do interior do
nordeste procurando alternativa à falta de terra para
plantar ou ali acabaram se fixando. Graças à inclusão dos
resgatados no Seguro-desemprego a partir de 2003, temos hoje
um perfil do conjunto desses trabalhadores. Segundo os
números apurados até outubro de 2009, a maioria é de homens
(95,5%); 75% deles nasceram entre Maranhão (28%), Pará,
Bahia, Mato Grosso do Sul, Piauí, Minas Gerais, Tocantins ou
Pernambuco. Analfabeta: 40%; 4ª série incompleta: 28%;
ensino médio completo: 1,8%. Em 2 entre 3 casos, a faixa
etária no dia da libertação era de 18 a 34 anos; 3% dos
resgatados estavam abaixo de 17 anos.
IHU On-Line – O senhor costuma ter contato
com trabalhadores escravos? O que eles relatam e o que os
impede de abandonar esta situação?
Frei Xavier Plassat
– Costumo sim, é parte do nosso dia a dia. Os trabalhadores
que nos procuram são variados. Há peões moradores da região
que um dia acabam desistindo de se dobrar às imposições do
patrão ou do gato e, eventualmente orientados por colegas ou
informações da nossa Campanha, ir atrás de seus direitos. Há
muitos peões do trecho, para quem a vida é uma sucessão de
empreitadas de fazenda em fazenda, com sucessos e derrotas.
O que lhes impede de abandonar essa situação é simplíssimo:
a falta de alternativa. Mesmo sabendo dos riscos incorridos
muitos voltam à empreitada maldita, porque não têm terra
para plantar ou qualificação para oferecer no mercado do
trabalho. Cada história é uma história. Reproduzo a seguir
as anotações que tomei ao entrevistar dois trabalhadores: o
Jucimar e o Romualdo (nomes aqui trocados, por questão de
segurança).
Maranhense e peão rodado
– Neste sábado, Jucimar Pessoa, 26 anos, de Lago da Pedra,
Maranhão, chegou cedo ao nosso escritório da Comissão
Pastoral da Terra em Araguaína-Tocantins. Vinha de Marabá,
enviado pela CPT de lá. Hospedado por esta junto com outros
10 trabalhadores (do Piauí, Maranhão e Tocantins), foragidos
de várias fazendas do sul do Pará, há semanas estava
esperando a prometida chegada do Grupo Móvel de Fiscalização
do Ministério do Trabalho. Contou-me que sua última empreita
foi para lá da Vila Maracajá, município de Novo
Repartimento, numa fazenda sem nome de propriedade de Olavo
R., um ex-deputado. Ali trabalhou somente 15 dias sob as
ordens do gato Marcônio, junto com mais 20 trabalhadores.
Cansado de esperar o primeiro centavo da remuneração
prometida (R$12 por dia, no regime "cativo”) e preocupado
pela demanda do gato de, em troca de R$100,00, matar seu
companheiro de time (cuja esposa, também cozinheira da
turma, o gato havia se apropriado), Jucimar ameaçou
denunciar na Polícia Federal. Foi o suficiente para, na
hora, ser esfaqueado por Marcônio e deixado como morto. Com
o apoio dos outros peões, foi levado ao pronto socorro de
Tucuruí e, milagre para seus 60 quilos, se recuperou mais ou
menos.
Peoneiros
– Esta era somente a última de muitas empreitas que, em nove
anos de peregrinação, o levaram de Lago da Pedra até o Mato
Grosso (Alta Floresta, Sinop, Juína), Rondônia (Vilena),
Goiás (Goianópolis), Pará (Redenção, Xinguara, Cumarú),
Tocantins (Ananás, Nova Olinda, Colinas), Maranhão (Açailândia)
e, por fim, de novo ao Pará (Quatro Bocas, Vila Santa Fé,
Sapucaia, Pacajá e Novo Repartimento). Entre uma empreita e
a outra, Jucimar somente conheceu os "peoneiros", os hotéis
e pensões reservados em cada cidade destas aos peões do
trecho. Excepcionalmente, quando o dono do peoneiro roubava
demais da conta, hospedava-se em hotéis comuns, pagando
diária, ou ficava na casa de alguns colonos ou assentados da
Transamazônica, para quem chegou a prestar serviço (por
sinal, as raras vezes em que foi bem tratado, bem alojado,
bem alimentado e bem pago). Somente agora, nesse tempo em
que ficou esperando os fiscais, é que se preocupou, sob o
incentivo da CPT, em tirar sua identidade e adquirir uma
carteira de trabalho. Mostra seus documentos com orgulho. É
bom ter essa carteira de trabalho, pois, segundo observou
ultimamente, agora tem lugares em que você não pode
trabalhar sem ela. Ao contar sua história, o Jucimar lembra
os locais, as pensões, os gatos, o saldo que levou ou, mais
frequente, deixou de levar. De todos os peoneiros que
frequentou, alguns têm sua preferência: em São Félix do
Xingu é o Hotel do Goiano, conhecido como da Elmira, perto
da rodoviária. Em Xinguara, gosta de ficar no Chico da
Marlene. Esses dois são hotéis caros, em torno de R$12 a
diária. Chegando em Araguaína hoje, dispensou nossa proposta
de hospedagem: preferia ir se hospedar num colega que
conheceu um ano atrás. Tem assim alguns amigos entre os
peões: companheiros de time ou de pensão que revê de tempo
em tempo, nos acasos das empreitas. Araguaína é velho
conhecido dele; já passou um ano entre a pensão da dona
Helena, na Feirinha, a do Trevo, no Cariri, a da Isaura,
também na Feirinha, e a fazenda. Pediu-me até uns reais para
não chegar no amigo de mãos vazias. No meio da tarde, ao
passar na frente da pensão da dona Helena, topei de novo com
ele: "não havia encontrado o amigo" e já pensava em sair
rumo a Sapucaia, para conseguir qualquer serviço; pelo menos
até a outra semana, quando chegaria o Grupo Móvel.
Gatos
– Os gatos com quem já trabalhou? Em Rondônia, esqueceu o
nome do gato: era de Jangada, perto de Cuiabá, e roubava
direito, no rancho. Em Redenção foi com Osvaldinho que
trabalhou, um ano inteiro, mas em duas fazendas (Santo
Antônio do Indaia em Cumarú, e Forkilha, do Jairo Andrade.
Ficou com tanta raiva de não tirar nenhum saldo... mas não
havia o que fazer, e nenhum outro lugar aonde ir). Em
Xinguara, andou com vários gatos cujo nome já perdeu, pois
trabalhou em mais de dez fazendas da redondeza: Capu, Flôr
do Caucho, entre outras. Uma coisa lembra, sim: ganhou ali
somente o dinheiro de comer, sobrando nenhum saldo. De
Araguaína, onde ficou o ano de 1999 inteiro, saiu para a
fazenda São Francisco em Ananás (com o Maurício Doido, de
Wanderlândia), por cinco meses; para a fazenda do Valu,
perto do posto Marajó, com um gato de Nova Olinda; para a
fazenda do Zeno, com Pedro Mentira, gato de Colinas; e para
outra fazenda perto da Vila São José, em Sapucaia, onde o
serviço era de abertura de mata fechada.
Ladrões
– Em Açailândia, só lembra do peoneiro ladrão do Mangulão,
que ao mesmo tempo é gato e dono do hotel: tanto é que se
mudou, com outros três peões, e se instalou no posto de
gasolina Magnola, onde ficou se hospedando, numa boa,
durante uma semana. Mas não arrumou nenhum serviço. Também
pertencem à categoria das pensões ladras (aquelas em que
você é roubado e na pinga e na diária): em Quatro Bocas
(Marabá-PA), a pensão da Velha Luiza (a mesma que antes
mantinha pensão em Eldorado do Carajás), a do Sr. Pedro mais
ainda: ali teve que entregar seu toca-fitas de R$210,00 só
para pagar uma dívida de R$ 20,00 porque o Pedro não quis
dar prazo para pagar na volta do serviço. Na oportunidade,
trabalhou na fazenda do Zezinho Lotero, e na do Zé Fernandes
(que possui outra fazenda em Sapucaia). Em Marabá, ficou na
pensão do João Marabá (que hoje, segundo parece, já mudou de
ramo) e saiu para a fazenda do Flávio (Vila Santa Fé) com o
gato Ceará (também de Marabá). Após 58 dias trabalhados, um
saldo de R$80,00 e a malária, voltou para rua até arrumar um
novo serviço com o mesmo gato, na fazenda do Juvenal
Boiadeiro, onde tirou um saldo de R$96,00 para 30 dias de
trabalho. Um serviço bom foi aquele que fez na fazenda do
Dr. Edmar, na Sapucaia: em 22 dias, tirou R$220,00 porque o
serviço era contratado livre e só pagava botina e fumo: o
resto era fornecido de graça. O Sr. Edmar tem um hospital em
Xinguara. Achou razoável o saldo de R$320,00, que apurou em
Pacajá na fazenda do Zé Antônio (este é de São Geraldo) onde
havia 550 alqueires de mata e 50 de juquirão. Em Pacajá,
preferiu se hospedar no hotel comum. Em Novo Repartimento
também: no hotel da Copinha, no trevo. Ali saiu com gato
baiano paraoito dias de serviço de juquira, no rumo de Tuerê,
mas acabou ficando com os colonos que ali encontrou: em 10
dias, chegou a ganhar R$100 limpo. De volta a Novo
Repartimento, gastou tudo no hotel, sem arrumar serviço.
Saiu de novo para Vila Belmont para roçar um cacaual e, de
lá, o gato Marcônio o levou para a fazenda do Olavo.
Terra
– Há nove anos não voltava para Lago da Pedra. Voltou lá
dois meses atrás, mas não quis ficar com a família. Não se
imagina mais parado, mesmo que não compense muito tanto
trabalhar: nunca teve mais de R$320,00 no bolso de uma só
vez e nunca conseguiu segurar o que ganhou por mais de
algumas semanas. Nunca enviou um centavo para a família. De
onde tiraria? Nunca casou: acha que, enquanto não se arrumar
com um pouco de coisas e uma terra que seja dele, não pode
correr esse risco. Então corre atrás deste sonho: uma terra
para ele, de preferência no Pará, pois lá a terra é muito
boa, bem diferente de Lago da Pedra. Soube esses dias que,
lá em Novo Repartimento, o Incra está cortando muita terra e
instala muita gente. Pena que a região seja de muita
matança: senão já estaria se cadastrando...
Romualdo
– (2003) Romualdo foi na CPT de Tucumã-PA, denunciar a
fazenda B., do Sr. Masinho, comerciante de Colinas-TO, cujo
gato Zé Anjo havia aliciado um grupo de 28 pessoas de
Colinas. Na época a denúncia resultou na sua libertação pelo
Grupo Móvel, sob a coordenação da Dra. Valderez Monte.
Romualdo estava com malária e o gerente Hernando o havia
deixado em São Félix do Xingu para se tratar. O pessoal do
STR e da CPT o mandou se esconder e se recuperar numa
chácara e foi lá que a Valderez foi encontrá-lo. Recebeu
então R$2.300,00. Na época, ele lembra que a Dra. Valderez
perguntou para ele qual seria seu sonho para sair desta vida
dura de peão. Ele respondeu: ser policial federal é meu
sonho. Ela ficou entusiasta com a resposta e ofereceu-lhe
para seguir até Brasília e estudar. Mas a mãe não deixou.
(2009) Romualdo foi contratado há 20 dias por
Sérgio para roço de pasto na faz M., cuja empreita este
pegou do Sr. Alexandre por R$250/alqueire. Ofereceu aos
trabalhadores o valor de R$100 por alqueire. A fazenda é
grande. A juquira é muito suja. Estão abrigados debaixo de
lona na beira do córrego Anta cuja água barrenta é a única
disponível para todos os usos (beber, lavar). A comida é
feita pelo gato. Não tem CTPS assinada. Na sede tem mais 3
vaqueiros, 1 cozinheira, e 1 tratorista. A queixa principal
dosseis peões é por ser tão maltratados, e porque o gato nem
acerta direito o que prometeu, pagando somente uma parte da
remuneração e dizendo que dará o saldo depois. O trabalho é
pesado e vai de domingo a domingo. Cada trabalhador está
devendo ao gato por causa de feiras que fizeram ao sair de
casa em Santa Fé. Romualdo deve R$310, outro deve 170 e
outro 140. Outra queixa ainda é que o gato é muito valente e
só anda ameaçando e sendo grosso com os trabalhadores.
Romualdo saiu sem dizer nada e quer por tudo estar de volta
ainda hoje na fazenda para que o gato (que saiu para fazer
farra na cidade, como sempre) não perceba. Romualdo estava
muito agoniado, implorando por pronta fiscalização. Paguei
seu transporte para voltar às pressas até a fazenda caso
viesse a fiscalização que íamos alertar. A fiscalização foi,
de fato, até a fazenda, mas a uma data em que o fazendeiro
já havia despachado o pessoal, desconfiando que alguém
tivesse denunciado no Ministério do Trabalho. Nesta
circunstância, portanto, o Romualdo e seus colegas não
receberam seus direitos.
O sonho de muitos dos trabalhadores expostos
ao trabalho escravo é de fato acessar uma terra própria ou
reacessar uma terra da qual tiveram que sair, expulsos pela
necessidade, a grilagem ou o tal "progresso” (cana, soja,
eucalipto, barrragem). Ou é de acessar uma qualificação
profissional que possibilite pleitear um emprego "de
verdade”. Ao se autoqualificar de braçal, o trabalhador,
muitas vezes sem instrução formal, expressa ao mesmo tempo
sua exclusão do mercado decente do trabalho. E não vê saída.
Saída, tem sim: reforma agrária, políticas públicas de
suporte à agricultura camponesa, educação e saúde levadas ao
campo. E, como sempre lembra Pedro Casaldáliga: "Vergonha na
cara e amor no coração!”. |
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