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20/08/2008
Mídia
& Educação
O
ensino vai mal e Veja conhece os culpados
Gabriel Perissé
A
principal reportagem da revista Veja desta semana
(edição nº 2074) aborda, uma vez mais, a qualidade do nosso
ensino, aproveitando a oportunidade para (de novo!) comparar o
Brasil medíocre à insuperável Finlândia.
A
idéia central da matéria é a de que não temos consciência do
quanto vai mal o ensino brasileiro. A fonte desta certeza é
uma pesquisa encomendada pela própria Veja à CNT/Sensus.
As jornalistas Monica Weinberg e Camila Pereira querem abrir
nossos olhos. A pesquisa revela que a maioria dos docentes,
pais e estudantes está satisfeita, embora indicadores e
resultados em abundância demonstrem graves problemas: alunos
semi-analfabetos, professores com preparação insuficiente,
repetência e outros.
Conclusão: nós não nos enxergamos direito. Estaríamos
conformados perante uma situação muito longe da ideal. Os pais
cujos filhos freqüentam escolas particulares, investindo no
fracasso. Os pais cujos filhos estão nas escolas públicas,
acreditando na ilusão.
Mas a
matéria prossegue. E pretende colocar o dedo na chaga. Estamos
nessa situação porque professores, livros didáticos e
apostilas antepõem ao ensino a doutrinação esquerdista. Os
professores, segundo a mesma pesquisa, identificam-se com
Paulo Freire e Marx. Em sala de aula, elogiam Che Guevara e
Lênin. Deixam em segundo plano o ensino de língua portuguesa,
aritmética, física. Não ensinam o que interessa... em nome da
ideologia.
Mera coincidência
Aproveitando a carona, o economista Gustavo Ioschpe aponta a
neutralidade como um dever dos professores. Essa história de
"formar cidadãos conscientes" e "desenvolver a criatividade e
o espírito crítico dos alunos" seria, no fundo, sonegar o
conhecimento necessário à profissionalização do indivíduo.
Aulas politicamente neutras solucionariam nossos problemas.
De
fato, é desejável acompanhar o que "rola" em nossas salas de
aula, identificando motivações ideológicas (afinal, isso é
também formar cidadãos críticos), mas fica difícil aceitar o
véu ideológico da neutralidade política com que a revista
Veja se cobre. Denunciando a mistura entre ideologia de
esquerda e educação, defende (dissimuladamente) a mistura que
faz entre ideologia de direita e informação, entre interesses
econômicos e jornalismo.
Curiosamente, entre as páginas 72 e 87, em que Monica Weinberg,
Camila Perei ra e Ioschpe escrevem, surgem três páginas (79,
81 e 83) publicitárias, nas quais o grupo Santander Brasil se
apresenta como o melhor banco do mundo. Será uma alusão à
"educação bancária" de que falava Paulo Freire? Não... isso é
mera coincidência. Pura neutralidade.
Observatório da imprensa,
Edição 499 de 19/8/2008 |