|
20/08/2007
Agrocombustíveis:
seminário promovido pela Rebrip dá continuidade ao debate
Nos
dias 12 e 13 de julho último, no Rio de Janeiro, a Rebrip
(Rede Brasileira para a Integração dos Povos) realizou o
Seminário Agrocombustíveis e a Agricultura Familiar e
Camponesa. A proposta do seminário era a discussão da relação
entre o avanço da produção de agrocombustíveis como nova
matriz energética e sua relação com a agricultura familiar e
camponesa. Especificamente, preocupam as condições de
desenvolvimento da produção deste produto na agricultura
brasileira e as efetivas condições de inserção dos
agricultores familiares e camponeses nesta cadeia, além dos
problemas ambientais. Outro tema de interesse e preocupação
foi a ação do governo federal neste tema, interferência esta
ainda não totalmente clara para os participantes e, no mínimo,
controversa em relação às condições de consolidação da
agricultura familiar na opinião de vários movimentos e
pesquisadores presentes no seminário.
O
evento, contando com a presença de movimentos sociais, ONGs e
pesquisadores de universidades brasileiras, debruçou-se sobre
essas questões, podendo ser dividido em três grandes momentos.
Um primeiro foi a apresentação de trabalhos científicos de
pesquisadores do CPDA (Curso de Pós-Graduação em
Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro) e do Instituto de
Eletrotécnica e Energia da USP – Universidade de São Paulo. Um
segundo momento da discussão constou das apresentações das
visões, objetivos e experiências dos movimentos e ONGs sobre o
tema dos agrocombustíveis e, num terceiro momento, a discussão
sobre as estratégias de atuação frente ao atual momento de
produção deste tipo de combustível no Brasil.
Os
estudos apresentados pelos pesquisadores deixaram claro que:
1.
Há um novo momento de
articulação do capital mundial que, a partir do aumento da
liquidez oriunda da reintensificação da atividade e do
comércio mundial puxados pela economia asiática,
principalmente, busca novas formas de acumulação em
investimentos produtivos pelo mundo. Como o Brasil é lugar de
oferta de produtos da terra para o capitalismo mundial, há
acertos entre fundos de pensão, de investimentos, etc,
buscando financiar a produção no Brasil de álcool e óleo
diesel a partir de matéria-prima vegetal (soja, mamona,
girassol, dendê, cana-de-açúcar, etc).
Neste
sentido, os pesquisadores alertaram para a necessidade de
estudos sobre o significado para a agricultura familiar e
camponesa da associação entre a indústria e o grande capital
financeiro. Na realidade, argumentam que esta associação pode
estar trazendo uma nova etapa na lógica de reprodução do
capital na agricultura que fatalmente trará mais dificuldades
para processos autônomos de inserção dos agricultores dentro
das cadeias produtivas.
2.
Nesta associação entre a
indústria e o capital rentista mundial, há a iminência da
hegemonia deste capital sobre a pesquisa que se faz no setor.
Os estudos deixaram claro que o que interessa para o capital
mundial não é a produção de álcool a partir da cana-de-açúcar,
caso da matriz energética brasileira, mas a investigação para
o desenvolvimento de uma alcoolquímica, entendida como a
cadeia produtiva de subprodutos do álcool que se pode formar à
jusante e montante da produção do combustível.
Como
o capital que hegemoniza trabalha em escala mundial, o
desenvolvimento da pesquisa para a produção de álcool a partir
de outras matrizes (milho, celulose, etc) pode trazer, no
futuro, problemas para a vantagem comparativa que hoje possui
o álcool com base na cana-de-açúcar produzido no Brasil. A
biotecnologia, desenvolvendo bactérias específicas para a
decomposição dos açúcares presentes em outras matérias-primas,
dentre as quais a celulose, principalmente, segundo estes
estudos, parecem ser os mais promissores.
3.
A matriz energética do futuro,
pelo menos com o nível de tecnologia atualmente disponível,
não será de matriz agrícola. Para chegar a esta constatação
basta verificar que para que os norte-americanos substituam
10% de sua utilização de gasolina por álcool, há necessidade
de uma área correspondente a toda área agrícola do Brasil. No
caso de uma hipotética substituição de toda a matriz
energética por agrocombustíveis, o cálculo é de que seria
necessária a existência de um planeta três vezes maior.
4.
Está havendo a entrada cada vez
maior no Brasil de empresas mundiais com o objetivo de
explorar a produção de agrocombustíveis. Tal entrada ocorre
com a formação de empresas com capital aberto e ou fechado,
que não adquirem diretamente a terra, mas ao adquirirem as
empresas, donas de terras, se tornam donas de parte importante
do território brasileiro.
5.
Há riscos ambientais muito
grandes em relação à produção de agrocombustíveis, caindo por
terra a falsa idéia até então dominante de que seria uma
matriz energética limpa, não geradora de poluição. Pelo
contrário, a utilização de água somente na fase industrial da
produção de álcool demonstra que para cada litro de álcool é
necessário o consumo de até 100 litros de água. Além disso, o
desenvolvimento de bactérias capazes de transformar em álcool
a celulose, por exemplo, pesquisada no mundo por empresas
também de capital mundial, fatalmente trará, sempre segundo os
estudos, pressão sobre florestas cultivadas e ou os
remanescentes de florestas nativas na América Latina e Ásia.
6.
Nestas condições, e como
resultado dos estudos apresentados no seminário, não dá para
dizer que a produção de agrocombustíveis vá necessariamente
melhorar as condições de vida da agricultura familiar e
camponesa. Pelo contrário, o alerta é de que há uma relação
grande entre a ação das empresas com o domínio da tecnologia,
que trará dificuldades para os agricultores. Em relação a
possíveis ganhos de tecnologia para as empresas brasileiras,
podendo significar então uma nova inserção do país na divisão
internacional no trabalho, com este deixando de ser ofertante
de produtos da terra, verifica-se que na realidade não passam
de ilusões. Para chegar a esta conclusão, basta verificar o
que está ocorrendo com a atual organização do setor, onde há a
entrada de capital mundial na exploração direta no
processamento, na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologia.
Neste
sentido, sabendo que houve no Brasil até os anos 1980 o
desenvolvimento do Proálcool, com base numa matriz
desenvolvida por empresas estatais, que poderiam desenvolver
uma alcoolquímica, mas que foi abortada, e como agora esta
cada vez mais fica nas mãos de empresas não brasileiras, se
pode então julgar melhor as razões do retorno deste tipo de
tecnologia: como o império não admite experiências científicas
e tecnológicas que não estejam sob seu controle, aquela
experiência foi abortada, com sua retomada somente quando esta
passa para seu controle.
7.
Com estas características, a
situação atual do setor está levando para um aumento
considerável da produção de automóveis com a tecnologia do
álcool ou do carro bicombustível, também denominado por parte
de alguns de flex fuell. Assim, os estudos demonstram que 62%
da frota de carros produzidos no país já têm esta tecnologia.
A tendência é deste tipo de automóvel atingir em pouco mais de
5 anos uma participação superior a 80% da produção total de
automóveis no Brasil.
8.
Com isto, há uma tendência de
crescimento da área ocupada e produção de cana-de-açúcar no
país. Segundo o IBGE, a produção de cana no país já ocupou, em
2006, 7,04 milhões de hectares, 46% acima da área do início da
década, enquanto a produção atingiu 457,98 milhões de
toneladas, quase 41% acima da produção de 2000. Segundo o MAPA
(Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) a
produção na safra 2007/08 passará dos 20 bilhões de litros,
90% acima da produção de 2000 enquanto o consumo chegará a
pelo menos 16 bilhões de litros, 30% acima do consumo daquele
mesmo ano.
9.
Conseqüentemente, verifica-se a
continuidade do papel do Brasil na divisão internacional do
trabalho, que é o de exportador de produtos da terra. Isto
porque, nas condições acima descritas, as exportações devem
chegar em 2007 a mais de 4 bilhões de litros de álcool, o que
significa um aumento de mais de 1660% desde o início dos anos
2000. Fica, assim, clara a razão do incremento da produção no
território brasileiro que é o atendimento dos mercados
forâneos.
10.
Isto ocorre sem um aumento mais
significativo no número de ocupações e emprego no campo, seja
na produção de cana-de-açúcar, seja na produção de álcool.
Segundo o IBGE/PNAD, o número empregos gerados pela produção
de cana-de-açúcar em 2005 foi de 519,197 mil, apenas 25% acima
daquele criado em 2000, mas bem abaixo do número de empregos
gerado pela cana em 1992, de 674,63 mil empregos diretos.
As
discussões posteriores do seminário foram no sentido de
entender as visões e objetivos dos movimentos ali presentes (Fetraf/Brasil,
Contag e MST) no que diz respeito a seus projetos para o setor
de agrocombustíveis no Brasil. Esta fase, contudo, pautou-se
muito mais pela discussão da relação de cada movimento com a
política nacional de agrocombustível, oficialmente denominada
de Programa Nacional de Biodiesel. No geral, pelo menos no
discurso, não há grandes diferenças de projeto entre os três
movimentos, todos interessados com a “inserção” dos
agricultores familiares e ou camponeses na cadeia, sem uma
discussão de fundo das relações que produzem o atual estágio
de organização da mesma, nem com projetos que modifiquem a
fundo sua estrutura atual. Neste sentido, nenhuma organização
apresentou uma alternativa radical ao projeto oficial de
“biocombustível” atualmente operada pelo governo. As
diferenças, a nosso ver, são apenas pontuais e conjunturais,
na forma de operação do referido Programa.
A
Contag demonstrou claramente sua estratégia colaboracionista
ao governo ao divulgar suas atividades de busca de inserção
dos agricultores a projetos de empresas, buscando organizar os
mesmos com o intuito de oportunizar a estes mais uma
alternativa de renda nos estabelecimentos agrícolas. Esta
estratégia, apenas facilita a vida das empresas, que utilizam
uma estrutura supostamente sindical para reduzir seus custos
de implantação de projetos. A linha de um sindicato que
defenda os interesses dos trabalhadores, na tentativa de
controlar os meios de produção para a construção de um outro
regime sócio-metabólico entre sociedade/natureza é totalmente
deixada de lado por esta estratégia. Esquece-se, a Contag, que
na realidade as empresas necessitam de um número de
agricultores na atualidade, mas que este número no futuro será
menor, dada a necessidade da competição intercapitalista.
Parece que a Contag não sabe como funciona o capitalismo.
Do
lado da Fetraf/Brasil e MST, por outro lado, houve críticas
maiores ao programa oficial de “biodiesel”, pautando-se pela
necessidade do governo gestar ações que garantam a existência
de estruturas produtivas (agroindústrias processadoras) sob o
controle de associações/cooperativas ligadas a estas duas
organizações.
Como
pode-se perceber, no geral, estes movimentos não conseguem
propor uma ação mais estratégica em relação ao tema, uma vez
que acreditam que podem gerir um pequeno negócio dentro de uma
cadeia que é atualmente mundializada, opção esta que passa,
para ter sucesso, pelo domínio de conhecimentos de processos e
de gestão, conhecimentos estes ainda totalmente à margem do
que as organizações fazem e ou imaginam. Por um lado parecem
desconsiderar as enormes dificuldades que as próprias
organizações dos agricultores na atualidade encontram para
sobreviver na competição intercapitalista, com pouco capital e
pouco, quando nenhum, know how (experiência) de gestão, que os
impelem, mais cedo ou mais tarde, à bancarrota ou a se
restringir a nichos específicos de mercado, nichos estes
específicos inclusive geograficamente, não sendo capazes de
alterar a dinâmica hegemônica do sistema. Por outro parecem
não entender a fase atual do capitalismo, fase onde os Estados
mesmo do centro, quanto mais da periferia e semi-periferia do
sistema do capital têm ínfimas condições de interferir nas
estruturas dos mercados, regulando a acumulação, como bem
demonstra a atuação do Estado brasileiro, o impedindo de tomar
outras medidas a não ser arrumar agricultores supridores de
matéria-prima para as indústrias de óleo diesel. Na realidade,
faz a ação de reduzir, via fundo público, o custo das
empresas, pagando técnicos e organizações para procurar e
organizar a produção da matéria-prima, além de subsidiá-las
diretamente com isenção fiscal.
Neste
sentido, um dos grandes problemas do seminário foi de não ter
discutido a questão da gestão que exige o negócio do
agrocombustível. No caso do álcool, há a necessidade de gestão
sobre uma base territorial relativamente grande (dado que é
viável a coleta de cana num raio de até 100 km da usina),
transporte, armazenamento, logística industrial, além de todo
o aparato de pesquisa, que pode dar conta, possivelmente em
breve, da produção de álcool a partir de outros derivados
vegetais, como visto acima, sem falar de suas relações com a
indústria automobilística. No caso do diesel a partir de óleo
vegetal, a questão é ainda mais complexa, pois para além da
relação com a indústria de veículos, todos sabem que a maior
resultante do esmagamento de algumas matrizes vegetais (a
soja, por exemplo) não é o óleo, mas outros subprodutos,
geralmente o farelo e a glicerina. Assim, na realidade
verifica-se que o agronegócio do agrocombustível é um
sub-negócio da indústria automobilística (álcool e biodiesel)
ou da indústria de alimentos (biodiesel), especificamente do
grande negócio mundial do farelo e do óleo.
Este,
no mundo, é dominado por quatro grandes empresas: as
norte-americanas Cargill, Bunge e ADM e a francesa Louis
Dreyfus. Os agricultores têm que ter em mente que entrar neste
negócio é competir com estas empresas, o que exige capacidade
gerencial, conhecimento de logística e capacidade de
negociação que suas organizações não possuem e estão longe de
possuir. Em pouco tempo, estas unidades até poderiam estar
negociando o óleo, mas estariam totalmente nas mãos das
grandes empresas do farelo, aquelas que dominam o mercado
mundial, possivelmente entregando a elas próprias sua
produção. Assim, fica patente que a proposta de pequenas
unidades de produção de “biocombustíveis” ou álcool, na
realidade não passa de “cavalo de tróia” para a continuidade
da hegemonia do grande agronegócio sobre o pequeno. Esta
opinião é derivada, inclusive, da opinião de um dos
pesquisadores presentes ao seminário, que disse claramente não
acreditar que pequenas unidades isoladas de produção destes
produtos resolvam a questão da matriz energética do futuro.
Desta
forma, as grandes deliberações por parte das organizações
presentes ao seminário foram, positivamente, reconhecendo que
conhecem muito pouco da realidade, buscar conversas e diálogo
com outros setores do governo que efetivamente definem a
política governamental para o setor, além de conversas com
organizações empresariais que definem a estratégia do
agronegócio combustível no Brasil. Além disso, aprovou-se a
continuidade das ações nesta área para a realização de uma
“crítica contundente” ao modelo adotado no Brasil.
O
Deser alerta que dada a complexidade do tema para o agro no
Brasil na atualidade, e cada vez maior no seu futuro, seria
interessante que as organizações buscassem fazer análises mais
aprofundadas da realidade, tanto do ponto de vista dos efeitos
sobre o emprego, renda e meio-ambiente, na produção primária
dos agrocombustíveis, quanto no setor industrial/financeiro,
buscar entender suas lógicas de controle e gestão, se estas
estão efetivamente interessadas em buscar “inserir” os
agricultores de forma digna e diferenciada na cadeia.
Da
mesma forma, há que lembrar que a verdadeira crítica é feita
na história, ou seja, só é feita quando se consegue alterar os
rumos da história. Isto exige conhecimento da realidade e
ação, ação consistente com uma teoria derivada da consideração
dos profundos condicionantes da realidade. Por conta disso,
nos parece que os movimentos sociais estão longe tanto da
teoria quanto de uma ação efetivamente transformadora. |
|