AO EXMO. SR.
PRESIDENTE DA REPÚBLICA
LUIS INÁCIO LULA DA SILVA
(pr@planalto.gov.br)
AO EXMO. SR.
PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS
ARLINDO CHINAGLIA
(presidencia@camara.gov.br)
AO EXMO. SR.
PRESIDENTE DO SENADO FEDERAL
GARIBALDI ALVES
(presid@senado.gov.br)
AOS EXMOS.
SRS. LÍDERES PARTIDÁRIOS DA CÂMARA E DO SENADO
As entidades,
movimentos sociais, pastorais, ONGs, cidadãos e cidadãs abaixo
assinados, extremamente preocupados com a edição de medidas
provisórias e tramitação de propostas legislativas que ameaçam
as nossas florestas, a biodiversidade, a natureza, o modo de
produção camponês e de comunidades indígenas, a água, o
patrimônio público, os direitos sociais e as conquistas
históricas do povo brasileiro, vêm, mui respeitosamente, se
dirigir a Vossas Excelências para solicitar a rejeição de
todas as propostas que seguem:
1. O Projeto de Lei 6.424/85, de
autoria do Senador Flexa Ribeiro, PSDB, da bancada ruralista
do Pará, já aprovado no Senado Federal e em tramitação na
Câmara dos Deputados, que visa diminuir a área de reserva
legal florestal da Amazônia de 80% para 50%, para viabilizar o
plantio de palmáceas, eucalipto, grãos e cana-de-açúcar para
os agro-combustíveis, como se fossem florestas; além de
anistiar as multas dos madeireiros e agressores do meio
ambiente e possibilitar a existência de vastas áreas sem
cobertura florestal no país. Daí porque esse projeto, que
certamente contribuirá para mudanças climáticas e o
aquecimento global, vem sendo chamado de projeto "Floresta
Zero" no Brasil.
2. A Medida Provisória 422/08, já
conhecida "PAG (Plano de Aceleração da Grilagem)", que,
atendendo a interesses da bancada ruralista (pois é cópia fiel
de um projeto de lei do Deputado Asdrúbal Bentes, do
PMDB-Pará), possibilita a legalização da grilagem na Amazônia.
Isso porque a referida MP dispensa de licitação para aquisição
das terras públicas - que são maiorias naquela região - os
detentores de imóveis com até 1.500 hectares (enquanto a
Constituição previa apenas 50 hectares e a lei de licitações
estabelecia, até então, em no máximo 500 hectares). Aquele que
ocupou ilegalmente terra pública - e aqui não são pequenos
posseiros, mas grandes fazendeiros - vão ser premiados com a
legalização de seus "grilos", o que, certamente, ensejará a
aceleração do processo de destruição da floresta amazônica.
3. A proposta de mudança
constitucional, a PEC 49/2006, de autoria do Senador Sérgio
Zambiasi, PTB/RS, que, atendendo a interesses das grandes
multinacionais de papel e celulose, em especial a Stora Enso e
a seita Moon, busca reduzir a faixa de fronteira nacional de
150 para 50 km, permitindo assim a aquisição de terras
brasileiras por empresas estrangeiras na faixa de fronteira.
4. Os Decretos Legislativos
44/2007 e 326/2007, que pretendem sustar os efeitos do Decreto
4.887/2003, que regulamenta o procedimento para titulação das
terras quilombolas. A pressão dos ruralistas já levou a um
recuo do Governo, por meio da elaboração de uma nova Instrução
Normativa do Incra (que a Advocacia Geral da União insiste em
aprovar sem uma verdadeira participação dos quilombolas e da
sociedade), que pode representar um verdadeiro retrocesso com
relação às garantias dos direitos territoriais e
socioculturais dos quilombolas, além de tornar o processo mais
burocratizado e moroso.
Queremos
também manifestar nossa total inconformidade com:
1. A liberação, por parte da
Comissão Técnica de Biossegurança, bem como do Conselho de
Ministros, do plantio e da comercialização do milho
transgênico, para atender apenas aos interesses econômicos das
grandes multinacionais de sementes (Monsanto, Bayer, Syngenta,
etc,), desconhecendo todas as advertências feitas por órgãos
do próprio governo. O Ibama, contrário à liberação, alerta
para o risco de contaminação das espécies não transgênicas (o
que já vem ocorrendo em várias partes do mundo) e a Anvisa, do
Ministério da Saúde, considera que não se pode atestar a
segurança daquele produto para a saúde humana, alertando para
os riscos em especial para gestantes, lactantes e
recém-nascidos. Recentemente, a França e a Romênia baniram de
seus territórios o milho transgênico da Monsanto, o que já
eleva para oito o número de países europeus que proíbem sua
comercialização. Esperamos que o governo brasileiro
reveja essa liberação, preservando assim o direito democrático
das comunidades indígenas, dos camponeses e dos agricultores
terem suas próprias sementes, uma vez que as sementes de milho
transgênico, não podem conviver com outras variedades.
2. A pressão, exercida pelo Banco
Mundial, pelo grande capital, pelas empresas transnacionais da
energia, pelas grandes empreiteiras, para a concessão sumária,
contrariando a legislação de preservação do meio ambiente, do
licenciamento ambiental de grandes obras públicas e privadas -
extremamente impactantes do ponto de vista socioambiental - do
PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Dentre elas,
destacam-se as usinas hidrelétricas do complexo do Rio
Madeira, em Rondônia, do Tijuco Alto, em São Paulo, de
Estreito, em Tocantins/Maranhão, de Belo Monte no Pará, as
obras do projeto de transposição do Rio São Francisco e a
construção da usina nuclear de Angra III.
Esse cenário e
situação ameaçam o futuro de nossas florestas, da
biodiversidade, da água, da soberania nacional sobre os
alimentos e sementes, e as condições de vida de milhões de
brasileiros, que são camponeses, ribeirinhos, povos indígenas,
quilombolas, sem terra e populações tradicionais de nosso
país. A expansão do monocultivo da cana-de-açúcar, do
eucalipto, do pinus, das grandes hidrelétricas e das sementes
transgênicas é uma ameaça ambientalmente insustentável e
socialmente injusta. São ameaças que se dirigem contra a saúde
e a qualidade de vida de nossa população.
Por isso,
apelamos para as autoridades do poder executivo e do
legislativo, para que rejeitem essa ofensiva dos interesses do
grande capital e garantam o respeito à nossa saúde e qualidade
de vida, à biodiversidade e diversidade cultural, aos nossos
direitos e ao patrimônio público.
Brasília, 14 de
abril de 2008.
* Assinam:
1. Dom Tomás Balduino,
Bispo Emérito de Goiás-velho e do Conselho da Comissão
Pastoral da Terra - CPT.
2. Egidio Brunetto, da
Coordenação da Via Campesina Internacional.
3. João Pedro Stédile, da
Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST.
4. Luiz Armando
Dallacosta, da Coordenação do Movimento dos Atingidos por
Barragens - MAB.
5. Isidoro Revers, do
Secretariado Nacional da Comissão Pastoral da Terra - CPT.
6. Maria Josá da Costa,
da Coordenação do Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA.
7. Rosângela Piovezani
Cordeiro, da Coordenação do Movimento das Mulheres Camponesas
- MMC.
8. Éden Magalhães, da
Secretaria Executiva do Conselho Indigenista Missionário -
CIMI.
9. Temístocles Marcelos -
da Executiva Nacional da CUT - Comissão Nacional de Meio
Ambiente.
10. Greenpeace - Brasil
11. Fabio Konder
Comparato, jurista, professor, USP
12. Carlos Walter,
geógrafo, doutor, professor, UFF
13. Meire Cohen,
advogada, Para, membro da comissão de direitos
humanos nacional da OAB.
14. Ariovaldo Umbelino de
Oliveira, Doutor, Geógrafo, professor da USP.
15. Darci Frigo, Coord da
Terra de Direitos, Curitiba.
16. Bruno Rodrigo Silva
Diogo - Coordenação Nacional da Federação dos Estudantes de
Agronomia do Brasil - FEAB.
17. D. Antonio Possamai,
bispo emérito de Ji-Paraná, Vice-Presidente da Comissão
Episcopal da Amazônia