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Limoeiro do Norte é sede de debate sobre os agrotóxicos
Por Diário do Nordeste
Maior
do Nordeste e quarto do Brasil em quantidade de
estabelecimentos que usam agrotóxico, o Ceará dobrou, em
cinco anos, a venda de veneno e ampliou em 963,3% a venda de
ingredientes ativos para os venenos. O dado faz parte de
estudo coordenado pela Universidade Federal do Ceará (UFC),
consta de pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo
(USP) e foi extraído do Censo Agropecuário do IBGE. Então,
cada novo produto é mais potente (leia-se: tóxico) que o
anterior.
O problema
é que embora isso reflita uma maior atividade agrícola,
também representou aumento de casos de intoxicação aguda nas
pessoas, em que o agrotóxico é o principal responsável.
Desde
ontem, representantes do Ministério da Saúde estão em
Limoeiro do Norte, onde levantamento médico e científico
constatou intoxicação aguda em um de cada três trabalhadores
avaliados. Irritação, dores, tonturas, depressão,
sangramento, fraqueza óssea, redução de memória, câncer e
até morte de trabalhadores rurais foram diagnosticados no
entorno de perímetros irrigados na Chapada do Apodi.
Se fosse
dividida, por habitante, a quantidade de agrotóxicos que é
utilizada no País, é como se cada brasileiro utilizasse
cinco litros de veneno por ano. O Brasil é, hoje, o maior
consumidor mundial desse produto, e o Ceará já era, em 2008,
o maior do Nordeste em consumo e quarto no País, só perdendo
para os Estados do Sul, conforme o IBGE. Mas, a cada ano, o
aumento de evidências do impacto dos agrotóxicos na saúde
das pessoas e do meio ambiente tem colaborado com o aumento
da discussão: é possível uma vida saudável com veneno?
Conforme
enunciado ontem no editorial do Diário do Nordeste, foi
constatado agrotóxico no leite materno das mulheres do
Município de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, Estado com
a maior atividade agrícola e maior consumidor de
agrotóxicos. De um grupo de 62 mulheres voluntárias, "no
leite de todas elas foi constatada a contaminação em níveis
preocupantes", afirmou editorial. Os dados são da pesquisa
da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).
A
comparação com o histórico epidemiológico de Limoeiro do
Norte é inevitável visto que, de forma tardia, persistem
neste Município cearense três combinações que coincidem com
a cidade de Lucas do Rio Verde: expansão agrícola com grande
uso de agrotóxicos (inclusive pulverização aérea),
fiscalização frouxa das leis e uma situação de incredulidade
das evidências, seja por parte de produtores agrícolas seja
por parcela do poder público.
Levantamentos apontados no estudo epidemiológico realizado
pelo Núcleo Trabalho Meio Ambiente e Saúde para a
Sustentabilidade (Tramas), da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Ceará, trazem dados preocupantes.
Foram investigados 35 sintomas gerais (pele, olhos, nariz e
garganta e neurológicos), os quais fazem parte dos quadros
de intoxicação aguda, subaguda ou crônica por diferentes
ingredientes ativos de agrotóxicos.
Trinta e
três por cento dos trabalhadores entrevistados referiram
quadros que podem ser considerados como intoxicação aguda
por agrotóxicos. Do grupo de trabalhadores pesquisados, 37%
alegaram dores de cabeça, 18% apresentaram agravo na redução
de memória e irritabilidade, e outros 49,3% alegaram
problemas de pele e, também, mucosas.
No quadro
de distribuição de sintomas em órgãos do corpo e sistemas,
num levantamento com trabalhadores rurais, foram constatados
vários problemas, dentre os quais irritação de nariz,
garganta e olhos, dificuldade respiratória, dores no peito,
nas pernas, tonturas, depressão, zumbido, tremores no corpo.
De 75 trabalhadores de empresas agrícolas "que se sentiram
mal pelo uso dos agrotóxicos por segmento", diz a pesquisa,
45,3% foram atendidos na empresa, 21,3% procuraram hospital
público, 5,3% em posto de saúde e, o mais grave, 25,3% não
procuraram atendimento médico.
Os estudos
foram conduzidos pela médica Raquel Rigotto, pesquisadora do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), com apoio do Ministério da Saúde e de
outras universidades do País.
Emblemático
Até mesmo
dados levantados por órgãos do Governo do Estado são
utilizados no contexto do estudo epidemiológico. Mas no
círculo de debates, o trabalho é contestado por empresas
agrícolas e mesmo órgãos públicos que insistem em desfazer
qualquer associação entre o atual modelo agrícola e
possíveis impactos causados por agrotóxicos na saúde de
trabalhadores rurais.
O caso
clínico mais emblemático é de José Vanderley, funcionário de
uma empresa multinacional. Por três anos, trabalhou no setor
de aplicação de agrotóxicos. Laudo apontou quadro clínico
compatível com doença hepática - hepatopatia por substâncias
tóxicas, sustentada na evidência de exposição ocupacional
prolongada a diferentes ativos de agrotóxicos.
Pesquisa
Risco
da pulverização aérea
Na
discussão sobre o que pode estar causando doenças em
trabalhadores rurais, o agrotóxico é apontado como o grande
vilão. E uma de suas ferramentas principais seria a prática
da pulverização aérea. Produtores agrícolas e até mesmo
engenheiros agrônomos divergem sobre o poder de contaminação
de uma pulverização "dentro da lei". De acordo com a
Embrapa, mesmo com calibração, temperatura e vento ideais, a
pulverização aérea deixa cerca de 32% dos agrotóxicos
retidos nas plantas, 49% vão para o solo e 19% vão pelo ar
para áreas circunvizinhas da aplicação. É essa última parte
a maior reclamação de comunidades na Chapada do Apodi.
De acordo
com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização
Internacional do Trabalho (OIT), com dados levantados de
2005, por anos eram registradas em média sete milhões de
intoxicações severas por agrotóxicos, das quais 70 mil
resultaram em morte. Estes agraves somam-se a efeitos
crônicos: 25 mil casos de sequelas neurocomportamentais (de
cabeça) e 37 mil casos de câncer.
Casos
de câncer
Embora
Raquel Rigotto e os demais pesquisadores não afirmem
categoricamente que os agrotóxicos estejam provocando câncer
em Limoeiro, deixam os dados falarem por si: em 23
localizações anatômicas de câncer, prevaleceu incidência em
agricultores. Com base no levantamento do Instituto do
Câncer do Ceará (ICC), ser agricultor confere maior risco de
se ter câncer. Destacam-se: tireoide (1,12), próstata
(1,17), laringe (1,30), rim (1,30), cólon - junção reto
sigmóide (1,31), esôfago (1,40), olhos e anexos (1,58),
tecido conjuntivo (1,62), linfomas (1,63), mama masculina
(1,67), mieloma múltiplo (1,83), bexiga urinária (1,88),
testículo (5,77), leucemias (6,35), pênis (6,44).
"Há um
descontrole institucional na utilização dos produtos",
aponta Alice Pequeno, pesquisadora do TRAMAS e que estudou a
Chapada do Apodi em sua tese de doutorado na Universidade de
São Paulo (USP). Ela reclama da prática comum de apontar
apenas o pequeno produtor como culpado pelo uso
indiscriminado de agrotóxicos.
"Movimento 21"
Protestos continuam em Limoeiro
O dia
21 de abril marca o primeiro ano de morte do líder
comunitário "Zé Maria do Tomé". Caso continua impune
Desde
ontem diversos militantes sociais, religiosos, professores e
estudantes estão reunidos neste Município para o "Movimento
21", em alusão ao 21 de abril de 2010, quando o líder
comunitário José Maria Filho foi assassinado a caminho de
casa, na Chapada do Apodi. Hoje pela manhã, centenas de
trabalhadores rurais e militantes fazem panfletagem e marcha
de protesto contra impunidade, passando pelos bairros
Antônio Holanda, Luis Alves de Freitas e Bom Nome. São
bairros fornecedores de mão-de-obra para os perímetros
irrigados Jaguaribe-Apodi e Tabuleiros de Russas.
Haverá
marcha até a sede do Ministério Público do Trabalho, no
Centro da cidade, para cobrar a apuração do crime contra o
"Zé Maria do Tomé" e sobre as mortes de Vanderlei e Valderi
Rodrigues, ambos cujo drama em vida foi acompanhado pela
reportagem. As famílias ainda apelam na Justiça.
A morte de
José Maria Filho é investigada pela Delegacia de Homicídios.
Somente dois meses atrás foi realizado o exame de balística,
comprovando que a arma usada no crime é de uso exclusivo das
polícias e da Forças de Segurança Nacional.
Zé Maria
do Tomé teve 25 perfurações de pistola e fuzil. Ainda hoje
movimentos religiosos e sociais lutam para que o caso seja
transferido para a Polícia Federal.
Caminhada
Os
participantes do "Movimento 21" ainda farão uma caminhada do
local do assassinado de José Maria até a praça da comunidade
do Tomé, onde ele era líder. Será inaugurado o Memorial Zé
Maria, e haverá celebração religiosa. Estudantes das escolas
públicas farão apresentações culturais sobre agrotóxicos e o
meio ambiente.
O cantor
popular Zé Vicente encerrará o ato de um ano da morte do
homem que lutava contra o abuso de agrotóxicos na
agricultura da região do Baixo Jaguaribe.
Nos
últimos meses o Ministério Público do Trabalho em Limoeiro
tem realizado reuniões com vários órgãos e empresas para
discutir a problemática dos agrotóxicos e as questões
trabalhistas na região.
Já foram
apresentados relatórios da Companhia de Gestão dos Recursos
Hídricos (Cogerh), sobre contaminação da água com defensivos
químicos, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos
Hídricos (Funceme), sobre contaminação do lençol freático em
Morada Nova, e dados do Núcleo Tramas, da UFC. |
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