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19/03/2007
“Pela Vida do Rio São
Francisco e do Nordeste contra a Transposição”
Nota Final do Acampamento
As 600
pessoas acampadas de 12 a 16 de março de 2007, junto à Torre de
TV, representantes dos principais movimentos sociais do Nordeste
e do País e de inúmeras organizações populares da Bacia
Hidrográfica do São Francisco, sentem-se vitoriosas ao deixar a
Capital Federal. Dissemos nossa voz. E quase todos nos ouviram.
Aqui vai um balanço dessa semana de luta, educação política e
mobilização social:
1.
Nosso objetivo era sensibilizar as autoridades da República e a
opinião pública nacional para a inviabilidade do projeto de
transposição de águas do Rio São Francisco para o Nordeste
Setentrional, mostrar que existem alternativas muito mais
eficientes para resolver o déficit hídrico do Semi-Árido
Brasileiro, chamar atenção para o quadro de degradação da Bacia
do São Francisco e para a insuficiência do atual programa de
revitalização. Isso conseguimos. Se vai modificar a ação e o
modo autoritário e impositivo do governo, dirão o tempo e a
continuidade de nossa luta, para a qual estamos mais
fortalecidos.
2.
Fomos muito bem recebidos no STF - Supremo Tribunal Federal, que
decidirá finalmente a legalidade ou ilegalidade da ação do
Governo na implementação do projeto de transposição. Os
ministros que nos receberam pessoalmente, ou através de suas
assessorias diretas, mostraram-se sensíveis aos nossos
argumentos jurídicos e sócio-ambientais e disposição de julgar
com isenção. Protocolamos hoje na STF uma Ação Popular contra a
transposição, assinadas por 120 representantes nossos.
3.
Acolhida e apoio, surpreendentes até, tivemos no Congresso
Nacional. Fomos recebidos pelos presidentes do Senado e da
Câmara, que disseram não poder ser esse projeto da transposição
levado à frente sem uma profunda revitalização do rio e sem o
debate esclarecedor de todas as dúvidas, debate que se
comprometeram a intensificar nas duas Casas. A Comissão de Meio
Ambiente da Câmara promoveu concorrida Audiência Pública, em que
foram apontadas ilegalidades e outros absurdos da obra.
4.
Decepção é a palavra para o que sentimos ao não sermos recebidos
pelo primeiro escalão do Palácio do Planalto. Nos empurraram
para o Ministério da Integração, com o argumento de que esse é o
responsável pela transposição e foi determinado pelo presidente
Lula como nosso único interlocutor. Ignoraram que nossas
reivindicações envolviam outros setores do governo e nos
desprestigiaram nos impondo o não-diálogo com um ministro, Pedro
Brito, que é expressão do poderoso lobby do projeto e
cujo substituto já estava anunciado. Na Integração fizemos o
enterro simbólico da transposição, com o canto fúnebre das
“Alimentadeiras de Alma” do Médio São Francisco. No Ministério
do Meio Ambiente tivemos explicações tecnocráticas para os
licenciamentos já dados à transposição. “Caiu a máscara” do
Governo Lula. Para muitos de nós, construtores do PT e eleitores
de Lula, foi a gota d’água, não nos reconhecemos mais nesse
governo que julgávamos nosso. Por que recusar o diálogo? Por que
foge da verdade?
5.
Durante nosso acampamento, o Governo lançou edital de licitação
das obras da primeira etapa da transposição. Ironicamente, no
valor de 3,3 bilhões de reais, o mesmo das 530 obras de pequeno
porte propostas pelo Atlas Nordeste da ANA – Agência Nacional de
Águas, que resolveriam o abastecimento humano de 34 milhões de
pessoas. Somadas às mais de 40 iniciativas rurais de convivência
com o semi-árido propostas pela ASA – Articulação do Semi-Árido,
que congrega quase mil entidades da sociedade civil do Nordeste,
todo o problema hídrico desta região estaria resolvido. Se são
complementares à transposição, como correram a dizer
representantes da ANA, fica comprovada a mentira da
transposição: essa não é para matar a sede, é para grandes usos
econômicos, favorecimento de empreiteiras e do agro e
hidronegócio privado!
6. A
Audiência Pública no Ministério Público Federal lavou nossa
alma, foi onde mais pudemos expressar nossa indignação,
contestar com a intensidade da vida ribeirinha a frieza e a
parcialidade dos números com que os técnicos querem justificar a
insanidade da obra. No TCU - Tribunal de Contas da União, na
próxima segunda-feira, e vamos agradecer ao Presidente e ao
Relator o Relatório que condena os gastos exacerbados do governo
prévios à obra mentirosa. Tivemos o apoio da OAB – Ordem dos
Advogados do Brasil. Músicos de renome nos brindaram com sua
arte e as fotos do João Zinclar nos iluminaram a visão das
mazelas e bonitezas de nossos rios. A presença de Dom Luiz
Cappio nos lembra a força dos fracos e o poder maior da
não-violência.
7.
Além de sensibilizar o Legislativo, o Judiciário e a opinião
pública, outro ganho do acampamento, talvez tão grande quanto,
foi o aprendizado e auto-organização do povo da base, com sua
diversidade regional, étnica, cultural e profissional, que
durante essa semana aqui se encontrou, trocou experiências,
estudou o cerrado, o semi-árido, o modelo energético brasileiro
e a Campanha ‘O preço da luz é um roubo’, discutiu suas
dificuldades, redescobriu suas potencialidades, dançou seu
forró, percorreu avenidas, foi a gabinetes, foi barrado em
palácios... Daqui voltamos fortalecidos para a luta cotidiana e
para as lutas políticas e ecológicas, definitivamente
inseparáveis. Cumprimos aqui nossa penúltima tentativa pelo
arquivamento do projeto de transposição, a última será lá na
própria Bacia do São Francisco, com os companheiros e
companheiras que lá ficaram, para os quais nos faremos
multiplicadores da experiência aqui realizada, em vista de
outras e mais contundentes ações.
8.
Agradecemos a tantos quantos, de diversas formas, nos apoiaram.
Banhados simbolicamente nas águas das Fontes da Praça, também
Águas Emendadas da Bacia do Velho Chico, sob a Torre de TV,
divisamos um longo horizonte de lutas e conquistas, pelo rio São
Francisco e pelo Nordeste e bradamos um grito pela verdade e
pela vida. Não à transposição, conviver com o semi-árido é a
solução! O São Francisco precisa é de revitalização!
Brasília 16
de março de 2007.
ASA – MST – MPA – MMC – MAB– MAB – Cáritas – CONIC – Cimi – CPP
– CPT – APOINME – Fórum Nacional da Reforma Agrária – Fórum
Permanente em Defesa do São Francisco / BA – Fórum Mineiro de
ONGs – Fórum Mineiro dos Comitês de Bacia / MG – Fórum de
Desenvolvimento Sustentável do Norte de MG – Frente Cearense Por
um Nova Cultura da Água Contra a Transposição – Projeto Manuezão/MG
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