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19/03/2007
Ministério Público Federal
x Grupo Cargill
Órgão começa a
analisar documentação sobre funcionamento do terminal graneleiro
da Cargill em Santarém (PA), que opera desde 2003 sem Estudo de
Impacto Ambiental. MPF deu prazo até dia 26 para que órgão
atenda requisição de embargo do porto.
Técnicos do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)
iniciaram nesta terça (13), em Santarém (PA), a análise da
documentação referente a consecutivos licenciamentos
provisórios, concedidos pela Secretaria Estadual de Ciência,
Tecnologia e Meio Ambiente (Sectam), que permitiram o
funcionamento do terminal graneleiro da multinacional Cargill no
município sem a elaboração prévia de um Estudo e um Relatório de
Impacto Ambiental (EIA/Rima). No dia 26 de fevereiro, o
Ministério Público Federal solicitou ao Ibama que fiscalizasse e
embargasse o porto (com paralisação imediata das atividades),
além de autuar a empresa por operação irregular (leia “MPF
requisita embargo urgente do porto da Cargill em Santarém”).
A
batalha jurídica do MPF contra a Cargill teve início já em 2000
com um pedido de antecipação de tutela, que visava impedir que a
Sectam expedisse alvará de funcionamento e licenças provisórias
sem a apresentação do EIA/Rima, liminar deferida pelo juiz
federal Dimis da Costa Braga. Depois de a Cargill ter recorrido
e ter perdido em todas as instâncias, a Sectam fica agora
definitivamente proibida de conceder outras licenças ao porto,
segundo o MPF.
Segundo
o procurador do MPF em Santarém, Felipe Braga, o temor de que o
porto levasse a impactos socioambientais graves na região acabou
se confirmando, já que os plantadores de soja da região têm
expandido a atividade indiscriminadamente “até quase a fronteira
com o Amazonas” através de desmatamentos ilegais da floresta. “O
corte raso (ilegal) em regiões remotas na floresta veio com o
porto. Hoje está mais que confirmado que o porto trouxe grandes
impactos regionais”, explica Braga.
Segundo
Rosaria Sena, gerente substituta do Ibama em Santarém, o órgão
pediu ao MPF uma extensão do prazo para finalizar a análise da
situação – que inicialmente foi de 10 dias úteis a partir de 26
de fevereiro -, e deve entregar seu parecer no próximo dia 26 de
março. O primeiro passo deste processo será a análise de toda a
documentação enviada ao Ibama pela Sectam, e depois se seguirá
uma inspeção do porto e dos locais impactados pela atividade.
“Ainda
não podemos dizer se o porto será embargado, mas sabemos que a
Cargill sempre operou através de recursos na Justiça. De toda
forma, a legislação é bem clara em relação aos impactos
ambientais”, pondera Rosária.
Se a
ilegalidade das atividades da Cargill for confirmada, o
procedimento mais provável será a interrupção do funcionamento
do porto para que a empresa elabore o EIA/Rima de acordo com um
termo de referência elaborado pelo Ibama. “Utilizaremos um
critério amplo para avaliar os impactos sociais e ambientais do
porto em toda a região, e o procedimento do EIA/Rima incluirá
todos os tramites previstos, como consultas, audiências públicas
etc”, diz a gerente do Ibama. Qual o prazo deste procedimento
ainda não é previsível, afirma o procurador Felipe Braga.
Reações
Como
reação ao procedimento do MPF e do Ibama, a Cargill ajuizou, no
último dia 7, um mandado de segurança na Justiça Federal de
Santarém exigindo que o MPF seja proibido de divulgar detalhes
do processo e falar com a imprensa. O mesmo mandado demanda que
o Ibama seja impedido de realizar diligências no porto sem
autorização judicial.
Segundo
a ação da empresa, "o MPF não é competente para dar consecução
administrativa a mandados judiciais, expedidos ou não
expedidos. O Ibama não tem justificativa administrativa para ser
portador das ordens do MPF, visando paralisação do terminal por
motivo de cunho judiciário, mormente quando não há mandado
judicial para tal fim”. O mandado também insta a Sectam a não
atender as ordens do MPF, afirmando que “cumpre-lhe expedir as
licenças e autorizações que entender tecnicamente legítimas".
Acionados pela Justiça, Felipe Braga e o Ibama terão até o dia
17 para responderem aos questionamentos da empresa, mas o
procurador já adianta que acusará a Cargill de litigância de
má-fé, tentativa de coerção e censura à imprensa.
De
acordo com reportagem da Agência Amazônia do último domingo
(11), a Associação Comercial e Empresarial de Santarém (Aces)
também protocolou no Ibama uma petição, assinada por 16
entidades, pedindo ao órgão que agisse com “o máximo cuidado” em
relação às ações do MPF.
“Fizemos isso por dois motivos. Primeiro, o socioeconômico, que
traduz a própria defesa da sociedade contra os prejuízos que a
paralisação do terminal graneleiro pode provocar; e segundo, o
jurídico, pois as alegações do Ministério Público Federal se
baseiam num emaranhado de atos judiciais dispersos, de duvidosa
validade”, disse o empresário Olavo Rogério Bastos das Neves,
presidente da Aces, à Agência Amazônia.
“Os
sojeiros estão acuados. Dizem que são 17 mil hectares que
deverão começar a ser colhidos em dois meses – acredito que é
mais para criar um clima, já que a colheita ocorre geralmente
depois das chuvas, a partir de junho. Muitos estão
inadimplentes com os bancos e a própria Cargill. Mas fora eles,
não vejo que a região sofrerá prejuízos econômicos muito grandes
com o fechamento de uma empresa que emprega cerca de 80
funcionários diretos e 500 indiretos”, avalia o padre Edilberto
Sena, membro da Frente de Defesa da Amazônia (coletivo de
movimentos sociais, sindicais e ambientalistas que tem atuado
como principal oposição à Cargill em Santarém).
Auri de Sousa
Membro da
Frente de Defesa da Amazônia
Militante do
Movimento Esquerda Socialista/PSOL
Estudante de
Matemática - UFPA
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