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19/02/2007
Transnacional leva
agricultora a suicídio com apreensão de produção no RS
Um arresto
de fumo pedido pela empresa fumageira transnacional Alliance One
levou ao suicídio uma agricultora do município gaúcho de Vale do
Sol, na região do Vale do Rio Pardo. Em 2 de fevereiro, por
ordem do juiz Marcelo Silva de Carvalho, Eva da Silva perdeu
toda sua produção de fumo para pagar uma suposta dívida com a
empresa.
Desesperada, ela ameaçou se matar. Às 9h30 da manhã, ela cumpriu
a ameaça e se enforcou no galpão de sua propriedade. O fato está
registrado na Delegacia de Polícia de Vale do Sol. No atestado
de óbito, o médico responsável indica que a agricultora, de 61
anos, sofria de depressão.
O
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) está acompanhando o
caso e deve encaminhar denúncias contra a ação da empresa e do
Judiciário. O coordenador regional do MPA, Vilson Rabuske,
relata que a dívida da fumicultora não estava vencida. A
agricultora vendia fumo para a empresa há mais de 25 anos.
O arresto
é uma medida em que a Justiça autoriza que a empresa tome o
produto do agricultor em troca de dívidas. De acordo com o MPA,
casos de arresto arbitrário são do cada vez mais freqüentes no
Vale do Rio Pardo. Vilson Rabuske afirma que o movimento vai
denunciar o caso da agricultora Eva da Silva. "Esse arresto nem
deveria ter saído. A empresa usou de
mentiras no processo que mandou para o judiciário, e
o Judiciário simplesmente mandou fazer o arresto. As empresas
usam esse artifício, porque o Judiciário infelizmente é omisso.
E nós temos que parar com isso", afirma.
"Eles
buscaram esse fumo. A dívida não estava vencida, ela não estava
negando a conta. Ela inclusive vendeu fumo no ano passado, em
dezembro, e a empresa pagou 100% para ela, porque ela estava em
dia. E no arresto, ela se desesperou, uma situação
constrangedora, o oficial de justiça, mais seis brigadianos, dez
pessoas para carregar o fumo. Arrombaram o galpão,
ela tentou argumentar que não estava devendo, não adiantou, o
oficial disse que estava cumprindo ordens. Ela disse que ia se
matar, não deram bola, e ela foi para o fundo do galpão e se
enforcou", afirma.
O MPA
denuncia ainda que os homens mantiveram o arresto do fumo da
agricultora, mesmo sabendo que ela havia se suicidado. O oficial
de Justiça responsável pelo caso teria ligado para o juiz
Marcelo de Carvalho, que autorizou o prosseguimento. A
informação foi confirmada pela Delegacia de Polícia. O MPA
afirma também que, ao ser comunicada do suicídio, a Alliance One
mandou funcionários para carregar o fumo mais rapidamente.
"Ela
estava morta já mas, em vez de parar o arresto, trouxeram
reforço, ou seja, mais trabalhadores para carregar o resto do
fumo. Carregaram todo o fumo e só depois foram ver o caso dela.
Ela se matou durante o arresto, na hora. Ela disse para o
oficial que iria se matar. Acharam o corpo, segundo dizem, o
oficial ligou para o juiz, e o juiz mandou continuar. Aí,
ligaram para a empresa e a empresa mandou mais pessoas para
carregar mais ligeiro o fumo", conta Vilson Rabuske.
A empresa
foi procurada para responder as denúncias, mas se limitou a
enviar um comunicado oficial. No texto, a Alliance One lamenta o
ocorrido e diz que o suicídio foi uma "fatalidade". A empresa
diz que a ação foi motivada por "quebra de contrato" e se coloca
à disposição das autoridades para esclarecimentos. Sobre a
informação de que teria mandado mais funcionários seus acelerar
o arresto, a assessoria de imprensa não se manifestou.
O Fórum de Vale do Sol informou que o juiz está de férias. O
oficial de Justiça não foi localizado.
Um estudo
conduzido pelo engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro, de 1996,
analisa a relação entre o uso de agrotóxicos e os suicídios
entre agricultores ocorridos no município de Venâncio Aires. De
acordo com o estudo "Suicídio e doença mental em Venâncio
Aires", o município registrou uma média de 11 suicídios por ano,
entre 1979 e 1995. Tudo indica que o índice se deve ao uso
excessivo de veneno nas lavouras de fumo.
O MMC se soma
a luta contra as transnacionais e o agronegócio, que somente
geram a morte e a exploração da vida. Negamos este modelo
perverso, defendemos um outro projeto de agricultura, que prime
pela defesa de todas as formas de vida.
Daniel Cassol
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