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18/06/2008
Ação do Ministério
Público gaúcho contra MST
repete discurso
anti-comunista pré-1964
A
inicial da ação civil pública apresentada pelos
promotores Luís Felipe de Aguiar Tesheiner e Benhur Biancon
Junior, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, pedindo
a desocupação de dois acampamentos do MST, próximos à fazenda
Coqueiros (região norte do Estado), parece uma peça
saída dos tempos da ditadura, reproduzindo a paranóia
delirante anti-comunista dos anos 50 e 60 que alimentou e
deu sustentação ao golpe militar no Brasil. A Vara Cível de
Carazinho deferiu a liminar requerida pelo MP. Na avaliação
dos promotores, os acampamentos Jandir e Serraria são
"verdadeiras bases operacionais destinadas à prática de
crimes e ilícitos civis causadores de enormes prejuízos
não apenas aos proprietários da Fazenda Coqueiros, mas a toda
sociedade". Essa terminologia resume uma lógica de
argumentação que muitos julgavam estar extinta no Brasil.
Na
primeira página da inicial da ação, os promotores comunicam
que seu trabalho é resultado de uma decisão do Conselho
Superior do Ministério Público do RS para investigar as ações
do MST que "há muito tempo preocupam e chamam a atenção da
sociedade gaúcha". O documento anuncia que os promotores
Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto realizaram
um "notável trabalho de inteligência" sobre o tema. Uma nota
de rodapé define o trabalho de "inteligência" realizado nos
seguintes termos:
"O art. 1º, §
2º, da Lei nº 9.883/99, que instituiu o Sistema Brasileiro de
Inteligência e criou a ABIN, definiu a inteligência como sendo
"a atividade que objetiva a obtenção, análise e disseminação
de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre
fatos e situações de imediata ou potencial influência sobre o
processo decisório e a ação governamental e sobre a
salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado".
O
relatório que segue faz jus a esse conceito, apresentando o
MST como uma ameaça à sociedade e à própria segurança
nacional. O resultado do trabalho de inteligência
inspirado nos métodos da ABIN é composto, na sua maioria, por
inúmeras matérias de jornais, relatórios do serviço secreto da
Brigada Militar e materiais, incluindo livros e cartilhas,
apreendidas em acampamentos do MST. Textos de autores como
Florestan Fernandes, Paulo Freire, Chico Mendes, José Marti e
Che Guevara são apresentados como exemplos perigosos da
"estratégia confrontacional" adotada pelo MST. Na mesma
categoria, são incluídas expressões como "construção de uma
nova sociedade", "poder popular" e "sufocando com força nossos
opressores". Também é "denunciada" a presença de um livro do
pedagogo soviético Anton Makarenko no material encontrado nos
acampamentos.
A violência das Ligas
Camponesas e o movimento político-militar de 1964
Na
introdução da ação, os promotores fazem um "breve histórico do
MST e dos movimentos sociais". Esse histórico se refere à
organização do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Master)
no Rio Grande do Sul, nos anos 1960, e à "atmosfera de
crescente radicalização ideológica". As Ligas Camponesas de
Francisco Julião, em Pernambuco, são acusadas de "sublevar
o campo e incentivar a violência contra os proprietários de
terra, criando um clima de guerra civil". Essa
"agressividade", na avaliação dos promotores, contribuiu para
o "movimento político-militar de 1964". O "movimento
político-militar de 1964" a que os promotores se referem é o
golpe militar que derrubou o governo constitucional de João
Goulart, suprimiu as liberdades no país e deu início à
ditadura militar.
Logo
em seguida, a ação apresenta uma caracterização do MST, toda
ela baseada na visão de uma única pessoa, o sociólogo Zander
Navarro. O trabalho de inteligência dos promotores também se
baseia, em várias passagens, em uma "revista de circulação
nacional" (Veja) e em matéria críticas ao MST
publicadas em jornais como Folha de São Paulo, Zero Hora e
Estado de São Paulo, entre outros. Após apresentar um
"mapa" dos movimentos sociais no campo brasileiro, os
promotores questionam, em tom de denúncia, as fontes de
financiamento público desses movimentos. Eles revelam que "o
Ministério Público encaminhou um questionamento ao Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, acerca da
existência ou não de alguma fonte de financiamento ou ajuda,
direta ou indireta, aos participantes do MST acampados no Rio
Grande do Sul".
Os
promotores citam ainda o relatório da CPMI da Terra, realizada
no Congresso Nacional, sustentando que há malversação de
verbas públicas, "pelo repasse de dinheiro público efetuado
diretamente pelo Incra, na forma de distribuição de lonas,
cestas básicas e outros auxílios". Além disso, citam a "doação
de recursos por entidades estrangeiras, notadamente
organizações não-governamentais ligadas a instituições
religiosas, como a organização Caritas, mantida pela Igreja
Católica". E identificam, em tom crítico, a rede de apoio
internacional ao MST que mostraria ao público estrangeiro "uma
visão do Brasil frontalmente crítica à atuação do Poder
Público e inteiramente de acordo com os objetivos estratégicos
do MST". Citando o jornal Zero Hora, os promotores
apontam que a Escola Florestan Fernandes (do MST) foi
construída "com vendas do livro Terra, com texto do escritor
português José Saramago, fotografias de Sebastião Salgado e um
disco de Chico Buarque, além de contribuições do exterior".
Mídia, PM 2 e Denis
Rosenfield as fontes da argumentação dos promotores do MP
Ao
falar sobre a estratégia do MST, os promotores valem-se de
relatórios do serviço secreto da Brigada Militar (a PM2). O
relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti, de 2 de junho
de 2006, afirma que os acampamentos do movimento são mantidos
com verbas públicas do governo federal, recursos de fontes
internacionais e até das FARC (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia). O coronel Cerutti não apresenta qualquer
comprovação da existência do "dinheiro das FARC" e
segue falando da suposta influência da guerrilha colombiana
sobre os sem-terra. Segundo ele, o MST estaria planejando
instalar um "território liberado" dentro do Estado:
"Análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que
o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano
estratégico, formulado a partir de tal "convênio", que inclui
o domínio de um território em que o governo manda nada ou
quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo".
Em
seguida é apresentado um novo relatório do Estado Maior da
Brigada Militar sobre as ações do MST no Estado. Esse
documento pretende analisar a "doutrina e o pensamento" do MST,
identificando, entre outras coisas, as leituras feitas pelos
sem-terra. Identifica um "panteão" de ícones inspiradores do
movimento, "a maior parte ligada a movimentos revolucionários
ou de contestação aberta à ordem vigente" (onde Florestan
Fernandes e Paulo Freire estão incluídos, entre outros). E
fala de "uma fraseologia agressiva, abertamente inspirada nos
slogans dos países do antigo bloco soviético ("pátria
livre, operária, camponesa")". A partir dessas informações, os
promotores passam a discorrer sobre o caráter "leninista" do
MST, invocando como base argumentativa o livro "A
democracia ameaçada – o MST, o teológico-político e a
liberdade", de Denis Rosenfield, que "denuncia" que
o objetivo do movimento é o socialismo.
Para
os promotores, "já existem regiões do Brasil dominadas por
grupos rebeldes" (p. 117 da ação). A prova? "A imprensa
recentemente noticiou...." (uma referência as ações da
Liga dos Camponeses Pobres, no norte do Brasil). Em razão da
"gravidade do quadro em exame", concluem os promotores,
"impõe-se uma drástica mudança na forma de trato das questões
relativas ao MST e movimentos afins". A conclusão faz jus às
fontes utilizadas no "notável trabalho de inteligência": "o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não constitui um
movimento social, mas, isso sim, um movimento político". O MST,
prosseguem os promotores, "são uma organização revolucionária,
que faz da prática criminosa um meio para desestabilizar a
ordem vigente e revogar o regime democrático adotado pela
Constituição Federal". Em nenhum momento da ação, o "notável
trabalho de inteligência" dos promotores trata de problemas
sociais no campo gaúcho.
RS URGENTE por
Marco Aurélio Weissheimer -
http://www.rsurgente.net/
(Terça-feira,
17 de Junho de 2008) |
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