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17/08/2007
O Brasil e o
cumprimento da CEDAW
Entre
os dias 19 a 29 de julho do corrente ano ocorreu a 39ª Sessão
da Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Contra a Mulher – CEDAW, na Sede da Organização
das Nações Unidas - ONU, em Nova Iorque.
A
sociedade civil brasileira foi representada pelo Movimento de
Mulheres Camponesas- MMC, Rede Feminista de Saúde, Ações em
Gênero Cidadania e Desenvolvimento- AGENDE, Comitê
Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da
Mulher CLADEM/Brasil e a Rede Brasileira de Estudos e
Pesquisas Feministas- REDEFEM que tiveram a missão de
apresentar ao Comitê o contra-informe(relatório alternativo)
da sociedade civil referente aos anos 2001-2005. O contra–informe foi construído ao longo de dois anos de debates,
estudos e seminários pelas 23 redes e articulações nacionais
de mulheres a qual o MMC faz parte.
O
Governo Brasileiro foi representado pela Ministra Nilcéia
Freire, da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres – SPM, e técnicas de diferentes Ministérios que a acompanharam.
O
Brasil somente ratificou a assinatura como Estado membro da
Convenção em 1994, sendo, portanto, a segunda participação
oficial do Estado brasileiro na apresentação de relatórios de
políticas públicas e programas voltados ao combate da
discriminação contra a mulher.
Nas
sessões do Comitê CEDAW os Estados parte apresentam seus
relatórios respondendo a questionamentos formulados, por outro
lado, a sociedade civil através dos movimentos de mulheres
apresenta o contra - informe contendo questionamentos que
expõe a fragilidade da situação das mulheres no país. Após
este processo o Comitê faz as recomendações ao Brasil para que
o governo tome medidas e cumpra através de programas o que a
Convenção prevê no sentido do combate a discriminação contra
as mulheres.
Durante dois dias tivemos um curso de formação ministrado pela
IRAW- AP (International Women's Rights Action Watch – Asia
Pacific) uma ONG feminista que tem o papel de orientar e
apoiar as redes de mulheres na preparação da apresentação oral
do relatório alternativo ao Comitê CEDAW.
Na
apresentação da sociedade civil brasileira tivemos a
oportunidade de salientar aspectos os quais consideramos de
fundamental importância na vida das mulheres brasileiras,
sejam elas de áreas rurais ou urbanas, especialmente as mais
pobres.
Relatamos ao Comitê o conjunto de discriminações que as
mulheres, especialmente as afro- descendentes, indígenas,
rurais, moradoras urbanas pobres, prostitutas, portadoras de
necessidades especiais,presidiárias,chefes de
família,lésbicas, infectadas com HIV, enfim, meninas, jovens,
idosas e outras mulheres marginalizadas e socialmente
excluídas.
No
relatório enfocamos a igualdade de direitos, enfatizando as
mudanças ocorridas nos códigos Civil e Penal brasileiros, e a
importância da criação da Lei Maria da Penha, que visa coibir
a violência doméstica e familiar contra a mulher em todo o
país, no entanto, registramos as carências no âmbito das
garantias jurídico-legais e as práticas cotidianas para a
aplicação efetiva da mesma no dia a dia da vida das mulheres.
Ainda
no âmbito das ações afirmativas, reforçamos a idéia da
necessidade de criar estratégias de políticas de identidade e
igualdade de oportunidades para as mulheres. O tráfico de
meninas e mulheres para exploração sexual, e a impunidade dos
criminosos somado a falta de políticas públicas de educação,
emprego e renda, enfim, alternativas para que a
vulnerabilidade a que estão submetidas estas mulheres e
meninas possam ser sanados foram enfatizados ao Comitê.
A
baixa participação das mulheres na vida pública e política nos
poderes executivo, legislativo e judiciário colocam o Brasil
entre os piores colocados quanto ao empoderamento político das
mulheres. Nas questões relativas à educação e cidadania, as
estatísticas comprovam que mesmo as mulheres conquistando
acesso e maior permanência na escola aumentando os anos de
estudo, não resulta em melhores empregos e salários, ou seja,
as mulheres mesmo sendo melhor qualificadas continuam ganhando
menos que os homens em cargos iguais.
Outra
situação preocupante relatada é a que diz respeito ao
trabalho, seguridade social e pobreza, especialmente entre as
trabalhadoras domésticas que não tem acesso aos benefícios
previdenciários como salário maternidade, seguro desemprego e
outros por falta de carteira assinada.
Os
direitos sexuais e reprodutivos no que tange as questões
relacionadas aos elevados índices de gravidez na adolescência,
a falta de acesso a meios contraceptivos e a realização de
aborto em condições inseguras, constituem-se em um grave
problema de saúde pública no Brasil com milhares de mulheres
mortas todos os anos. Soma-se a isso os altos índices de
mortalidade materna, a falta de acesso ou má qualidade de
atendimento a gestante que poderiam ser evitados com políticas
públicas direcionadas especialmente aos grupos de mulheres
mais vulneráveis.
As
mulheres rurais em sua diversidade, compreendidas como
camponesas, trabalhadoras rurais , quilombolas, ribeirinhas,
sem terra, assentadas, pescadoras artesanais, extrativistas,
quebradeiras de côco, indígenas, entre outras(...) são
duplamente discriminadas e sofrem a falta de políticas
públicas no que diz respeito ao acesso a documentação pessoal
e profissional, que é uma luta antiga do movimento de
mulheres. A criação do bloco de notas do produtor/a em todas
as unidades da federação brasileira é uma política pública de
inclusão e autonomia para as mulheres da roça. A manutenção da
previdência pública universal e solidária, bem como, a
condição de seguradas especiais ampliando os benefícios a
outras categorias é de igual forma uma necessidade a ser
assumida pelo governo.
O
acesso ao crédito subsidiado para a produção ecológica de
alimentos que garanta autonomia econômica, valorização do
trabalho e igualdade de gênero são pré-requisito para o
empoderamento das mulheres rurais, pois é a agricultura
familiar/camponesa a responsável por 70% da produção de
alimentos para a população brasileira.
Por
fim, podemos concluir que a Convenção CEDAW é um importante
instrumento para as lutas sociais na defesa dos direitos e
avanço de políticas públicas que promovam a igualdade e
autonomia das mulheres, bem como, para a luta pela eliminação
de todas as formas de racismo, violência, discriminação
social, política, econômica e cultural a qual estão submetidas
especialmente as mulheres mais pobres.
Rosana Maria
Tenroller (representante do MMC Brasil na 39ª Sessão da
Convenção Sobre
a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher – CEDAW) |