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17/08/2007
Por um semi-árido
livre de algodão transgênico
Preocupados com os resultados da audiência pública que
acontece nessa sexta-feira (17/08), em Brasília (DF), e que
julgará a liberação de quatro variedades de algodão
transgênico, a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) e a
Via Campesina manifestam-se contrários à liberação dessas
sementes geneticamente modificadas tendo em vista às ameaças e
os riscos que elas representam para o povo do Semi-Árido.
O
Algodão Bt Bollgard da Monsanto foi liberado para o uso
comercial no Brasil pela CNTBio (Parecer Técnico
Conclusivo, CNTBio nº 513/2005) após sua entrada ilegal no
país em 2005 e a conseqüente contaminação da cadeia produtiva
do algodão. A variedade carrega o gene Cry 1 Ac da
bactéria Bacillus thuringiensis que produz uma toxina
letal a alguns lepidópteros como a lagarta do capulho (Helicoverpa
zea), a lagarta das maças (Heliothis virescens) e a
lagarta rosada (Pectinophora gossypiella).
Em
nome do mercado, da maior produtividade e da utilidade que as
modificações poderiam oferecer, o algodão geneticamente
modificado foi liberado à natureza e à sorte dos produtores de
algodão. Mas o que isso significa para os/as agricultores/as e
para o semi-árido brasileiro?
1.
Ocorrem no Brasil espécies nativas e naturalizadas de
algodoeiro de grande importância ecológica, cultural e
econômica: o Gossypium mustelinum é uma espécie nativa
e endêmica ao semi-árido brasileiro e encontra-se sob o risco
de extinção. Apesar de ter origem nas Antilhas, o G.
hirsutum r. marie galante, mais conhecido popularmente
como o algodão preto ou mocó, que chegou ao Brasil no período
colonial, encontra-se hoje como flora espontânea em vários
remanescentes por todo o Nordeste. Em vários Estados
nordestinos ainda persistem aqui e ali pequenas lavouras desse
algodoeiro. Pode-se ainda encontrar nas serras do Seridó
Paraibano populações ferais de elevada importância para a
raça. Vale ainda mencionar o valor histórico e cultural da
espécie G. barbadense - introduzida por povos
pré-colombianos, que estava no Brasil antes mesmo dos
Portugueses chegarem. Sendo planta com utilidade medicinal,
está presente em quintais em quase todo Brasil.
De
polinização cruzada, todas as espécies de algodoeiro
encontradas no país são sexualmente compatíveis. Sabe-se que a
planta é visitada por diferentes espécies de animais e que as
abelhas africanizadas e a arapuá são os polinizadores mais
efetivos do algodão.
Diante da grande variedade genética e de sua importância e do
fato da polinização ser feita principalmente por Apis
melífera que voa grandes distâncias, o painel de
especialistas do GMO-ERA avaliou que uma vez que não existam
barreiras genéticas capazes de isolar as populações
recipientes presentes no Brasil, será impossível eliminar
completamente a possibilidade do fluxo gênico entre as
espécies nativas e as modificadas. Essa introgressão do
gene Bt em algodoeiros não-transgênicos poderia exacerbar
a ameaça à integridade genética da diversidade existente no
Brasil do gênero Grossypium. Por fim, avaliam que o
fluxo gênico indesejável só poderá ser evitado se forem
restringidas as áreas de cultivo do algodão Bt e forem
delimitadas áreas críticas de exclusão.
Assim, por ser o berço de inúmeras populações ferais do
algodão mocó e por guardar remanescentes de populações
naturais de G. mustelinum, deve o semi-árido permanecer
como zona de impedimento do plantio de algodoeiros
transgênicos.
2.
Estudos indicam que mais de 170 tipos diferentes de
animais visitam as plantas do algodoeiro desde sua emergência
até a colheita. Muitas delas benéficas às espécies de algodão.
Mas sabe-se também que um número grande de insetos causa
prejuízos econômicos à cultura como o pulgão do algodoeiro (Aphis
gossypii), os tripes (Thrips tabacai e
Frankliniella spp.), as moscas brancas (Bermisia
spp.); o percevejo castanho (Scaptocoris castanea) e do
bicudo do algodoeiro (Anthonomus grandis) já é tomado
como praga no cerrado brasileiro, inviabilizando o cultivo em
algumas regiões. Esses animais, contudo não são controlados
pela toxina Bt. Não registraríamos aqui um enorme desencontro
entre a oferta e a demanda de tecnologia? Se o algodão Bt
Bollgard não controla as pragas existentes, quais seriam
os benefícios de sua adoção? Além disso, se a introdução
dessas toxinas em plantações poderá reduzir drasticamente a
ocorrência de insetos, como ficariam os inimigos naturais de
pragas?
O
cuidado que nunca se teve com o uso indiscriminado de
agrotóxicos resultou em vários danos ambientais conhecidos
(contaminação de solos e águas dos rios e do mar). Agora o que
está em jogo no caso dos transgênicos é o desconhecimento dos
riscos ambientais quando não se sabe, por exemplo, qual o
número exato e onde os genes são inseridos na planta.
Desconhecer esses aspectos é assumir o risco de produzir um
organismo geneticamente mais instável e ter aumentada a
possibilidade do escape gênico. Ou seja, corre-se o risco de
uma bactéria na natureza incorporar uma estrutura genética da
planta, ou dessa estrutura passar para outras plantas por
hibridização, ou o que aconteceria com os insetos que visitam
a planta geneticamente modificada? E quando os insetos que são
pragas também criarem resistência às plantas transgênicas?
Seriam os/as agricultores/as obrigados a retomarem o uso de
agrotóxicos? E quais agrotóxicos controlariam os insetos
resistentes aos genes Bt, por exemplo? Desconhecer esses
aspectos é assumir riscos que estão fora de nosso controle!
3.
Nos últimos anos vem se fortalecendo no semi-árido
brasileiro o modelo de produção baseado na agroecologia e com
ele, vem se constituindo um promissor mercado para o algodão
agroecológico. Ainda que tímido, em 1993 quando se iniciou
o cultivo do algodão agroecológico na região, já se
observava a prática de preços 30% superiores aos do algodão
convencional.
Estimulados pelos preços compensadores praticados pelo
comércio justo, pelo mercado orgânico e pela consolidação de
um mercado ecológico várias famílias agricultoras
intensificaram os plantios em principalmente quatro estados do
Nordeste: Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Pesquisas mostram que no período entre 2000 e 2005, as vendas
no mercado internacional cresceram a uma taxa média de 35% ao
ano. Claramente, a demanda pelo produto é muito maior do que a
produção. No mesmo período, registrou-se uma taxa média anual
de crescimento de 93% da demanda.
Em
2006 foram colhidas em 270 hectares, 36 toneladas de algodão
agroecológico. O que representou nesse ano, 64,7% do que foi
produzido em todo território brasileiro. Em 2007, os quatro
estados triplicaram a produção e a expectativa é de colher
aproximadamente 100 toneladas.
Num
contexto em que se experimenta um crescimento rápido e elevado
da consolidação do mercado de algodão agroecológico no
semi-árido, a liberação do algodão transgênico hoje representa
uma grave ameaça ao projeto de mais de 400 famílias cuja
principal fonte de renda é a produção do algodão. O risco de
contaminação da produção agroecológica é eminente e é
incompatível com os princípios agroecológicos e com os
princípios que regem as normas de certificação orgânica que
servem de base para a produção e o mercado internacional.
4.
A partir de pesquisas realizadas durante mais de 15 anos
pela Embrapa Algodão, se desenvolveu nos últimos anos, a
produção e a venda de confecções feitas com fibras de algodões
coloridos, também com grande capacidade de inserção no mercado
nacional e europeu. Anos de estudo e de melhoramento genético
permitiram produzir algodão naturalmente colorido, que
dispensa uso de corantes sintéticos de alta toxidez no
tingimento de fios e tecidos. Por dispensar estas fases, os
custos na indústria com a obtenção do tecido são reduzidos,
reduzindo ainda os gastos com água e com energia, além do
volume de efluentes a serem tratados.
Na
Paraíba, a partir do ano de 2000, nasce um consórcio cujo
objetivo é colocar no mercado interno e externo uma ampla
diversidade de confecções produzidas com algodões coloridos,
usando mão-de-obra de cooperativas, clubes de mães,
associações de bairros da periferia de Campina Grande. Vários
órgãos públicos na Paraíba estão trabalhando para organizar a
produção e busca da emissão de um certificado de origem da
fibra do algodão que ateste a qualidade e originalidade da cor
natural, além do procedimento ecológico de produção. A
contaminação dos plantios ecológicos do algodão colorido por
espécies geneticamente modificadas comprometeria a vida de
mais de 800 famílias rurais e urbanas cuja principal fonte de
renda encontra-se em um ponto dessa cadeia produtiva.
O
mercado do algodão ecológico e do algodão colorido encontra-se
hoje em franca expansão e se constitui como grande
oportunidade produtiva para os quase dois milhões de famílias
agricultoras do semi-árido. Para os sertanejos, a retomada
desse plantio é a recuperação do algodão como cultura de
renda, de prosperidade, e mais, é o reencontro com sua cultura
e com uma nova cultura de vida no sertão brasileiro. A
eminência de ser liberada quatro novas variedades transgênicas
(Liberty Linkâ evento LLCotton25, Bayer CropScience, Roundup
Readyâ evento 1445, Monsanto do Brasil, Algodão Widestrike,
Dow Agrosciences Industrial, Bollgard II, evento Mon 15985,
Monsanto do Brasil) frustra a realização de um projeto
coletivo de desenvolvimento sustentável de convivência
harmônica com o semi-árido.
Portanto, considerando que:
-
No Semi-Árido brasileiro ocorrem espécies nativas,
endêmicas, naturalizadas e cultivadas de algodão;
-
Que a abelha africana poliniza a espécie;
-
Que a contaminação por transgênicos é tida como certa com a
aprovação para uso comercial de variedades de algodão
transgênico;
-
Que pouco se sabe sobre os efeitos ecológicos da eventual
hibridação de variedades Bt com variedades nativas ou
naturalizadas;
-
Que o algodão ecológico oferece oportunidade para o
reerguimento da produção da espécie na região;
-
Que os algodões coloridos surgem como importante alternativa
econômica para os agricultores, costureiras e artesãs da
região; e
- Que os mercados voltados
para o algodão orgânico e colorido serão prejudicados no
caso de contaminação genética
O
povo do semi-árido afirma que a forma mais concreta e eficaz
de se proteger a agricultura e a biodiversidade é declarar
oficialmente toda região como zona de exclusão do algodão
transgênico. |