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Verdes matas – Cinzas mortas
Maria Aparecida Motta
Em 19 de novembro comemoramos a data oficial do Dia da Bandeira. Quem não se lembra dos primeiros bancos escolares quando estudávamos os símbolos nacionais? A bandeira brasileira era então apresentada em suas 4 cores: verde, amarelo, azul e branco. Desenhávamos o retângulo verde, o losango amarelo com o globo azul com a faixa “Ordem e progresso” e as estrelas na cor branca, hoje 27. O verde representa as nossas matas, o amarelo, o nosso ouro, o azul, o nosso céu de anil, o branco das estrelas, os estados da federação e o Distrito Federal.
Mas, hoje, se considerássemos a simbologia real, o verde de nossa bandeira estaria reduzido quase à metade e o restante deste deveria ser pintado de cinza. Sim, porque já perdemos um enorme montante de florestas e vegetação nativas. Assim, iniciamos esse comentário referindo-nos ao nosso imenso “mar” florestal. A colonização portuguesa adotou um padrão predatório de ocupação, ainda vigente nos dias de hoje na nossa ocupação interna. Constatamos então, com base no documento Mapa da cobertura vegetal dos biomas brasileiros, que já foram derrubados em nosso território 2,5 milhões de km2 de vegetação nativa desde o descobrimento. Essa enorme devastação corresponde a 30% do território nacional.
Temos no Brasil 6 ecossistemas: a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, os Pampas e o Pantanal. Aqui são enumerados do maior ao menor em extensão.
A Amazônia é a maior floresta tropical úmida do planeta, estendendo-se entre o Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e Brasil. A parte da Amazônia brasileira devastada corresponde a 21% da área total ocupada com a pecuária, plantações, mineração e cidades no país. A devastação é mais recente e abrange altos índices, apesar da luta dos ambientalistas e cientistas nacionais e internacionais. Há um grande apelo mundial pela preservação da floresta amazônica. Mesmo assim os madeireiros e os proprietários do agronegócio não cessam as atividades predatórias.
O Cerrado é o 2º ecossistema mais extenso do país. Abrange os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo, além de parte do Paraguai e Bolívia. A concentração da exploração deste ecossistema se deu mais ou menos recentemente. Em 40 anos perdeu aproximadamente 800 mil km² de sua paisagem natural. Sua fisionomia mostra-se em campos, veredas, buritis e florestas quase impenetráveis. Mas a ação do homem aí tem sido da mesma forma impiedosa. A expansão da agricultura, que se tornou altamente produtiva graças a pesquisas de sementes resistentes combinada com estudos para fertilidade do solo, nesta região fez seu celeiro. Aliada à agricultura concentra-se a criação de rebanhos bovinos em extensas fazendas. As queimadas aí são uma constante, com impactos de grandes proporções. Mas foi, sobretudo, na década de 50, com a construção de Brasília, que se abriu caminho para a interiorização do povoamento urbano. As clareiras de florestas se abriram para as cidades e estradas. O Cerrado apresenta uma riquíssima variedade de espécies animais e vegetais. Em áreas de 10 mil m² podem ser encontradas 400 espécies de plantas.
A Mata Atlântica se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, transbordando até a Argentina e Paraguai. É o mais devastado dos nossos ecossistemas. Inicialmente interessava a madeira do pau-brasil, sendo o restante da floresta deixado de lado. E à medida que a colonização se expandia a imensa Mata Atlântica era substituída pelas plantações de cana-de-açúcar para os engenhos, pela extração de madeira para fabrico de móveis e similares, pelos campos pastoris e pelas cidades que se alinhavam nesse território de grande povoação. A rica floresta veio sucumbindo à força do machado inicialmente, hoje à ação da moto-serra e de máquinas sofisticadas. Do total desta mata já tombaram 751 mil km², expressando em torno de 30% das derrubadas nacionais. A área reduzida dessa floresta é remanescente no relevo montanhoso de difícil acesso. Hoje, inúmeras ações se concentram no intuito de recuperar a imponente Mata Atlântica, com todas as espécies que nela têm o seu habitat natural.
A Caatinga é o único ecossistema inteiramente brasileiro e se estende pela Região Nordeste, abrangendo os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além de parte do Norte de Minas Gerais. Apresenta-se como uma paisagem cinzenta e seca, com chuvas e lençóis freáticos escassos. O sertão nordestino tem sido o palco dos que vão e voltam somando grande número de retirantes. A Caatinga exibe uma variedade de vida: entre mandacarus e xiquexiques, há cerca de 900 espécies de árvores, arbustos, cactus, bromélias. Este ecossistema já perdeu 300 mil km² da vegetação natural, 12% do que se desmatou no país. Contribuíram para isso a agricultura, a exploração de gesso, a siderurgia e, recentemente, o cultivo de frutas às margens do Rio São Francisco. Apesar da ocupação humana, a Caatinga vem se recuperando nos últimos tempos.
Os Pampas integram parte do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, na linha fronteiriça. É um dos menores ecossistemas nacionais. Suas terras sofreram disputas entre portugueses e espanhóis, dizimando os sete povos das missões e destruindo sua organização. Mais tarde vieram as levas de imigrantes que exploraram a madeira da araucária, plantações, etc. Também a povoação humana conglomerou cidades e os campos foram ocupados para a pastagem de animais bovinos, ovinos, eqüestres. Expandiu-se no Sul do país a agricultura do arroz, do trigo, do milho e da soja, sendo esta última a grande responsável pela dizimação de espécies nativas devido ao uso ostensivo de agrotóxicos. Os Pampas perderam 87 mil km² de sua vegetação original, o equivalente a 3,5% do que se devastou no território nacional. Florestas e campos úmidos são as áreas mais devastadas dos Pampas. Mas, a ameaça mais recente a todo o ecossistema dos Pampas em seus campos, mananciais, florestas e espécies de animais nativos está no plantio exacerbado da monocultura de eucaliptos que se expande rapidamente e vem alterar e degradar para sempre a paisagem pastoril tão característica do Rio Grande do Sul.
O Pantanal, o ecossistema nacional de menor área, apresenta-se também como o mais íntegro. Em seus 250 mil km² de extensão abrange o sul de Mato Grosso, noroeste de Mato Grosso do Sul, norte do Paraguai e leste da Bolívia. A garantia da preservação do pantanal mato-grossense são as cheias que periodicamente cobrem campos e florestas durante vários meses do ano. O pantaneiro dedica-se quase que exclusivamente à criação de gado e também ao plantio de arroz e outras culturas. Mas o uso da terra se dá de modo sustentável porque leva em conta os alagamentos que podem pôr tudo a perder. A fauna dessa região é uma das mais ricas e belas do Brasil. A flora é também exuberante e dá sustentação ao meio ambiente. A área de devastação do Pantanal, desde o início de sua ocupação, equivale a 17 mil km², ou seja, menos de 1% da área derrubada no país. Embora ainda haja preservação, no Pantanal já ocorreu a diminuição de várias espécies, entre elas da onça pantaneira. Hoje já há uma consciência ecológica devido às várias manifestações de ambientalistas nacionais e internacionais.
Ao finalizar, proponho-me a chamar atenção sobre os nossos verdes campos, nossas verdes montanhas e vales, nossas verdes matas. O imenso território brasileiro, tão diversificado, corre o risco de perder sua principal fonte de vida – as florestas ricas e exuberantes. Cada vez mais estamos perdendo o fôlego, pois o nosso ar depende das matas e estas estão intimamente ligadas às águas. Sem as matas, nossos mananciais perdem a capacidade de abastecer-nos. A vida humana, vegetal e animal se encontram no limite. Na medida em que vamos tornando irresponsavelmente em cinzas as nossas florestas para campos de pastagens, para expansão gananciosa da agricultura transgênica, para a exploração desvirtuada de minérios e para a extração criminosa de madeiras nobres, estaremos reduzindo a vida planetária e tolhendo às gerações futuras a prolongação do élan da sobrevivência. Que possam as nossas matas ser a nova bandeira de recuperação ambiental, reintegrando com urgência o retângulo verde da bandeira nacional...
Texto publicado no Boletim Ambiental da Editora Autores Associados, novembro de 2008.
Fonte: roteiro e dados obtidos no artigo “Mais verde do que imaginávamos”, de Ricardo Zorzetto,
publicado em Pesquisa FAPESP, n. 145, março/2008, p. 20-25. |
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