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15/06/2007
Ameaça de Investida das
empresas de celulose em países da América do Sul
No dia 26 de abril, a Real
Academia Sueca da Agricultura e o Florestamento organizou, em
Estocolmo, o seminário intitulado “Virando as indústrias
florestais do Norte para o Sul”, com o intuito de discutir a
crescente tendência das empresas de celulose e plantações de
árvores de investir em países do Sul, tais como Brasil, Uruguai
e Indonésia.
Infelizmente, os organizadores não permitiram a presença no
painel dos representantes dos países do Sul que estavam na
Suécia nesse momento. Tratava-se de especialistas em impactos
sociais e ambientais das plantações e das fábricas de celulose
do Brasil, Indonésia, África do Sul, Swazilândia e Uruguai, bem
como de um grupo de estudantes suecos recém chegados de um
estudo de campo nas plantações da Veracel e Aracruz no Brasil.
Portanto, o painel estava formado apenas por representantes
posicionados a favor da indústria da celulose e das plantações
que forneceram uma visão parcial a respeito dos potenciais
efeitos do traslado da indústria sueca para o Sul. Diversos
painelistas salientaram o “fantástico” desempenho das plantações
de eucaliptos no Brasil, que produzem uma quantia de madeira por
hectare 10 vezes maior do que as florestas suecas; o que levou
um painelista a afirmar,“se quiser ter árvores de rápido
crescimento, fale português”. Países como Angola, Brasil, Chile,
Moçambique e Uruguai foram classificados como “perspectivas
interessantes” para as plantações e fábricas de celulose, além
de serem “países de baixo custo”. Foi mencionado que os custos
no Brasil eram a metade se comparados com os da Suécia.
Além do
acima explicado, o previsto aumento global do consumo de papel e
papelão e a disponibilidade de “baixos custos” para os
investimentos nos países do Sul, são as causas de a indústria
sueca ter decidido trasladar sua base de matéria prima para o
Sul (plantações) bem como a produção de celulose.
Enquanto um painelista fazia uns poucos comentários sobre os
impactos negativos das plantações de árvores na Indonésia, o
vice-diretor da Stora Enso América Latina, Otávio Pontes,
apresentava a gestão da Veracel Celulose do Brasil (cuja
propriedade é dividida em partes iguais pela Stora Enso e a
Aracruz Celulose) como exemplo de gestão sustentável de
plantações de árvores.
Infelizmente, o representante do movimento brasileiro Rede
Alerta Contra o Deserto Verde foi impedido de opor-se à
propaganda do Sr. Pontes com alguns dados recentes da Veracel
Celulose:
-
A
empresa foi multada pelo IBAMA- o organismo federal do meio
ambiente- no dia 13 de março de 2007, no valor aproximado de
US$ 200.000 por ter aplicado herbicida em 31.6 hectares de uma
área de preservação permanente no muncípio de Eunápolis, o que
destruiu a vegetação local e poluiu uma área ainda maior.
-
Em
Ponto Central, município de Santa Cruz de Cabrália, no dia 1º
de abril de 2007, a população local bloqueou o caminho a fim
de impedir que os ônibus com trabalhadores da Veracel
chegassem à fábrica de celulose porque a empresa não aceitou
satisfazer as demandas da comunidade local.
-
Um
estudo recente realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas
para o Desenvolmimento do Extremo Sul da Bahia- Cepedes,
apontou que desde que a Veracel estabeleceu as plantações de
árvores no município de Eunápolis, no início da década de 90,
a população rural tem disminuído em 59.3% enquanto a
porcentagem nacional no mesmo período evidencia uma diminuição
de 28%.
-
A
declaração do Sr. Pontes de que a Veracel “tem gerado 30.000
empregos” contradiz as cifras da própria empresa que mostram
que a Veracel gerou 739 empregos diretos e 3.400 indiretos.
- A “socialmente responsável”
Veracel encerrou, em novembro de 2006, em Eunápolis, um
projeto de atividades educacionais que atendia cerca de 300
crianças de 7 a 15 anos de idade. Cabe lembrar que no mesmo
período- campanha no Brasil para eleger presidente,
governadores e parlamentares- a Veracel desembolsou centenas
de milhares de dólares para apoiar todos os candidatos,
especialmente aqueles que tinham chance de ganhar; entre eles
os dois candidatos principais para o governo da Bahia (para um
deles, US$ 100.000 e para o outro, US$ 50.000).
Desde o
público, os participantes do Sul e os estudantes suecos
conseguiram propor assuntos e questionar as visões parciais da
maioria dos painelistas. Não foi tarefa fácil porque quem
presidia o seminário não só tentou evitar que suas vozes fossem
ouvidas como também se posicionou claramente a favor das
plantações de árvores e das fábricas de celulose no Sul. Em uma
de suas intervenções, desafiou as vozes críticas na
discussão ao perguntar: “se vocês estão contra as plantações de
árvores, como vocês acham que poderemos fornecer livros aos
escolares?”, e acrescentou: “qual é a alternativa que vocês
sugerem?”. Esclareceram a ele que os habitantes de países como
Brasil ou Uruguai consomem 10 vezes menos papel per capita do
que a população sueca e que as plantações e fábricas de celulose
nesses países não produzirão sequer uma única folha de papel mas
exportarão celulose para os países do Norte que consomem papel
em excesso. Por exemplo, na Suécia, 46% do consumo de papel está
relacionado com envoltórios e embalagens, enquanto10%, com papel
tissue.
Quanto
a “alternativas”, disseram ao presidente do seminário que a
primeira alternativa seria NÃO plantar monoculturas de árvores
porque resultam em perda de empregos no nível local e em uma
série de outros impactos que pioram a forma de vida das
populações locais.
Em
poucas palavras, o seminário evidenciou que para a indústria
sueca da celulose, o “fantástico” desempenho dos eucaliptos em
países do Sul está, acima de tudo, em relação com os altos
benefícios que pode obter; o que não “permite” que enxerguem
qualquer impacto negativo que puder ameaçar esses enormes
lucros.
Por Winnie
Overbeek, FASE/ES, e-mail:
winnie.fase@terra.com.br
e Ricardo
Carrere, WRM
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