              |
|
As mulheres não são
homens
Boaventura de
Sousa Santos
Sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia
da Universidade de Coimbra (Portugal) e da Universidade de
Wisconsin (EE.UU.)
Adital
A cultura
patriarcal tem uma dimensão particularmente perversa: a de
criar a ideia na opinião pública que as mulheres são
oprimidas e, como tal, vítimas indefesas e silenciosas. Este
estereótipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas
de resistência e a capacidade de inovação política das
mulheres.
No
passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da
Mulher. Os dias ou anos internacionais não são, em geral,
celebrações. São, pelo contrário, modos de assinalar que há
pouco para celebrar e muito para denunciar e transformar.
Não há natureza humana assexuada; há homens e mulheres.
Falar de natureza humana sem falar na diferença sexual é
ocultar que a "metade” das mulheres vale menos que a dos
homens. Sob formas que variam consoante o tempo e o lugar,
as mulheres têm sido consideradas como seres cuja humanidade
é problemática (mais perigosa ou menos capaz) quando
comparada com a dos homens. À dominação sexual que este
preconceito gera chamamos patriarcado e ao senso comum que o
alimenta e reproduz, cultura patriarcal.
A
persistência histórica desta cultura é tão forte que mesmo
nas regiões do mundo em que ela foi oficialmente superada
pela consagração constitucional da igualdade sexual, as
práticas quotidianas das instituições e das relações sociais
continuam a reproduzir o preconceito e a desigualdade. Ser
feminista hoje significa reconhecer que tal discriminação
existe e é injusta e desejar activamente que ela seja
eliminada. Nas actuais condições históricas, falar de
natureza humana como se ela fosse sexualmente indiferente,
seja no plano filosófico seja no plano político, é pactuar
com o patriarcado.
A cultura
patriarcal vem de longe e atravessa tanto a cultura
ocidental como as culturas africanas, indígenas e islâmicas.
Para Aristóteles, a mulher é um homem mutilado e para São
Tomás de Aquino, sendo o homem o elemento activo da
procriação, o nascimento de uma mulher é sinal da debilidade
do procriador. Esta cultura, ancorada por vezes em textos
sagrados (Bíblia e Corão), tem estado sempre ao serviço da
economia política dominante que, nos tempos modernos, tem
sido o capitalismo e o colonialismo. Em Three Guineas
(1938), em resposta a um pedido de apoio financeiro para o
esforço de guerra, Virginia Woolf recusa, lembrando a
secundarização das mulheres na nação, e afirma
provocatoriamente: "Como mulher, não tenho país. Como
mulher, não quero ter país. Como mulher, o meu país é o
mundo inteiro”.
Durante a
ditadura portuguesa, as Novas Cartas Portuguesas publicadas
em 1972 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria
Velho da Costa, denunciavam o patriarcado como parte da
estrutura fascista que sustentava a guerra colonial em
África. "Angola é nossa" era o correlato de "as mulheres são
nossas (de nós, homens)" e no sexo delas se defendia a honra
deles. O livro foi imediatamente apreendido porque
justamente percebido como um libelo contra a guerra colonial
e as autoras só não foram julgadas porque entretanto ocorreu
a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.
A
violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas
formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo
da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43
mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade
Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427
mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas
do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime
organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de
África, continua a praticar-se a mutilação genital. Na
Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham
certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher
vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal,
o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas
mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso
de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países
de cultura islâmica.
A versão
softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das
famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres
sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são
consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na
sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é
uma disposição natural. não há sequer que lhes perguntar se
aceitam os encargos ou sob que condições. Em Portugal, por
exemplo, os cortes nas despesas sociais do Estado
actualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As
mulheres são as principais provedoras do cuidado a
dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com
deficiência). Se, com o encerramento dos hospitais
psiquiátricos, os doentes mentais são devolvidos às
famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A
impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o
trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores
mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos
torna-se incompatível com desejar mais vivos.
Mas, a
cultura patriarcal tem, em certos contextos, uma outra
dimensão particularmente perversa: a de criar a ideia na
opinião pública que as mulheres são oprimidas e, como tal,
vítimas indefesas e silenciosas.
Este
estereótipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas
de resistência e a capacidade de inovação política das
mulheres. É assim que se ignora o papel fundamental das
mulheres na revolução do Egipto ou na luta contra a pilhagem
da terra na Índia; a acção política das mulheres que lideram
os municípios em tantas pequenas cidades africanas e a sua
luta contra o machismo dos lideres partidários que bloqueiam
o acesso das mulheres ao poder político nacional; a luta
incessante e cheia de riscos pela punição dos criminosos
levada a cabo pelas mães das jovens assassinadas em Cidade
Juarez; as conquistas das mulheres indígenas e islâmicas na
luta pela igualdade e pelo respeito da diferença,
transformando por dentro as culturas a que pertencem; as
práticas inovadoras de defesa da agricultura familiar e das
sementes tradicionais das mulheres do Quénia e de tantos
outros países de África; a resposta das mulheres
palestinianas quando perguntadas por auto-convencidas
feministas europeias sobre o uso de contraceptivos: "na
Palestina, ter filhos é lutar contra a limpeza étnica que
Israel impõe ao nosso povo”.
[Publicado em Carta
Maior]. |
|