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11/10/2006
Resposta ao "Diálogo e ironia", absurdo dos funcionários da Aracruz

Olá funcionários sem rosto,

Desculpe o aspecto agressivo, pois ainda os considero trabalhadores. Mas, como diria Marx, um posicionamento como este, ainda que temporariamente, significa assumir uma postura de "lumpem" da sociedade. Que pena que o capital internacional (neste caso Aracruz) já tenha cooptado, ou está sendo maior que a vontade daqueles que, anonimamente, subscrevem as mensagens que nos chegam e que tentam destruir a imagem já maculada pela Aracruz Celulose S.A., dos indígenas brasileiros, neste caso os Tupinikins e Guaranis.

Não suportando essa falta de coerência, me sinto no direito de externar, por causa dessa vexatória situação de agressão a estes povos tão sofridos, alguns pensamentos:

"Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso".

Berttold Brecht (Agenda MST, 2003, p.19/02)

Parece-me que a ação externada pelos "funcionários" da Aracruz podem ser assim enquadrada. E, dessa forma, não nos resta senão dizer que o crime que estão praticando contra essas culturas milenares se voltará contra quem as promove e, pior, contra os vossos filhos, pois uma comunidade de paz (como os indígenas atacados) pode ser forçada à guerra.

O que os "funcionários" dizem nos e-mails que estão nos enviando:

1. Indígenas são agora "pessoas aparentemente indígenas"?

2. Indígenas são "presos" por que foram pegos em flagrante numa situação de roubo?

3. Indígenas, quando são defendidos pela ONG's dos direitos humanos/ambientais, são agora agentes de "um radicalismo patrocinado por interesses internacionais"?

4. Indígenas não podem viver com dignidade e tem que viver "como tal" (índios pelados e distantes dos homens brancos), não podem "ter antenas parabólicas", não podem "ter asfalto"?

Infeliz e errôneo pensamento o dos funcionários da Aracruz Celulose, pois Indígenas não podem ter a sua cultura e, ainda assim, ampliar a possibilidade de ter dignidade quando são afetados negativamente pelas "práticas-pragas" do "desenvolvimento" desumano: erradicação brutal das espécies para o plantio do eucalipto; pelo agrotóxico lançado maciçamente pelas empresas da monocultura do eucalipto que contaminam a terra, o ar, a vida dos indígenas (índios, animais e floresta); pela erradicação das culturas tradicionais (quilombolas, indígenas e ribeirinhos, agricultores familiares); pela compra de gestores públicos que deveriam fiscalizar as atividades dessas empresas.

Será que os "funcionários" da Aracruz sabem quantos crimes são cometidos pela empresa nos vários estados que a empresa mantêm atividades?

  • Plantações no entorno de Unidades de Conservação;

  • Plantações irregulares em Áreas de Preservação Permanente;

  • Reservas Legais não recuperadas;

  • Captação de águas territoriais em larga escala impedindo populações e, o pior, sem pagar impostos;

  • Lançamento de agrotóxicos em larga escala;

  • Erradicação de árvores e frutos de dendezeiros que alimentam populações tradicionais;

  • Destruição da fauna e flora com perda de biodiversidade.

Respondo: É impossível não saber...

Lembrem-se caros funcionários da Aracruz Celulose:

"Somos o que fazemos, mas somos principalmente, o que fazemos para mudar o que somos".

Eduardo Galeano (Agenda MST p.12/05)

Continuo a acreditar na transformação de suas mentes, antes que sejam descartados pelo capital, porque quando vossos corpos não mais interessarem a este assassino da cultura inteligente, será muito tarde, como o foi para milhares de indígenas que não tiveram sábios interlocutores que os defendessem, no passado, da varíola intencionalmente disseminada para erradicá-los dos territórios a serem explorados pelo capital.

Recebi o relatório forjado na calada da noite das negociatas fraudulentas da sociedade capitalista, por "especialistas" que foram pagos pelo capital internacional da Aracruz Celulose S.A.. Relatório que não irei responder mais do que estas palavras.

Não escrevam mais para mim, porque não os responderei, porque assino e somente aceito de livre vontade quem se declara. Assino como pessoa justa e junto com as ONG's CDDH, FASE, Rede Alerta Contra o Deserto Verde e tantas outras entidades que lutam pela dignidade dos povos descartados pelo capital. Assinarei sempre pelas manifestações contra os absurdos que estão sendo cometidos pela Aracruz Celulose S.A., que desrespeita o levantamento feito por órgãos governamentais e tenta se sobrepor utilizando artifícios mesquinhos como este de querer dizer que os nossos irmãos índios não são índios.

Para que sirva de esclarecimento para todos os funcionários e interessados envio-vos, em anexo, um relatório de danos e crimes ambientais, mais uma das vilezas dos sectários da monocultura: a erradicação dos dendezeiros no Extremo Sul da Bahia.

Cordialmente,

João Luiz Monti
Ex-chefe do IBAMA em Teixeira de Freitas – BA
Pedagogo com Habilitação em Coordenação e Administração de Projetos Pedagógicos pela UNEB/BA


Para ler o relatório da inspeção ambiental feito em propriedades da Aracruz Celulose clique aqui


 

Prezada Lígia,

Talvez estejamos mesmo parecendo agressivos, mas não somos. O que provavelmente está sobressaindo em nossas palavras é fruto de uma indignação muito grande, porque estamos vendo nosso trabalho ser dilapidado a cada dia. Porque acordamos cedo pra trabalhar dignamente,
e nos deparamos com pessoas de origem aparentemente indígena ou não, atravessadas em nosso caminho, não nos deixando passar porque existem outros índios presos. Estão presos sim, porque foram pegos em flagrante numa situação de roubo. Qualquer um de nós seria preso nessa situação, por que eles não?

Estamos indignados diante da impunidade de pessoas que só querem os direitos que temos (acesso a tecnologia, a hospitais, etc), mas não querem nossos deveres (trabalhar, por exemplo)...

Assim como você diz que não tem nada contra nós, nós também não temos nada contra você, nem contra índios ou contra qualquer outra 'minoria'. Temos sim, muita coisa contra falsas ideologias, contra a falta de informação, contra ONGs descompromissadas com a verdade, que divulgam um radicalismo patrocinado por interesses internacionais (quem são mesmo os patrocinadores da FASE?). Somos contra a violência que tem nos impedido de trabalhar dignamente, que tem estragado nossas florestas. Somos contra a divulgação em massa de mentiras como a de que a Aracruz é uma multinacional, que expulsou os índios, enfim, somos contra esse 'romantismo' que se tenta desenhar em torno das comunidades aqui existentes, e que só quem vive aqui sabe que simplesmente não existe.

Não somos irônicos; apenas estamos vivendo uma situação irônica!!!

Acompanhe meu raciocínio:

1. Se são mesmo índios, por que não vivem como tal?

2. Se querem voltar a viver como índios, por que não têm nenhum plantio de coisa alguma? E por que constroem casas de alvenaria, com antenas parabólicas, pedem asfalto para as 'aldeias'?

3. Se as ONGs têm mesmo a intenção de ajudar, por que não agem no sentido de orientar essas comunidades a fazer algo de útil com a terra que já têm? Pelo que sabemos, a única coisa de realmente útil que eles produzem atualmente é eucalipto (irônico, não?).

4. Onde estão os programas de agricultura de subsistência, o resgate cultural, a 'real proteção' fornecida por essas instituições?

5. Ok, vamos imaginar que a evolução é para todos, e portanto essas comunidades estão 'evoluindo' e querem o conforto que a vida do 'homem branco' tem. Sem problemas.... mas então que evoluam 'por inteiro' e absorvam também nossos deveres. Eles querem freqüentar os hospitais que freqüentamos (cadê o pajé?), mas não querem enfrentar as filas que enfrentamos...

6. Quem os ensinou a quebrar coisas? Quebram fóruns, quebram fábricas... incendeiam florestas...

Somos contra qualquer tipo de violência, e estamos sim, abertos ao diálogo. E por querermos o diálogo, não conseguimos entender o seu comportamento ao apagar nossas opiniões, e deixar apenas aquelas que condizem com a sua. Seu Blog virou um MONÓLOGO... e isso é igualmente 'irônico'. E também parece uma infantil pirraça contra algum 'tio' que disse algo que você não gostou... Você disse que "o diálogo precisa ter um canal sempre aberto" e fechou as portas....

 
 

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