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11/09/2007
Carta aberta do
seminário “Estado e Campesinato na Amazônia: o debate sobre o
distrito florestal de Carajás” à sociedade brasileira
Nós,
de diversos movimentos sociais e instituições da região do
Bico do Papagaio (Pará, Maranhão e Tocantins), reunidos em
Marabá no Seminário “Estado e Campesinato na Amazônia: o
debate sobre o Distrito Florestal de Carajás” declaramos à
sociedade brasileira nosso posicionamento diante da proposta
do Serviço Florestal Brasileiro, órgão do Ministério do Meio
Ambiente, de implantação do chamado Distrito Florestal de
Carajás.
Com a
proposição desse Distrito, conformado por uma área de 200 Km
de raio a partir de Marabá e de Açailândia, o Governo Federal
pretendia canalizar recursos para o plantio de 1 milhão de
hectares de monocultura de árvores, gerando 5 milhões de m3 de
toras para a indústria madeireira e 17 milhões de m3 de toras
para carvão. Negando que a decisão sobre essa proposta devesse
dar-se em uma velocidade acelerada e com pouca reflexão, como
desejava o Governo Federal, os movimentos sociais do Sul e
Sudeste do Pará não participaram das reuniões oficiais e
decidiram construir um seminário para o debate e a reflexão
independente sobre o tema.
O
primeiro passo dessa reflexão concretizou-se no seminário
“Estado e Campesinato na Amazônia: o debate sobre o Distrito
Florestal de Carajás”, realizado em Marabá, nos dias 30 e 31
de agosto e 01 de setembro de 2007, com a participação de 200
pessoas de diversas entidades e movimentos sociais que atuam
na região do Bico do Papagaio (Pará, Maranhão e Tocantins) e
de professores e pesquisadores de universidades e instituições
de pesquisa como a UFPA, UFF, Fase –Amazônia, Fase – Espírito
Santo e Terra de Direitos. O seminário buscou traçar um
panorama da expansão do agronegócio e da siderurgia na
Amazônia, no Brasil e na América Latina e seus impactos para o
campesinato, para o desenvolvimento sustentável e para a
soberania alimentar, bem como a resistência e as conquistas
dos movimentos sociais na Amazônia, Brasil e América Latina
contra essa situação.
A
proposta do Governo Federal parte de dois pressupostos
equivocados:
-
Primeiro, considera equivocadamente que monoculturas de
árvores são florestas. Florestas, em regiões tropicais, são
caracterizadas pela biodiversidade e pela sócio-diversidade,
que não existem nesses plantios homogêneos. Por isso, o
plano do Governo Federal configura-se como um Distrito
Pseudo-Florestal.
- Segundo, considera
equivocadamente que esta é uma região degradada e que só uma
agricultura em bases capitalistas seria capaz de se instalar
aqui. Não se pode desconsiderar os impactos ambientais e
sociais que essa região sofreu desde a década de 1970, com a
expansão da atividade mineral e siderúrgica e da grande
pecuária extensiva, cujos maiores exemplos são os
desmatamentos, as queimadas, a miséria, a violência e o
trabalho escravo. Esses impactos precisam, de fato, ser
revertidos, mas o plantio de monoculturas de árvores não
atende a essa necessidade.
Todo
o processo de expansão capitalista nesta região gerou,
simultaneamente, uma resistência camponesa que garantiu a
conquista de centenas de projetos de assentamentos com
milhares de famílias assentadas. É neste universo que se
encontra o caminho empírico e conceitual da recuperação
ambiental, com base nas inúmeras experiências camponesas
sustentáveis e bem sucedidas de produção, a partir de manejos
extrativistas e agroflorestais, de roças diversificadas e da
criação de pequenos e médios animais. É essa produção
diversificada que sempre garantiu o abastecimento do campo e
sobretudo das cidades desta região.
Além
desses pressupostos equivocados, a proposta do Distrito
Pseudo-Florestal em si, também tem problemas graves. A questão
central é que ela se coloca como uma ação voltada para atender
os interesses do setor siderúrgico e madeireiro, não apenas
garantindo suprimento de matérias-primas a baixo custo, como
concretizando uma transferência direta de recursos públicos
para essas indústrias, através de financiamentos e incentivos.
Dessa forma, reforça o mesmo projeto de desenvolvimento que
predominou nos últimos 30 anos na região, prolongando a
insustentabilidade social e ambiental que o caracterizou e
bloqueando o desenvolvimento local, posto que as atividades
mínero-siderúrgica e madeireira são atividades de exportação
que pouco internalizam resultados econômicos, empregos locais
e qualidade de vida.
Uma
preocupação adicional à proposta do Distrito Pseudo-Florestal
refere-se à insustentabilidade sócio-ambiental que representa
a expansão de monoculturas de árvores. O caso do Espírito
Santo, com grandes áreas transformando-se em um “deserto
verde” ilustra nossa preocupação. Seja o plantio de espécies
madeireiras, seja o de. qualquer outra espécie de insumo para
a produção de combustíveis, tem mostrado uma nova fase de
expansão do agronegócio, que gera cada vez mais danos ao
ambiente, concentra terras e renda e compromete a existência
de áreas para a produção alimentar. Dessa forma, o Distrito
Pseudo-Florestal de Carajás insere-se numa fase de expansão da
produção de combustíveis, desenvolvida para prolongar um modo
de vida capitalista altamente demandante de energia, que
privilegia os automóveis, negando a soberania alimentar dos
povos. Portanto, essa proposta atrelaria cada vez mais essa
região a um processo insustentável de expansão do agronegócio
no Brasil, subordinando os camponeses diretamente à
siderurgia, reproduzindo uma lógica perversa da integração dos
trabalhadores às indústrias, tão conhecida em outras regiões,
que compromete a soberania alimentar do campo e da cidade e a
autonomia dos camponeses.
O
fato do Governo Federal apresentar uma proposta como a do
Distrito Pseudo-Florestal mostra que apesar de toda a luta de
resistência camponesa nessa região e da conquista de muita
terra na forma de assentamentos, os movimentos sociais do
campo ainda não conquistaram de fato o seu território. A
construção desse território que garanta vida digna e soberana,
não será dada por projetos mais uma vez construídos nos
gabinetes de Brasília, tampouco nos escritórios das
siderúrgicas da região. Esse território camponês só será
construído de fato com o protagonismo dos sujeitos do campo e
da cidade, organizados em seus movimentos e participando
ativamente da formulação dos projetos aqui implementados.
Qualquer projeto dessa natureza, só terá sentido se tomar como
centralidade o território camponês em construção, sua produção
familiar, seus modos de vida, suas identidades, suas culturas.
Plantios homogêneos de monoculturas de árvores, decididamente,
não fazem parte desse projeto.
Frente a essas análises a proposta do Distrito
Pseudo-Florestal de Carajás apresentada pelo Governo Federal
não nos interessa porque representa a expansão do agronegócio
na região baseado na monocultura de árvores, que irá
subordinar o campesinato, posto que é agronegócio, e violentar
a verdadeira floresta e sua gente, posto que é monocultura.
Por isso, reafirmamos:
1. Somos contra o
latifúndio e toda e qualquer monocultura que fere o princípio
da biodiversidade, como por exemplo, as plantações industriais
de eucalipto ou de qualquer outra espécie;
2. Somos contra qualquer
projeto público para a região elaborado sem a participação
efetiva da sociedade local, sobretudo das classes populares,
referenciados pelos exemplos vividos nos últimos 30 anos que
só causaram erosão da biodiversidade e a tentativa de
transformação dos camponeses em agregados do grande capital;
3. Somos contra o
desmatamento da floresta, seja para fins da produção de carvão
(componente essencial da indústria siderúrgica), seja para a
agricultura capitalista de soja, da pecuária ou de
combustíveis, que incida sobre o interesse dos camponeses;
4. Somos contra a
instalação do Distrito Pseudo-Florestal de Carajás que
representa a perda da autonomia do campesinato com impactos
ambientais irrecuperáveis e miséria;
5. Somos contra o
trabalho escravo e a exploração trabalhista, que a expansão do
agronegócio do carvão através do Distrito Pseudo-Florestal irá
incentivar.
Diante disso, propomos:
1. Avançar na manutenção
e conquista de novos territórios, que garantam a soberania das
diferentes vertentes do campesinato (indígenas, ribeirinhos,
quilombolas, castanheiros, quebradeiras de coco babaçu,
agricultores familiares, assentados, etc) sobre a terra, a
água e a floresta;
2. Orientar a agricultura
à produção de alimentos sadios, à diversificação da produção e
ao respeito ao meio ambiente e ao ser humano;
3. Transformar a luta
pela soberania alimentar em uma luta do conjunto da sociedade;
4. Lutar por um novo
projeto energético, baseado na soberania dos trabalhadores e
das trabalhadoras e no respeito à natureza, construindo um
desenvolvimento verdadeiramente sustentável;
5. Resgatar e fortalecer
a identidade e a cultura do campesinato da/na Amazônia;
6. Que os governos façam
maiores investimentos em educação e ciência & tecnologia nesta
região voltados para a produção familiar camponesa, com
coerência e compromisso com a realidade do campo;
7. Que os governos deixem
de celebrar convênios, parcerias e contratos com empresas e
proprietários que estejam direta ou indiretamente envolvidos
com trabalho escravo e crimes ambientais.
Marabá, 01
de setembro de 2007.
MST, CPT, MAB,
MPA, Via Campesina-Pará, Fetagri, EFA Marabá – Fata, STTR –
Imperatriz (MA), AMIQCB, CNS, Cimi, Fórum Carajás, Fórum de
Mulheres do sudeste do Pará, Fórum Regional de Educação do
campo do sudeste do Pará, Faor – GT Terra, Água e
Desenvolvimento Sustentável, GTA Carajás, Rama – Rede
Agroecológica do Maranhão, Rede Deserto Verde, Pastorais
Sociais de Marabá, Centru – MA, SDDH, Cepasp, Lasat, Fase
Amazônia, Fase Espírito Santo, Coofama, Copserviços,
Coopatiorô, CAC Ubuntu, Seagri – Marabá, C.A. de Ciências
Sociais – UFPA/Marabá, Lemto – UFF, Colegiados de C. Agrárias
e Pedagogia da UFPA/Marabá. |
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