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11/06/2008
Via Campesina
denuncia agronegócio
e
ação das empresas em 13 estados
Protestos apontam agronegócio como culpado pela elevação
do preço dos alimentos
e
questionam transposição do Rio São Francisco e o modelo
energético
.
A
Via Campesina e trabalhadores urbanos integrantes da
Assembléia Popular realizam uma jornada de lutas para
denunciar os problemas causados pela atuação das grandes
empresas no país, especialmente as estrangeiras, que são
beneficiadas pelo modelo do agronegócio e pela política
econômica neoliberal, nesta terça-feira. A Assembléia
Popular é um espaço de organização de comunidades e
articulação dos movimentos populares da cidade.
Já aconteceram protestos em Pernambuco, Paraíba, São Paulo,
Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Espírito
Santo, Santa Catarina, Alagoas, Paraná, Tocantins e
Rondônia. O modelo econômico baseado no capital financeiro e
no oligopólio de empresas transnacionais, principalmente do
setor do agronegócio e da energia, sacrifica a renda da
população com o aumento do preço dos alimentos e da conta de
luz.
As ações denunciam que a especulação das empresas
transnacionais e do capital financeiro, que impõem a
monocultura de cana e eucalipto, causam a crise do preço dos
alimentos. O mercado agrícola mundial é controlado pelo
oligopólio de menos de 40 empresas que controlam toda
produção, insumos, processamentos até a agroindústria.
No nordeste, organizações populares denunciam que a
transposição do Rio São Francisco beneficiará apenas os
latifundiários do agronegócio. O projeto do governo mostra
que a destinação da água é de 4% para a população rural, 26%
para o meio urbano e 70% para o agronegócio.
Em Rondônia, 300 trabalhadores do MAB e Via Campesina
trancaram, nesta manhã, a BR 364, em Candeias do Jamari, a
20 Km de Porto Velho, no trecho que liga Porto Velho a
Cuiabá. A rodovia é o principal caminho para o escoamento da
soja produzida no Mato Grosso. A mobilização visa denunciar
o desmatamento da Amazônia, a ocupação ilegal de enormes
extensões de terra para plantação de soja e protesta contra
a construção dos usinas do Complexo Madeira. Em Ouro Preto,
200 pessoas fizeram uma mobilização por redução no preço da
energia.
Em Tocantins, atingidos pela usina hidrelétrica de
Estreito trancam a estrada de ferro da Vale do Rio Doce, no
município de Darcinópolis, em Tocantins. Cerca de 400
pessoas paralisam o tráfego do trem que abastece as obras da
ferrovia que ligará o Porto de Itaqui, no Maranhão, ao
município de Senador Canedo, em Goiás.
Depois de construída, a ferrovia fará o transporte da soja
produzida na região amazônica e de minério de ferro da Vale.
Além de denunciar o corte ilegal da floresta amazônica e do
cerrado para grandes extensões de lavoura, os manifestantes
reivindicam o cumprimento dos acordos feitos entre eles e a
empresa Valec, construtora da ferrovia.
No Paraná, cerca de 300 agricultores do MAB
(Movimento dos Atingidos por Barragens) e da Via Campesina
estão acampados na hidrelétrica de Salto Santiago, no
Paraná, em protesto contra a transnacional franco-belga
Suez-Tractebel, dona da barragem. É a segunda vez no ano que
a UHE de Salto Santiago é ocupada por trabalhadores rurais.
Eles também protestam contra lei que impede agricultores de
viverem a menos de cem metros da mata ciliar no entorno do
lago da barragem. Os manifestantes exigem uma rodada de
negociações com o governo para resolver os problemas dos
atingidos pela barragem.
Em Pernambuco, cerca de 200 trabalhadores rurais da
Via Campesina ocuparam a Estação Experimental de
Cana-de-Açúcar (EECAC), no município de Carpina, Zona da
Mata Norte de Pernambuco, nesta manhã, em protesto contra o
avanço da monocultura de cana-de-açúcar na região, que
contribui para a elevação da crise dos alimentos no país.
Durante a ocupação, os agricultores destruíram mudas de
variedades de cana, inclusive espécies transgênicas, e
cortaram cerca de dois dos 100 hectares de cana-de-açúcar
plantadas na Estação.
A Estação Experimental é uma Parceria Público-Privada entre
o Sindaçúcar (Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool),
que reúne as 20 maiores usinas estaduais, e a Universidade
Federal Rural de Pernambuco. Com 250 hectares, a área
poderia assentar cerca de 50 famílias Sem Terra e produzir
alimentos para abastecer as feiras da região.
No Espírito Santo, cerca de 500 trabalhadores da Via
Campesina realizam um protesto contra a expansão do
monocultura da cana-de-açúcar. A mobilização está ocorrendo
no município de Montanha, onde será instalada uma nova
usina, pertencente à empresa estrangeira Infinity Bio-Energy,
companhia criada em 2006 e sediada na Ilha das Bermudas, e
que já comprou todas as usinas de cana do norte do ES.
A região norte do Espírito Santo conta com 40 mil hectares
de cana plantados e deve ser dobrada a área de plantio nos
próximos anos. Isso está sendo estimulado tanto pela
instalação da empresa Infinity Bio-Energy, que pretende
tornar-se líder mundial na produção e distribuição de álcool
e outros biocombustíveis, e pelo governo do estado, que
apontou a meta de ampliação em 133% da produção de álcool,
conforme o Plano Estratégico de Agricultura Capixaba (PEDEAG).
Em São Paulo, 450 trabalhadores da Via Campesina
ocuparam uma fazenda no município de Mirante do
Paranapanema, da Organização Odebrecht, que está construindo
a usina Conquista do Pontal para a produção de etanol. A
Odebrecht, entre outras empresas, estão se utilizando
irregularmente de terras públicas para a instalação de
usinas e plantio de cana-de-açúcar.
O projeto de expansão da Odebrecht prevê a utilização de 160
mil hectares de terras para a produção de matéria-prima
(cana-de-açúcar). Essas terras estão dentro do 11° perímetro
do Pontal do Paranapanema, uma região de terras públicas.
Na cidade de São Paulo, cerca de 600 trabalhadores rurais da
Via Campesina e integrantes da Assembléia Popular ocuparam
prédio da Votorantim e CPFL para denunciar os impactos
ambientais da construção da barragem de Tijuco Alto, no Rio
Ribeira de Iguape, que corta os estados de São Paulo e
Paraná. O protesto também denuncia os altos preços da
energia elétrica.
A Polícia Militar invadiu o prédio com soldados e reprimiu
com violência a manifestação pacífica, com bombas de gás de
pimenta e tiros. Foram presos cinco manifestantes da Via
Campesina e Assembléia Popular, liberados no final da tarde.
O Ibama reprovou duas vezes os Estudos de Impacto Ambiental
(EIA/Rima) apresentados pela companhia. A empresa enviou um
novo relatório em 2005 e ainda não recebeu parecer
conclusivo do Ibama. Ainda existem duas pendências: uma
referente ao dispositivo legal que permite a inundação de
cavernas (há duas na área a ser alagada), e outra relativa à
revalidação do direito de uso dos recursos hídricos do rio
Ribeira, a cargo da Agência Nacional de Águas (ANA).
Na Paraíba, mais de 200 trabalhadores rurais da Via
Campesina ocuparam o latifúndio Nossa Senhora de Lourdes,
localizado a 5 km da cidade de Mari, que possui 1.100
hectares com a monocultura da cana. A propriedade de Carlos
Ribeiro Coutinho foi arrendada para a Usina Jacungu.
Os lavradores estão recebendo ameaças de pistoleiros, que
começam a rondar o acampamento, com homens armados vestidos
de preto preparados agirem à noite contra os trabalhadores
rurais acampados.
"Os integrantes da Via Campesina denunciam o modelo
agroexportador, e a opção do governo por ele. Expandido a
monocultura da cana de açúcar, cada vez menos terra sobra
para ser feito a Reforma Agrária e para a produção de
alimentos", denuncia Dilei Aparecida, da coordenação
estadual da Via Campesina.
No domingo, 150 famílias ocuparam um latifúndio nas Várzeas
de Sousa e ainda permanecem acampadas no local para
denunciar a opção do governo de expandir o agronegócio na
região, beneficiando o Grupo Santana Sementes. Desde
domingo, os fiscais da área estão fazendo varias ameaças às
famílias acampadas, mas elas permaneceram resistindo no
local.
No Ceará, cerca de mil trabalhadores rurais da
ocuparam o Porto do Pecém, situado em São Gonçalo do
Amarante (região metropolitana). Foram fechadas as áreas de
carga e descarga do terminal em protesto contra o projeto de
instalação de cinco termoelétricas, uma refinaria e uma
siderúrgica no complexo, que vão causar danos ambientais e
sociais.
Além disso, os trabalhadores protestam contra a alta dos
preços dos alimentos, transposição do Rio São Francisco e
instalação de uma refinaria da Petrobrás, que será
construída em cima da bacia hidrográfica e o consumo de água
será equivalente a uma cidade de 30 mil habitantes.
Na Bahia, agricultores da Via Campesina ocuparam a
barragem da usina de Sobradinho para denunciar que os
grandes projetos de irrigação beneficiam apenas os
latifundiários do agronegócio, especialmente o projeto de
transposição do Rio São Francisco, o Pontal Sul, em
Petrolina, e o Projeto Salitre, na cidade vizinha de
Juazeiro, na Bahia.
Depois de investimento publico em infra-estrutura de
irrigação (no caso do Pontal Sul já foram investidos cerca
de 250 milhões de reais), essa estrutura é privatizada nos
acordos de Parceria Publica Privada (PPP).
Em Alagoas, 1.000 pessoas de diversas organizações
populares, Via Campesina, grupos, pastorais, povos e
comunidades tradicionais (Indígenas, Quilombolas e
Pescadores Artesanais) fazem protesto na hidrelétrica de
Xingó contra a transposição do Rio São Francisco, construção
das novas barragens e a baixa vazão do rio, que causa fortes
impactos na Foz do Rio São Francisco. Os manifestantes
denunciam que a transposição e as novas barragens beneficiam
apenas os latifundiários do agronegócio.
No Rio Grande do Sul, trabalhadores do campo e da
cidade ocuparam cedo da manhã desta terça-feira a
transnacional de alimentos Bunge, na cidade de Passo Fundo
(região Norte gaúcha). Os camponeses e trabalhadores
denunciam o monopólio que as empresas de alimentos, como a
Bunge, implementam no mercado, definindo os preços pagos
pelo trabalhador nos supermercados, que estão cada vez mais
caros.
O Ministério da Agricultura concluiu em estudo que a Bunge,
no Brasil desde 1938, montou um oligopólio no setor
brasileiro de fertilizantes e vem sendo responsável pela
alta do preço dos alimentos, com os altos custos de produção
de lavouras. Além disso, a Bunge precisou ser intimada pela
Justiça em 2007 para rotular como produto que contém
transgênico o seu azeite Soya, pois escondia essa informação
da população.
Na divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina,
cerca de 300 trabalhadores rurais ocuparam as instalações da
Usina Hidrelétrica de Itá, que pertence à transnacional
franco-belga Suez-Tractebel e a ação faz parte da jornada
nacional de lutas da Via Campesina contra o modelo
energético e econômico e contra as transnacionais.
A Suez-Tractebel é a maior empresa estrangeira de geração de
energia no Brasil, com 13 usinas (6 hidrelétricas e 7
termelétricas). Segundo dados da própria empresa, em 2007, o
lucro líquido foi de R$ 1,05 bilhão, 6,8% acima do lucro
obtido em 2006.
Em Santa Catarina, foram realizadas mobilizações em
duas regiões do Estado. Cerca de 700 trabalhadores estão em
frente à Klabin, empresa de papel e celulose, que detém 160
mil hectares de pinho e eucalipto no estado.
Além disso, os manifestantes distribuem 500 mudas de árvores
nativas e 15 toneladas em cestas de alimentos para a
população da cidade de Otacílio Costa, que inclui morangas
produzidas em um assentamento da Reforma Agrária no
município de Ponte Alta. Os manifestantes também irão
plantar centenas de mudas de árvores nativas, em protesto
contra o "deserto verde", provocado pelo plantio em grande
escala de pinus e eucalipto.
No município de Maravilha, 1200 trabalhadores da Via
Campesina estão concentrados no trevo da BR 282 e trancaram
a rodovia, que dá acesso à cidade, onde farão protestos
contra a Aurora, que representa o modelo de produção do
agronegócio.
Em Minas Gerais, 500 pessoas participantes da
Assembléia Popular bloquearam a linha férrea da mineradora
Vale, na altura do bairro São Geraldo, em Belo Horizonte,
para denunciar os problemas causados pela passagem do trem.
O trem bloqueia a passagem de veículos por até 2 horas e,
desde o ano passado, já morreram 04 pessoas dentro de
ambulâncias, inviabiliza as aulas da Escola Municipal Pe.
Francisco Carvalho Moreira por causa do barulho e abala a
estrutura das casas.
Os integrantes da Assembléia Popular de Belo Horizonte, nos
bairros de São Geraldo, Caetano Furkim, Boa Vista, Casa
Branca e Vila Mariana de Abreu pedem a transposição da linha
há 25 anos e a indenização das famílias que perderam
parentes. Em 2007, paralisaram a passagem do trem por duas
ocasiões e nenhuma das promessas foram cumpridas.
Uma comissão apresentou como pauta a exigência da
transposição dos trilhos. Os representantes da FCA e da Vale
garantiram o início das obras no prazo de 40 dias. O mesmo
acordo foi firmado também com a ANTT (Agência Nacional de
Transportes Terrestres).
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