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Movimento Juvenil Nacional revela desafios e ações
na luta por 7% do PIB para educação na Nicarágua

Tatiana Félix
Jornalista da Adital
Adital

7% do Produto Interno Bruto (PIB) nicaraguense para desenvolver a educação no país. Esta é a principal demanda sustentada pelo Movimento Juvenil Nacional desde o ano de 2008 para melhorar a situação precária do setor.

Entrevistado pela ADITAL, o militante Ginger Acosta Chamorro, que assumiu a delegação oficial ao Fórum de Educação e Desenvolvimento Humano no processo de Construção da Agenda Educativa, revela os desafios do Movimento nesta luta e também as ações desenvolvidas para pressionar o Estado nicaraguense e organizar os jovens.

Dentre as ações estão: festivais artísticos e culturais, vídeos fóruns informativos, intercâmbios territoriais, produção de materiais informativos, alianças em nível nacional e manifestações por desconto de 50% nas passagens interurbanas para estudantes.

"Para os jovens das zonas rurais a educação é o maior sacrifício de suas vidas, o sistema educativo é excludente desde o pré-escolar até a educação superior, tem todas as condições para que não permaneçam”, aponta.

Entrevista

ADITAL – Como surgiu o Movimento Juvenil Nacional?

Ginger Acosta Chamorro – O Movimento Juvenil Nacional surgiu no ano de 2006, a partir da reflexão política sobre juventude de sete jovens entre os 17 e 35 anos de idade. Alguns vínhamos de um processo de formação em direitos humanos recebido de organizações não governamentais promotoras dos direitos da infância e adolescência nos territórios da Nicarágua, outros de experiências de organização no bairro, ou nas universidades. A maioria sem militância partidária.

Como característica principal do grupo fundador podemos falar da diversidade de experiências de vida, estratos sociais e pensamento político. Nas reflexões que efetuamos nas universidades, concordamos que a classe política nicaraguense não está profundamente comprometida com os interesses da maioria da população e carece de autenticidade. Na Nicarágua, cerca de três milhões de pessoas somos jovens e mulheres.

Percebemos uma ruptura entre as ações da classe política e os direitos sociais, econômicos, políticos, culturais e de meio ambiente das e dos jovens nicaraguenses.

Então nos focamos na reflexão sobre o tipo de Movimento que devíamos impulsionar, e decidimos então ver algumas experiências na região, e decidimos nossas bandeiras de luta, decidimos ser parte dos Novos Movimentos Sociais e decidimos que nossas armas seriam as boas ideias, a imaginação, a criatividade, a inovação e a capacidade de proposição.

ADITAL – Jovem Século XXI, que desenvolve o programa MJN, pede um maior investimento na educação primária e que o governo aumente para 7% o investimento do PIB na educação. Atualmente, a porcentagem é de somente 3,7%. Há uma negociação com o governo neste sentido?

Ginger Acosta Chamorro – Jovem Século XXI é uma organização não governamental impulsionada pelo Movimento Nacional de Juventude para estabelecer e desenvolver suas relações institucionais e de cooperação, o Movimento Nacional de Juventude, por sua vez, é o braço político de Jovem Século XXI.

O Movimento Nacional de Juventude demanda maior investimento na educação, respalda a demanda de 7% do PIB, por considerar fundamental o investimento para o desenvolvimento sustentável, por concordar com a oportunidade que a situação demográfica nos oferece com o chamado Bônus demográfico, e por considerar que a Nicarágua se deparará com grandes desafios na primeira metade do Século XXI.

Soma-se, portanto, à Campanha 7% a nota promovida por uma sociedade interna à sociedade civil organizada na Nicarágua, com a participação da Oxfam. Apesar dos diversos esforços, não existe uma mesa de negociação e atualmente o desafio está em continuar organizando as e os jovens e desenvolver a campanha entre as juventudes.

Um dos fatores considerados que não têm contribuído para uma estratégia que obtenha negociações é a polarização entre os sócios da campanha e certo nível de confronto entre organizações dos sócios e o partido no governo, alguns dissidentes da FSLN (Frente Sandinista de Liberación Nacional), exercendo cidadania, são líderes de organizações sociais integrantes da campanha pelos 7% do PIB.

E nos chama principalmente a atenção que a FSLN e o Comandante Daniel Ortega e sua equipe de assessores sobre educação nacional e as e os estudantes universitários na União Nacional de Estudantes da Nicarágua (Unen), organização que funciona como braço da FSLN nas Universidades, não considerem o aumento de investimento na educação até chegar a 7% do PIB uma prioridade de luta progressista.

Vemos uma oportunidade no ano de eleições para levantar bandeiras e propiciar reflexões políticas cidadãs de jovens sobre o investimento na educação. Vamos nos somar à construção da Agenda 2012-2017 com o Fórum de Educação e Desenvolvimento Humano – Iniciativa Nicarágua e às atividades programadas pela jornada permanente.

ADITAL – Que problemas se podem identificar no cotidiano, na vida dos(as) nicaraguenses em razão dessa baixa porcentagem na educação?

Ginger Acosta Chamorro – Na atualidade, encontramos até 40 estudantes por sala de aula. Nas zonas rurais e no Caribe da Nicarágua, o estudantado tem que caminhar até duas horas para ir ao Colégio e logo regressar a suas casas, com uma educação inadequada a seu contexto local.

As e os professores não ganham salários nem de 300 dólares mensais. Para todas as comunidades indígenas e do Caribe da Nicarágua os textos não estão em sua língua. Somente existe uma biblioteca nacional que está localizada em Manágua. Os níveis de educação oscilam entre os três e cinco anos de escolaridade, com o qual em torno de 120 mil jovens ingressam no mercado de trabalho.

Somado a isto temos que 10 mil salas de aulas necessitam de reparações parciais e outras 10 mil de reparações totais, assim como mesas, transparências, quadros, assentos, laboratórios e equipamentos tecnológicos básicos. Mais de 30% das e dos professores têm formação informal, sobretudo nas áreas rurais do país.

Um dos sinais mais relevantes na atualidade é de que os alunos que se formam no seu quinto ano, não prestam o nível devido, porque ao realizar o exame de admissão para ingressar nas universidades públicas, somente 10% conseguem passar no exame.

Além disso, há a alegativa de que os professores politizam a educação, o que a nosso ver é bom, desde um ponto de vista histórico de nossa cultura e de análise do contexto em que estamos vivendo, mas não nos parece que se politize ao extremo de dirigir todas as atividades extracurriculares a atividades relacionadas com o partido de governo.

Por fim, o tema da acessibilidade dos centros de estudos, sobretudo nas comunidades no interior do país, já que ainda existem lugares onde meninos e meninas têm que caminhar ao menos sete ou dez quilômetros para chegar a uma escola.

O tema da educação inclusiva para as pessoas com deficiência é muito sério, já que ainda que o governo mantenha abertura para a educação inclusiva, na realidade e na vida diária nos deparamos com que os professores aonde chegam as crianças, adolescentes ou jovens com deficiência, não se encontram capacitados com as ferramentas necessárias para enfrentar estas situações, ou seja, não têm domínio do sistema Braille ou da língua de sinais e pior ainda é com aqueles que apresentam transtornos mentais.

ADITAL – Que tipo de atividades o Movimento está realizando para pressionar pelo aumento do PIB para a educação? Temos um exemplo claro do que vem ocorrendo no Chile com as mobilizações pela educação...

Ginger Acosta Chamorro – O Movimento Nacional de Juventude assumiu em 2008 o desafio de mobilizar a juventude e com a juventude pela demanda de 7% do PIB para educação, o que tem significado realizar Festivais Artísticos e Culturais, Vídeos Fóruns Informativos, Intercâmbios Territoriais, Planejamentos Midiáticos, Elaboração e Distribuição de Produtos de Comunicação e estabelecimentos de alianças em plataformas nacionais com diversos atores que abordam a temática da educação, entre elas temos o Fórum de Educação e Direito Humano, espaço que promove os processos de avaliação e construção das Agendas qüinqüenais desde a sociedade organizada.

Também temos promovido manifestações com apoio de estudantes da Universidade Nacional Agrária para que a passagem interurbana seja reduzida em 50% para os mais de 50 mil jovens que se vão do interior do país às Universidades nas capitais dos departamentos e pelo que muitos jovens do interior do país desistem de continuar os estudos superiores, ao não poder sustentar os custos de transporte. Para os jovens das zonas rurais, a educação é o maior sacrifício de suas vidas, o sistema educativo é excludente desde o pré-escolar até a educação superior, têm todas as condições para que não permaneçam.

ADITAL – Além da educação, quais são as outras demandas do Movimento de Juventude?

Ginger Acosta Chamorro – Além do investimento na educação, como Movimento estamos impulsionando iniciativas relacionadas com a defesa dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente, entre elas temos a campanha Para Seguir Respirando, Salvemos Bosawás, que tem como objetivo a preservação da reserva de biosfera de Bosawás e Ecológico em minha comunidade para a preservação do meio-ambiente no ocidente do país; Estratégia Nacional de adaptação à Mudança Climática; Redução de 50% sobre o custo da passagem de jovens do interior do país que viajam todos os dias até as capitais departamentais para estudar nas universidades; Reformas Eleitorais, para as quais somos parte do Grupo Promotor de Reformas Eleitorais, a partir de onde demandamos um sistema eleitoral inclusivo, transparente e independente dos partidos políticos, porque cremos que não podem ser juiz e parte; entre outros.

 
 

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