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08/03/2007
Neste 8 de março publicamos
o relato de algumas participantes do MMC-RS sobre sua relação
com o movimento
Faz muitos
anos que a dona Hilda Aléssio Rubin, de 66 anos,
participa do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Ela
acredita que temos que retomar o conhecimento e o desejo de
preservar e defender a vida. “Lembro de quando plantávamos nas
hortas sem agrotóxicos. Mas acabamos esquecendo tudo isso com a
revolução verde, que nos ensinou a aplicar agroquímicos, plantar
monoculturas de soja e procurar os médicos para nos curar das
doenças”, diz Hilda.
“O MMC me
ajudou a entender o valor que tem a natureza, a alimentação
integral, as ervas medicinais, os produtos ‘puros e limpos’. A
participação nos grupos de mulheres nos ensina a valorizar a
sabedoria das nossas mães e avós, resolvendo problemas de saúde
com ervas medicinais. Nos cursos, as mulheres aprendem muito
sobre alimentação saudável e ervas medicinais, além de
fortalecerem sua auto-estima e melhorarem a convivência em casa.
As mulheres saíram da dependência dos químicos. Começaram a se
alimentar com produtos que trazem bom humor e saúde. Para isso
acontecer, foi fundamental a orientação técnica para poder
produzir de forma agroecológica, ajudando as mulheres a
conhecerem a fundo os produtos que botam na mesa”, ressalta
Hilda.
Dona Hilda e
seu marido moram em Encruzilhada do Sul/RS, onde plantam
mandioca, pipoca, milho, girassol, batata doce e batatinha,
entre outros produtos. Têm uma vaca de leite, galinhas, ovelhas
e abelhas para produzir mel, bem como uma horta de verduras e
ervas medicinais. Os três filhos já foram embora para a cidade,
mas isso não abalou sua alegria, pois ela incorpora a mulher
realizada, feliz, de boa saúde e auto-estima, características
que, segundo ela, o MMC ajudou a conquistar.
Inelves Dal
Moro
tem 52 anos, é solteira e mora na linha Pitangueira, no
município de Cacique Doble/RS. Ela participa do Movimento de
Mulheres Camponesas (MMC) desde as primeiras lutas pelo direito
à aposentadoria das mulheres da roça e o salário maternidade.
“Para mim o
MMC tem um significado especial, sério e educativo. Especial
porque passei a me sentir valorizada enquanto mulher; sério
porque é um movimento que sabe o que quer; e educativo porque
promove cursos que só temos a oportunidade de participar por
estar envolvidas com o movimento. Por isso digo que o movimento
para mim foi uma faculdade que não pude fazer”, explica Inelves.
Inelve
ressalta que o 8 de março é muito significativo por ser um dia
de luta pela vida e também por sempre garantir espaços de
formação para as mulheres. “Tem entidades que fazem só um dia de
festa. Nós, do MMC, temos claro que neste dia companheiras
nossas perderam sua vida para que outras vivessem, por isso é
dia de luta pela vida”, conclui.
Minha família e eu somos agricultores ecologistas
há 20 anos. Esta decisão se deu pela necessidade de ser coerente
com a busca de qualidade de vida, que nos desafiava a mudanças
radicais, fosse no modo de nos relacionarmos com a natureza,
entre nós na família, com as outras famílias e com o nosso ser
individual.
Quando temos
uma visão mais ampla do planeta e do impacto das nossas ações
sobre ele, pensamos e agimos com mais cuidado, pois cada ser que
habita este planeta tem sua função, mas somente o ser humano é
capaz de pensar, articular suas idéias e agir segundo seu livre
arbítrio. E se é assim que acreditamos que funcionam as coisas,
está em nossas mãos transformar. Mudando o rumo desta história.
Estamos meio
boquiabertos vendo o aquecimento global, as mudanças no clima, o
buraco na camada de ozônio, as geleiras se derretendo, o avanço
do agronegócio, os venenos e a destruição da mata nativa, pela
plantação da morte como eucaliptos e pinos. Estão destruindo
nossa casa comum - o planeta - em nome do capital. E nós,
mulheres camponesas, estamos agindo para mostrar que é possível
cuidar da vida, plantar alimento saudável. Refletir sobre tudo
isso, nos grupos do MMC, começa a despertar a consciência de uma
necessidade urgente de ações em defesa da vida.
Na região
litorânea do Rio Grande do Sul, nos nove municípios onde o MMC
esta organizado, desenvolvemos um bonito trabalho em parceria
com o PDA, Subprograma Projetos Demonstrativos, órgão integrado
ao Ministério do Meio Ambiente, que tem como objetivo
desenvolver projetos demonstrativos com a participação de grupos
sociais tradicionalmente excluídos, como: extrativistas, povos
indígenas, agricultores(as) familiares e ribeirinhos(as),
organizações comunitárias e ONGs, assegurando-lhes condições de
vida digna, a partir do manejo sustentável e da preservação dos
recursos naturais. Esta parceria nos permite trabalhar na
recuperação da mata ciliar, ou seja, o conjunto de árvores,
arbustos, capins, cipós e flores que crescem nas margens dos
rios, lagos e nascentes. Este conjunto de árvores, com sua
sombra e frutos, é muito importante para a preservação da
biodiversidade da flora e fauna e para o equilíbrio do
ecossistema como um todo. Serve de abrigo para várias espécies
animais que ajudam a controlar as pragas na agricultura.
Assim,
protegendo as águas, o ar, a terra, a biodiversidade, estamos
beneficiando toda a humanidade, recuperando nossa saúde, através
do trabalho com as plantas medicinais e alimentação saudável e,
principalmente, recuperando nossa auto-estima. Isso só é
possível quando existe organização, vivência e cultivo de
valores como a solidariedade e a entre ajuda. O MMC nos propicia
essa vivência e a oportunidade de nos tornarmos capazes de
semear estas idéias, fazendo ações, colhendo pequenas e grandes
vitórias no nosso dia-a-dia. Podemos, então, fazer do planeta um
lugar lindo, onde o respeito a todas as formas de vida seja uma
cultura global.
Elci da Paz Scheffer
Três Cachoeiras/RS
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