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07/07/2006
Aracruz não admite crime
ambiental em Linhares (ES)
Quando a reportagem de O Eco
chegou à região do Farias, em Linhares, norte do Espírito Santo,
já haviam se passado nove dias desde o desmatamento promovido
pela Aracruz Celulose numa Área de Preservação Permanente (APP),
às margens do Córrego Jacutinga. Mesmo depois de tanto tempo, os
moradores ainda descobriam, em meio à devastação, novas espécies
de árvores nativas derrubadas naquele fim de tarde do dia 16 de
junho, uma sexta-feira espremida entre o feriado de Corpus
Christi e o jogo Brasil x Austrália.
Diante
de dezenas de troncos de garibu, jibatão, jequitibá, braúna,
sapucaia e outras espécies ameaçadas de extinção, a maioria com
mais de 20 anos de idade e seis metros de altura, foi impossível
concordar com a versão divulgada na nota oficial da assessoria
de imprensa. A sensação é de que, em vez de “uma operação de
corte de eucaliptos” durante a qual “algumas árvores do
sub-bosque foram danificadas”, o que houve foi a intenção
deliberada de descobrir totalmente o terreno, o que iria
intensificar o assoreamento do já tão combalido córrego.
O
pequeno corpo d’água é o limite natural entre duas formas
opostas de ocupação do solo no município. A oeste, a colonização
data do início do século, quando os imigrantes italianos
começaram a chegar ao estado. São pequenas propriedades rurais
onde, atualmente, se produz principalmente coco e café. Em
algumas, a agricultura de subsistência está voltando, graças ao
“trabalho-formiguinha” de conscientização feito pelo Movimento
de Pequenos Agricultores (MPA). Aos poucos, os camponeses estão
entendendo que não vale a pena plantar uma ou duas culturas
apenas e ter de comprar comida enlatada no supermercado.
No lado
leste fica dos inúmeros eucaliptais da Aracruz Celulose que, no
total, ocupam mais de 4% do território capixaba. A paisagem
monótona é a mesma desde meados do século, quando a empresa
passou a derrubar a Mata Atlântica aos correntões para
enfileirar seus eucaliptos. O detalhe é que, se essa
silvicultura exótica continuar crescendo, não vai demorar para
que ela ultrapasse a área ocupada pelos remanescentes
florestais, que hoje não alcançam míseros 8% do território.
Chegando ao local, foi fácil visualizar também o que os
agricultores já haviam relatado por telefone à reportagem: as
sete máquinas cortadeiras se posicionaram ao longo da estrada e
desceram até a beirada do córrego, destruindo tudo pelo caminho.
Isso, definitivamente, não é fazer “corte seletivo de
eucalipto”, como consta na autorização do Ibama emitida em 2001,
documento que a empresa tinha como seu principal trunfo na
defesa da legalidade da operação.
O
próprio documento, aliás, é irregular. Segundo o
gerente-executivo do órgão no Espírito Santo, Ricardo Vereza, o
desmatamento não podia acontecer a poucos metros do leito do
córrego, em Área de Preservação Permanente (APP), como foi
verificado.
O
efeito da passagem das máquinas da Aracruz pela região,
portanto, não foi nem de longe “totalmente legal”, tampouco será
possível apenas “interromper provisoriamente os trabalhos”, como
diz a nota oficial distribuída à imprensa. Na verdade, a ação
foi embargada, a madeira apreendida e o processo, agora, tramita
no departamento Jurídico do Ibama, que tem até o dia 12 de julho
para definir se vai ou não cobrar a multa à empresa. O
procurador federal Dianny Siveira, do Ibama, informou que um
engenheiro florestal enviado ao local fará um laudo técnico. Se
ele confirmar o que já foi relatado pela equipe de fiscalização,
ou seja, que não foi feito corte seletivo e que a área é APP, a
multa será definida em poucos dias.
O único
momento da nota oficial em que a realidade não é de todo
deturpada é na menção às ameaças sofridas pelos operadores das
máquinas, que pararam a ação porque “as tentativas de diálogo
com os invasores foram infrutíferas”.
Confronto
Ao
conhecer os autores das ameaças e ouvir seus relatos, no
entanto, nos permitimos rir juntos do aspecto tragicômico das
cenas do confronto: de um lado, sete máquinas de corte, uma
ambulância, e 14 homens armados, entre policiais militares e
funcionários da Visel (empresa que presta serviços de segurança
patrimonial à Aracruz). Do outro lado, sete pessoas, entre elas,
duas crianças e duas senhoras, sendo uma deficiente e outra
grávida de nove meses, todos pequenos agricultores e vizinhos de
córrego do eucaliptal.
Quem
convocou a turma foi Domingas Soprani, 52 anos, graças ao alerta
do vizinho, que chegou à sua casa contando ter acabado de tirar
as caixas de mel da beira do córrego porque “estão desmatando
tudo lá”. Dona Domingas duvidou, pois ninguém mexia naquela
matinha há décadas, mas, quando foi ao quintal e viu a queda das
árvores no outro lado do córrego, ligou para a filha pedindo
ajuda. A família toda partiu para o local.
Além da
coragem, as armas que dispunham eram um celular e o facãozinho
do pequeno Lucas, de seis anos. Elias Alves, um dos homens no
grupo, lembra que o supervisor da equipe chegou a zombar deles:
“Eu só paro com embargo do Ibama. Mas hoje é sexta-feira,
feriadão, e ele não vem. O que vocês vão fazer?”. Foi quando
Cristina Soprani usou a barriga de nove meses como escudo e se
sentou na frente das máquinas.
Diante
da convicção dos agricultores, já caída a noite, os trabalhos
foram suspensos. A Polícia Militar registrou ocorrência e,
somente no dia seguinte, a Polícia Ambiental foi ao local. O
Ibama só chegaria na segunda-feira, constatando o desmatamento
de 3,5 hectares (a empresa reconhece, em seu website, o desmate
de apenas 1 hectare), embargando a operação.
Mata
em regeneração
Elias
resume o sentimento que os manteve firmes, mesmo estando em
tamanha desvantagem: “Foi uma ofensa muito maior que um tapa na
cara”, desabafa, referindo-se ao desprezo da Aracruz com aquela
pequena mata em estado avançado de regeneração, que os
agricultores acompanham e protegem há mais de 30 anos, desde que
o eucaliptal plantado pela antiga dona do terreno, a Companhia
Vale do Rio Doce, foi abandonado, permitindo assim o
restabelecimento da vegetação nativa.
Domingos Soprani (foto), 64 anos, conta que antes da derrubada
da floresta para plantio de eucalipto pela Vale, era costume
tomar banho no Jacutinga. “A água batia aqui”, mostra dona
Domingas, passando a mão pela altura do peito. Depois do
desmatamento, o córrego chegou a secar nos períodos de estiagem.
Nos
últimos doze anos, com a mata já alta, isso nunca mais
aconteceu. A constatação da relação água-floresta foi suficiente
para convencer a comunidade sobre a necessidade de proteger a
regeneração da vegetação na propriedade da Aracruz e pensar em
reflorestamento do lado do rio pertencente aos camponeses.
O
programa “Reflorestando com Árvores e Consciência”, do MPA, era
o que faltava para colocar a intenção em prática. As primeiras
mudas já foram plantadas, em áreas antes destinadas à
agricultura. Cristina Soprani conta que muitos agricultores já
aderiram e o programa está crescendo em todo o Farias.
Mesmo
tendo tido a oportunidade de estudar e estando prestes a obter o
diploma de pedagoga, Cristina não pensa em abandonar a terra em
que nasceu e foi criada. Vai continuar lutando para que os
pequenos agricultores possam ter a liberdade de selecionar suas
próprias sementes, preparar seu próprio adubo, não ter de
recorrer a pacotes de venenos para conseguir empréstimos no
banco e manter vivos os conhecimentos tradicionais sobre plantio
e colheita.
Nem o
aparente isolamento provocado pela vizinhança como eucaliptais e
canaviais desanimam. Vender as terras, onde chegaram antes das
empresas, nem pensar. Ninguém por ali se ilude mais com
promessas nas quais muitos antepassados caíram, indo parar nas
periferias das cidades depois de trocar a propriedade por alguns
cruzeiros e poucos meses de emprego em multinacionais. No fundo,
é a esperança em novos tempos que mantém viva a resistência.
Organizados nacionalmente em movimentos e redes, os pequenos
agricultores têm cada vez mais força para fazer valer a lei e os
seus direitos.
Em
alguns momentos, também é possível ter esperanças quanto a uma
nova postura por parte da multinacional. Como, há cerca de um
ano, o presidente da Aracruz Celulose, Carlos Aguiar admitiu, em
entrevista ao jornal A Tribuna, que uma das maiores falhas da
empresa é a insistência em “não reconhecer os erros do passado”.
Se com esta afirmação ele está se referindo aos passivos
ambientais e sociais da empresa, ou seja, ao desmatamento de
milhares de hectares de Mata Atlântica e conseqüente expulsão e
isolamento de comunidades quilombolas, indígenas e camponesas,
fica a esperança de que um dia a empresa possa realmente fazer
“um bonito papel”, como tem apregoado na última campanha
publicitária.
Por Fernanda
Couzemenco, O Eco, 30/06/2006
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