|
07/05/2008
Empregos, renda e
o medo da seca
Prefeitos
saúdam investimentos de empresas plantadoras de eucaliptos,
enquanto moradores temem o risco de impacto sobre a flora e a
fauna da região
Lúcio Vaz
Enviado especial - Correio Brasiliense, 05/05/2008
Candiota, Alegrete e São Gabriel (RS) – A expansão das
plantações de eucaliptos é vista como a redenção econômica da
Metade Sul do Rio Grande do Sul, uma região empobrecida e com
poucas oportunidades de emprego. Prefeitos e secretários
municipais saúdam os novos investimentos e não parecem
preocupados com o possível impacto dessa cultura exótica sobre
a fauna e a flora da região.
O
secretário do Meio Ambiente de Alegrete (RS), Milton Araújo,
não acredita em prejuízos ao meio ambiente. “Eu não acredito,
porque a natureza está à disposição da sobrevivência do homem.
Nós temos que ter desenvolvimento com responsabilidade
ambiental para que possamos cuidar do social. Temos que ter
bom senso, mas não existe processo de desenvolvimento
empresarial e industrial que não tenha um certo grau
poluidor”, diz. A multinacional sueco-finlandesa Stora Enso
está comprando terras no município, distante 487km de Porto
Alegre.
No
município de Candiota (RS), distante 390km da capital, a
escassez de água já é apontada como consequência da chegada
dos eucaliptos há cerca de três anos. Marciano Rodrigues
Santos, dono de um tambo (cultura de leite) ao lado da fazenda
Aroeira, da Votorantim, afirma que havia água na sua chácara
nos anos anteriores. “Tentaram fazer um açude no ano passado,
mas o trator atolava. Agora, com os eucaliptos, secou tudo”.
Ele mostra o que era um banhado próximo a sua casa. Está
completamente seco. E acrescenta: “Um açude dentro da fazenda
(Aroeira) também está secando”. Ele acompanha a reportagem até
o açude, que mostra quase todo o seu leito. “Esse açude sempre
esteve cheio”, afirma.
Logo
após fotografar o açude, o Correio foi abordado pela segurança
da fazenda, em duas caminhonetes cabine dupla, e convidado a
seguir até a sede. Lá, enquanto esperamos por representantes
da Votorantim, observamos o mapa da fazenda, que registra a
plantação de 2.234 hectares de eucaliptos e 1.084 de acácia
negra. Há, ainda, uma reserva de 1.146 hectares para pecuária
e 439 para agricultura. Após uma espera por 40 minutos pelos
representantes da empresa, em vão, a viagem continuou, agora
para falar com o prefeito de Candiota.
O
prefeito Marcelo Gregório (PMDB) destaca a coordenadora do
Departamento de Meio Ambiente, Ketleen Grala, para falar sobre
as florestas no município. Ketleen é fervorosa defensora do
projeto. “Há um ranço em relação ao eucalipto. Se fizerem a
floresta muito adensada, como era antigamente, tem problemas.
Mas não agora. É um projeto muito bem planejado
ambientalmente. Eles deixam 40% da área para preservação
ambiental, protegem matas nativas, cursos d’água. Eles plantam
para o mercado internacional, precisam de certificado
ambiental”, argumenta. Ela acrescenta que o empreendimento
gera empregos, novos impostos e vai desenvolver a região
conhecida como Metade Sul. Afirma que o município terá um
acréscimo de R$ 2,8 milhões em impostos quando começar o corte
de eucaliptos.
Empregos
O
prefeito de São Gabriel (RS), a 320km de Porto Alegre,
Baltazar Balbo Teixeira (PR), está entusiasmado com a chegada
da Aracruz ao município. “Eles estão fortalecendo a nossa
economia. Já criaram 500 empregos diretos. E também ganham as
empresas locais, que transportam trabalhadores para as
florestas, fornecem alimentos, fazem a segurança. A região
estava com falta de empregos. Isso movimenta a cidade, até o
pipoqueiro ganha”. Ele contesta as afirmações de
ambientalistas de que a região será transformada em um
“deserto verde”. “Isso não me convence. Eles querem plantar 25
mil hectares. Isso representa 5% da área do município”.
Questionado sobre os possíveis impactos do eucalipto no meio
ambiente, responde: “Não posso falar sobre isso porque não
conheço o assunto”.
Balbo
informa que todos os proprietários rurais que venderam terras
no município eram de fora, não moravam na cidade. Não ficaram
para contar por que venderam suas fazendas. A reportagem
visitou a fazenda Paraíso, de 2.145 hectares, em Santa
Margarida (RS), município que foi desmembrado de São Gabriel.
Adão Alves, vizinho da floresta de eucalipto, afirma que o
emprendimento já trouxe cerca de 300 empregos, mas para
pessoas que moram em São Gabriel. Diz que não há problemas de
água na região. “Não tem problema porque é recente, mas se
calcula que vão secar mais as terras”, comenta.
Nery
Eires, que mora ao lado, afirma que “as águas sumiram, mas
isso é normal nesta época”. Para ele, o único problema é que
surgiram muitos sorros (predadores de cordeiros). “Para criar
cordeiro, só encerrado (confinado)”, lamenta.
Empresas prometem preservação
Porto
Alegre – As três empresas que implantam florestas de
eucaliptos no Rio Grande do Sul afirmam que não haverá
prejuízos ao meio ambiente, como a ocorrência de secas e
empobrecimento do solo, porque os seus projetos empregam
tecnologias modernas, seguem o zoneamento ambiental do estado
e preservam grandes áreas para preservação da vegetação
nativa.
A
Votorantim afirma que, atualmente, o manejo de florestas reúne
as melhores tecnologias disponíveis no mercado. “Investimentos
na ordem de US$ 2 bilhões, gerando 30 mil empregos, em 28
municípios e com expectativa de cem anos de atividade exigem
um enorme comprometimento ambiental”, diz a empresa. Ela
informa que já adquiriu 110 mil hectares no estado, com
investimento de US$ 250 milhões, e pretende chegar a 280 mil
hectares até 2011. Mas a metade dessa área será destinada à
preservação. A fábrica de celulose terá capacidade para
produzir 1,3 milhão de toneladas por ano e será instalada em
Pelotas ou cidades próximas como Arroio Grande, Rio Grande,
Cerrito ou Capão do Leão.
Com
uma produção anual de 16,5 milhões de toneladas de papel, a
sueco-finlandesa Stora Enso tem um faturamento de 14,6 bilhões
de euros (R$ 38 bilhões). No estado, pretende investir US$ 1,3
bilhão para produzir 1 milhão de toneladas por ano. A empresa
já adquiriu 48 mil hectares no estado e pretende atingir 100
mil hectares de plantio de eucalipto. A formação da base
florestal vai gerar 3.377 empregos diretos e indiretos, o que
representa 12% da estimativa de desempregados da região.
Corredores ecológicos
A
Stora Enso afirma que estudos científicos mostram que “as
plantações florestais podem devolver o verde a solos
degradados e até recuperar áreas degradadas ou em processo de
arenização, como é o caso da Fronteira Oeste. Técnicas de
cultivo com impacto mínimo preservam a superfície do solo e
reduzem a necessidade de fertilizantes. Na colheita, cascas,
galhos e folhas, que concentram 80% dos nutrientes, são
deixados no campo e acabam se reintegrando ao solo e
melhorando suas qualidades físicas e químicas. Adotamos
corredores ecológicos entre os maciços, permitindo fluxo de
fauna e flora, com impactos positivos sobre o ambiente”.
A
Aracruz está aumentando a capacidade de produção da sua
fábrica em Guaíba (RS) de 500 mil toneladas por ano para 1,8
milhão de toneladas, com investimentos de US 2,6 bilhões. A
engenheira florestal Mauren Alves contesta as especulações
sobre o elevado consumo de água do eucalipto. “É natural que
se espere que árvores consumam mais água que grama. Mas o
eucalipto não tem diferença de outras árvores. O risco de
disponibilidade hídrica depende do percentual de ocupação da
bacia hidrográfica. Não há estudos precisos, mas cada árvore
consome de 12 a 16 litros de água por dia”, informa.
Questionada sobre os malefícios da monocultura do eucalipto,
comentou: “Não achamos a monocultura o ideal, mas não há
condições de suprir as necessidades humanas em pequena escala,
pelos volumes e pelo custo. É uma característica do mercado”.
(LV) |
|