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07/05/2008
Barganha política
ameaça os Pampas
Empresas em expansão no RS destinaram R$ 2 milhões a
candidatos em 2006,
dos
quais R$ 500 mil foram para a campanha de Yeda Crusius
Lúcio Vaz
Enviado especial - Correio Brasiliense, 04/05/2008
Porto
Alegre – Com
contribuições de campanha para dezenas de políticos e a
promessa de nvestimentos de R$ 10,7 bilhões em cinco anos,
três grandes empresas produtoras de celulose invadiram a
metade sul do Rio Grande do Sul com florestas de eucaliptos,
modificando a paisagem, os hábitos e a economia do pampa
gaúcho. As papeleiras foram recebidas de porteiras abertas
pelo governo do estado e pelos prefeitos da região,
interessados na geração de empregos, renda e impostos. As
relações com o meio político do estado foram azeitadas com
doações no valor de R$ 2 milhões nas eleições de 2006, sendo
R$ 500 mil para a governadora Yeda Crusius (PSDB). O atropelo
na tramitação de licenças de operação e a elaboração de um
zoneamento ambiental que impõe poucas restrições à atuação das
empresas provocaram as resistências do Ministério Público
Federal, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e de
ambientalistas, que temem pela formação de “desertos verdes”
na região do pampa, com a conseqüente degradação do meio
ambiente. Durante uma semana, o Correio percorreu 3,7
mil quilômetros visitando 10 cidades gaúchas e duas uruguaias
para registrar o avanço das florestas de eucaliptos, que
atingirão uma área de 440 mil hectares até 2011. O governo do
estado estima a criação de 800 mil empregos no período. Num
futuro próximo, a área plantada deverá chegar a 1 milhão de
hectares, afirma o secretário estadual do Meio Ambiente,
Otaviano Brenner de Moraes. Autoridades municipais saúdam a
chegada na nova frente econômica numa região empobrecida,
dedicada prioritariamente à pecuária extensiva e às
monoculturas da soja e do arroz. Ambientalistas e acadêmicos
afirmam que a monocultura do eucalipto esgota os recursos
hídricos e prejudica a fauna e a vegetação nativa.
A
reação começou com os ambientalistas, mas chegou aos órgãos
federais de fiscalização e controle do meio ambiente. O
Ministério Público Federal apresentou ação civil pública
contra as três empresas de celulose – a Aracruz, a Votorantim
e a filandesa Stora Enso – e a Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (Fepam) por supostas irregularidades nos processos
de licenciamento. O superintendente do Ibama/RS, Fernando
Marques, critica o zoneamento aprovado pelo estado: “O Ibama
emitiu vários pareceres que, acreditávamos, iriam ajudar no
zoneamento. Para nossa surpresa, as coisas foram atropeladas”.
O representante do Ibama/RS no Conselho Estadual do Meio
Ambiente (Consema), Marcelo Medeiros, afirma que o esperado
debate técnico-científico foi substituído por uma discussão
política e econômica, “sob o argumento de riscos aos vultuosos
investimentos já em implantação no estado”. Ele afirma que foi
retirada da proposta original de zoneamento “quase que a
totalidade dos limites e restrições que poderiam representar
mecanismos de salvaguarda da biodiversidade, águas e solos dos
biomas Mata Atlântica e Pampa”. Não foram contemplados, por
exemplo, os tamanhos e as distâncias entre os maciços
florestais.
Licenças
Insatisfeita com a morosidade na aprovação das licenças
ambientais, a governadora Yeda Crusius substituiu a bióloga
Vera Callegaro pelo procurador Otaviano Brenner de Moraes na
Secretaria de Meio Ambiente em maio do ano passado. O
secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais,
Luiz Fernando Zachia, afirma que não houve “atropelo”.
Explica que foi criada uma força-tarefa para apreciar o
estoque de pedidos de licenças, que chegava a 12 mil, e não
apenas na área de silvicultura. Segundo Zachia, havia “um
pequeno grupo de técnicos que ciava um monopólio da atuação, e
começava a haver pessão da sociedade. Isso começou a
enfraquecer a secretária”. Com relação ao zoneamento, disse
que o governo tomou a seguinte decisão: “Vamos acelerar o
processo de conversação com a sociedade. O que for do
interesse do estado vamos fazer, para não inviabilizar os
investimentos. As coisas estavam paralisadas. Acelerar não é
atropelar”.
Representante da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente
Natural (Agapan) no Consema, o geneticista Flávio Lewgoy
desabafa: “O conselho foi usurpado. As pasteiras estão
mandando no Rio Grande. O governo colocou etiqueta de preço e
vendeu o estado”. O presidente do sindicato dos servidores (Semapi),
Antenor Pacheco, entrou com representação no Ministério
Público Estadual alegando que três servidores da Fepam foram
transferidos para o laboratório da fundação porque emitiram
parecer contrário à ampliação da fábrica da Aracruz em Guaíba
(RS) de 500 mil toneladas ao ano para 1,8 milhão. Brenner
contesta a afirmação de que houve recuo do governo na
elaboração do zoneamento: “Estamos em estado democrático de
direito. O zoneamento tem uma finalidade de proteção ambiental
e, por conseqüência, acaba limitando o exercício de outros
direitos, de livre iniciativa, de propriedade”. Ele afirma
que, ao final do debate, houve um equilíbrio, com a aprovação
de entidades que representam agricultores, prefeitos. Salienta
que a monocultura da soja já alcança 4 milhões, sem
zoneamento, sem qualquer processo de licenciamento. A ação
civil do Ministério Público Federal condena, principalmente, a
implantação de extensas áreas de florestas com o instrumento
precário das “autorizações” da Fepam, permitido em
propriedades com até mil hectares. Na soma das três empresas,
porém, essas áreas alcançaram 32 mil hectares. |
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