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07/05/2008
Arroz com Feijão
Os
números do Censo Agropecuário
Roberto Malvezzi
(Gogó)
Dizem
que o arroz com feijão é uma invenção tipicamente brasileira,
assim como o café com leite. Melhor, os nutricionistas
descobriram que são excelentes combinações nutricionais.
Entretanto, como tudo que tem origem nacional, arroz com
feijão tornou-se sinônimo de algo irrelevante, quando não
imprestável. Até que o preço subisse nas nossas mesas. Agora,
literalmente, passaram a ter valor.
Pois
bem, nossa dupla da mesa voltou às manchetes de jornais,
televisões e são objeto inclusive de reflexões de
intelectuais. Que coisa, intelectual falando de arroz e
feijão! Que desprestígio para nossa elite pensante! A razão é
que, com a crise alimentar mundial, há uma acirrada disputa de
números para sustentar ou desdizer a tese que os
agrocombustíveis estão na origem da crise de nossas mesas.
A
consolidação dos dados do Censo Agropecuário que está em
elaboração ajudará a esclarecer muito de nossas dúvidas. O
acesso parcial que tivemos a esses números já esclarece muito
do que queremos saber. A área plantada de arroz, que era de
4.233.000 hectares em 1990, caiu para 2.997.000 em 2007.
Portanto, em quinze anos perdeu 1.236.000 hectares, ou seja,
quase que 25% de sua área.
Quanto ao feijão, em 1990 a área plantada ocupava 5.504.00
hectares. Em 2007 a área plantada ocupava 4.331.000 hectares.
Em quinze anos teve seu plantio diminuído em 1.174.000
hectares, ou seja, perdeu 12% de sua área. Enquanto nossas
áreas de plantio da dupla caíram, a população brasileira
cresceu. Como disse o Presidente da República, "também passou
a comer mais". Também é verdade e vamos dar a Lula o que é de
Lula. Portanto, a fórmula da inflação dos alimentos está
perfeita: menos área cultivada, menor produção, mais gente
comendo.
Outro
dado esclarecedor é que a soja saltou de 11.487.000 hectares
em 1990 para 20.700.000 em 2007. Acréscimo maior que cem por
cento. Mas, o povo brasileiro não come soja. A cana saltou de
4.273.000 para 6.557.000. O total da área plantada com
lavouras no Brasil saltou para 76,7 milhões de hectares, quase
duplicando em 15 anos. A pecuária permanece com 172 milhões de
hectares, portanto, ocupa folgadamente a maior parte dos solos
brasileiros. Está claro que a cana e a soja avançaram sobre as
áreas de feijão e arroz, sobretudo no sul e sudeste. Mas
também aqui na Bahia, no platô de Irecê, o feijão perdeu
espaço inclusive para o biodiesel.
Então, qual o papel dos agrocombustíveis no preço dos
alimentos? Expandiu a soja, expandiu a cana. A cana, sobretudo
no sudeste. A soja, sobretudo no Norte. A cana empurrou a
soja, essa empurrou o boi que já ia no rastro das madeireiras.
Portanto, o agronegócio brasileiro precisa ser considerado no
seu conjunto, na sua co-relação íntima de todas as commodities
e não pode ser analisado de forma estanque, como se cada setor
fosse independente do outro. É o conjunto do agronegócio
brasileiro que faz diminuir a área plantada de arroz e feijão
- fiquemos só com esses dois que já é assustador por demais -
para expandir a cana e a soja. A pecuária não aumentou sua
área, mas pode ter mudado de lugar. O fato é que novas áreas
foram incorporadas às custas do desmatamento, seja da
Amazônia, seja do Cerrado, seja do Pantanal. Agora a cana
irrigada ameaça entrar pelo vale do São Francisco, derrubando
a caatinga e consumindo o que resta de água na bacia do Velho
Chico.
É
refrescante lembrar que a cana é a matriz do etanol e a soja é
a matriz principal do biodiesel. Portanto, se os
agrocombustíveis não explicam cem por cento a crise alimentar
que estamos passando, não há como inocentá-los na cota que
lhes cabe, inclusive no Brasil. |
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