|
07/05/2008
Riachos secos no
Uruguai
Reportagem do Correio Brasiliense - 06/05/2008 -
percorreu cidades do país vizinho e constatou: subsistência de
agricultores está ameaçada por florestas de eucaliptos
Lúcio Vaz,
Enviado Especial
Fotos: Carlos Vieira/CB/D.A Press
Mercedes
e Fray Bentos (Uruguai) – A invasão dos pampas pelos maciços
de eucaliptos começou pelo Uruguai, onde atuam as
multinacionais Botnia (finlandesa) e Ence (espanhola). O país
conta com pelo menos 700 mil hectares ocupados com florestas
de eucaliptos. A Ence ainda está implantando sua base
florestal, mas a fábrica de celulose da Botnia, em Fray
Bentos, na fronteira com a Argentina, já está em operação. Com
investimentos de US$ 1,1 bilhão, vai produzir 1 milhão de
toneladas de celulose por ano. Os espanhóis vão produzir a
metade disso. O governo e os empresários locais saúdam a nova
frente econômica, como acontece no Rio Grande do Sul, mas os
efeitos dos "desertos verdes" de eucaliptos já são sentidos
por agricultores na região de Mercedes, no departamento de
Durazno.
O
Movimento de Agricultores Rurais de Mercedes, que reúne cerca
de 150 produtores, já negocia com o governo uma pauta de
reivindicações, onde exigem que nenhum eucalipto mais seja
plantado, a desativação da fábrica de celulose, a solução dos
problemas de água nas terras dos vizinhos das florestas e a
revisão da legislação ambiental, que não impõem limites nem
restrições à atuação das multinacionais do setor. O Correio
esteve em contato com agricultores e pecuaristas no distrito
de Cerro Alegre na semana passada. As florestas locais são
mais adensadas do que no Brasil, com maciços bem mais
extensos. Encontramos pilhas de toras de eucaliptos que se
entendiam por até um quilômetro.
A
região sofre com a falta de água. Mesmo proprietários rurais
que arrendaram terras para as multinacionais pressionam o
governo para resolver o problema, mas não falam abertamente
sobre o assunto. Dezenas de agricultores já deixaram a
localidade, ou porque venderam suas terras ou porque não
conseguem mais uma boa produtividade. A despesa com a operação
de bombas d'água encarece o custo de produção. A escola
mantida pela intendência de Mercedes contava com 60 alunos há
poucos anos. Hoje, não passam de 20. Encontramos várias casas
abandonadas perto da estrada que margeia as florestas da
Florestal Oriental e da Eu Flores, que abastecem as
multinacionais.
Falta
de água
O
pequeno produtor Humberto Mesquita, de 77 anos, luta para
manter as cem cabeças de gado que cria em 75 hectares. Neste
ano, também plantou soja, mas a lavoura está praticamente
perdida: "Não vale nada. Há muita falta de água. Todos dizem
que é por causa dos eucaliptos. Não chove desde dezembro, mas
até o ano passado eu conseguia água", comenta o produtor,
mostrando a floresta na linha do horizonte. Ele indica o nome
de outro produtor, "meia légua adiante (cerca de três
quilômetros)", que teria mais informações sobre a escassez de
água.
Chegamos
em três casas abandonadas antes de descobrir a propriedade
indicada. Mas o agricultor não quer falar. Arrendou parte da
sua terra para as pepeleiras. Indica o nome de Vitor Riva,
distante mais alguns quilômetros. Nos perdemos nas estreitas e
empoeiradas estradas de terra batida. Mas logo aparece a sua
chácara. Riva afirma que as florestas foram plantadas em 1987:
"Em 1994 começou a escassez de água. Secaram as canhadas (vale
entre duas coxilhas, ou colinas), os banhados, os riachuelos
(riachos). Pedimos ao governo que não florestem mais. Secaram
todos os poços. Só alcançamos água em poços com profundidade
de 48 metros".
Apesar das dificuldades, a colheita de abóboras foi boa. Mas
Riva tem outras preocupações. "As florestas trouxeram muitas
pragas, como a chara (cobra cruzeira) e o zorro (um canino
selvagem), que come os cordeiros", conta. Ele também teme pelo
futuro: "A terra fica inutilizada com os eucaliptos". Ele não
tem esperanças de conseguir ajuda dos políticos: "Estão todos
a favor. Quando chegam ao governo, se juntam todos". Mas ele
esclarece que o principal líder do movimento é Washington
Lockhart, que mora ao lado de uma floresta.
Aridez
Formado como técnico agropecuário, Lockhart optou pela vida no
campo. Vive na sua chácara há 33 anos. A poucos metros da sua
casa se estende um maciço de eucaliptos. "Eu conheço isso aqui
antes e depois da chegada das florestas. Em 1994, começaram a
secar os poços. Secava um e eu fazia outro. Fiz quatro poços.
O primeiro dava água a 10 metros. O último tem 46 metros de
profundidade. Tinha três metros de água. Agora, só a metade",
relata. Ele nos acompanha até uma baixada, onde antes havia um
banhado. O chão está esturricado, sem água nem grama. Mais
adiante, mostra um riachuelo completamente seco: "Aqui, a
gente pescava". Aponta mais adiante e lembra: "Ali, nadavam os
cavalos".
Lockhart
conta que neste ano 150 famílias da região foram abastecidas
com caminhões pipa: "Abasteciam tonéis nas casas a cada 15
dias". Afirma que a produção de alimentos era farta na região:
"Havia muita produção, mas cerca de 70 famílias se foram. Uma
das escolas fechou". Ele mantém a produção de queijos finos,
com tecnologia bem avançada. "A monocultura do eucalipto está
prejudicando a produção de alimentos. É um modelo de
desenvolvimento do governo. Aqui, todos os políticos estão a
favor disso", lamenta.
“A monocultura
do eucalipto está prejudicando a produção de alimentos. É um
modelo de desenvolvimento do governo. Aqui, todos os políticos
estão a favor disso”
Washington Lockhart, líder agricultor
Briga
com argentinos
Fray Bentos (Uruguai)
– Uruguaios e argentinos brigam há três anos por causa da
instalação da fábrica de celulose da finlandesa Botnia em Fray
Bentos, no Uruguai. Moradores de Gualeguaychú, na Argentina,
afirmam que a fábrica vai poluir o Rio Uruguai com o
lançamento de dejetos e produtos químicos. A "guerra das
papeleiras" foi parar no tribunal de Haia, das Nações Unidas.
Os uruguaios venceram a batalha, pelo menos por enquanto, mas
os protestos continuam. Em 20 de abril, a ponte sobre o Rio
San Martín, que liga os dois países, estava fechada pelos
argentinos. Não era possível atravessá-la nem mesmo
caminhando.
O
governo argentino e ambientalistas de todo o mundo exigem a
modernização do processo de produção de celulose. Primeiro,
querem a eliminação do cloro no processo de branqueamento do
eucalipto para produção da pasta de celulose. Também exigem a
eliminação total dos efluentes das fábricas de celulose, todos
altamente corrosivos. Ao tratar e reciclar os efluentes será
possível reduzir a quantidade de água empregada e eliminar as
descargas tóxicas. O governo uruguaio e as pasteiras afirmam
que as suas plantas industriais adotam as tecnologias mais
modernas e não oferecem riscos ao meio ambiente.
A
Botnia chegou ao Uruguai em 2003 e iniciou o processo de
implantação da sua base florestal. A partir de 1998, o governo
uruguaio havia autorizado as plantações de maciços florestais.
Em fevereiro de 2005, o governo aprovou a construção da
fábrica em Fray Bentos, que funciona como uma zona franca, com
isenção de impostos para os produtos destinados à exportação.
Tabaré Vázquez assumiu o governo em março daquele ano e deu
apoio ao projeto finlandês. Provocou a primeira grande
manifestação dos argentinos, que colocaram milhares de pessoas
sobre a ponte San Martín.
Hoje,
a espanhola Ence também se prepara para implantar a sua
fábrica, com capacidade para 500 mil toneladas de celulose ao
ano, metade do que vai produzir a planta da Botnia. As
florestas de eucalipto se estendem por várias regiões do país.
Segundo os ambientalistas, ocupam cerca de 1 milhão de
hectares. Mas estudos acadêmicos apontam cerca de 700 mil
hectares. A sueco-filandesa Stora Enso, que já comprou 48 mil
hectares para implantar florestas no Brasil, também adquiriu
terras no Uruguai, na região de Taquarembó. As florestas de
eucaliptos ocupam as margens da estrada que liga essa cidade a
Rivera, na fronteira com o Brasil. Nas proximidades de
Mercedes, no departamento de Durazno, há um maciço com cerca
de 30 quilômetros de extensão.
Pesquisadores da Argentina, Uruguai e Estados Unidos
analisaram os efeitos da implantação de florestas de
silvicultura. Carlos Perez Arrarte, pesquisador do Centro
Interdisciplinário de Estudos sobre o Desenvolvimento, aponta
em livro algumas das conclusões. Uma delas é que as plantações
de florestas acidificam o solo e a água dos arroios, devido à
elevado acumulação de cálcio e magnésio. O impacto das
mudanças sobre a acumulação de alumínio no solo e na água é
ainda desconhecido. Nas situações em que o lençol freático se
encontra perto da superfície, as árvores podem sugar essa
água, salinizando o solo. Um estudo da Faculdade de Ciências
da Universidade do Uruguai afirma que as plantações de
florestas reduzem o rendimento hidrológico em cerca de 70% em
relação à vegetação original. (L.V.) |
|