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06/07/2007
Luta popular
desmascara a transposição
Nota Pública
Por
oito dias, de 26 de junho a 4 de julho, ocupamos a área onde o
Governo Federal fez “inaugurar” as obras da transposição de
águas do Rio São Francisco para o chamado Nordeste Setentrional.
Hóspedes dos índios Truká, éramos ao todo mais de 1.500 pessoas,
da bacia do São Francisco e do Nordeste, dos principais
movimentos sociais. Protestamos contra esse projeto falacioso,
as hidrelétricas e as centrais nucleares programadas para essa
região. Defendemos um desenvolvimento verdadeiro, sustentável e
soberano para o Nordeste, o São Francisco e o Brasil.
Quando,
numa fase de transição, com saída de caravanas para que outras
chegassem, éramos em torno de 500 pessoas, sofremos despejo. Em
cumprimento da ordem judicial, saímos pacificamente, de cabeça
erguida, com o sentimento de vitória. A lei e a justiça quem não
está cumprindo é o governo e as elites, no caso da imposição da
transposição e em tantos outros casos. As obras iniciadas pelo
Exército, que já eram praticamente nenhuma, estão paradas. As
irregularidades cometidas pelo Governo começam a aflorar. A
sociedade voltou a discutir o assunto, já dado como encerrado, e
crescentemente se posiciona de maneira contrária ao projeto,
apoiando a nossa luta.
A
inestimável riqueza da experiência do acampamento, construído na
diversidade dos povos e movimentos sociais, suas manifestações e
práticas de trabalho, convivência, educação, arte e religião,
atesta o potencial de transformação e libertação do povo
brasileiro, quando ele se vê e se assume como é de fato,
pluriétnico e multicultural. A convivência com os povos
indígenas e comunidades quilombolas e suas demandas históricas
revelou que é outro o desenvolvimento que o Brasil precisa,
baseado na justiça social e na soberania popular. E a auto e
co-gestão do acampamento aponta para a possibilidade do
socialismo.
Contra
isso se desencadeou a repressão com um aparato policial-militar
à semelhança de uma operação de guerra. Porque estávamos
confrontando o crescimento econômico assentado em mega-obras,
como a transposição, para benefício de uma pequena elite
econômica, a base de conluios econômico-político-eleitorais e a
custas da exploração do povo e da dilapidação os bens da terra.
O contraste com a simplicidade e altivez dos retirantes foi
constrangedor. Irônico e trágico que ao mesmo tempo dois
caminhões tenham sido assaltados perto dali, na BR 428... O
crime prospera na região a despeito da maior presença repressiva
do Estado.
Prova
de que nossa luta fortaleceu as suspeitas e as resistências foi
a mobilização dos governadores dos estados “beneficiários” em
defesa ao projeto, numa reaproximação com o projeto político do
Presidente Lula e seu governo de coalizão direitista. A campanha
que vão desencadear, custeada com dinheiro público, só fará
propagar a mentira e a desinformação sobre o projeto. Não dirão,
por exemplo, que é o povo quem vai pagar a conta de uma água tão
cara, tornada mercadoria, destinada a grandes usos econômicos
intensivos em água votados para a exportação.
No
Ministério da Integração foi demitido o coordenador Rômulo
Macedo, que aqui nos disse estar há 30 anos construindo e
defendendo o projeto. Em seu lugar uma pessoa mais próxima ao
Ministro Geddel, que faz crescer seu poder dentro do governo,
cada vez mais com a sua cara, a cara das elites retrógradas e
venais. Por isso, no acampamento, atividade diária era tapar com
pás e padiolas o “buraco do Geddel”, o canal inicial do eixo
norte, cavado às pressas pelo Exército, para a inauguração
encenada semanas atrás.
A
imposição do projeto não respeitou os povos indígenas e seus
territórios – reconheceu o atual presidente da FUNAI, anulando o
aval dado por seu antecessor. Ao ser criado o Grupo de Trabalho
Truká para averiguar e atender a demanda deste povo sobre a área
desapropriada, foram paralisadas as ações para a tomada d’água
do eixo norte. Em continuidade à luta, na madrugada passada
outra fazenda foi retomada pelos Truká na região. O
desenvolvimento do Brasil nunca será verdadeiro nem legítimo se
não reconhecer os direitos históricos dos povos indígenas.
Nossa
luta continua. Estamos no Assentamento Jibóia, do MST, a 10
quilômetros de Cabrobó, para onde viemos ontem em marcha de 13
quilômetros, capitaneados pelos índios Truká e de outros povos
da região, num longo toré. Cresce a adesão e o apoio ao nosso
movimento. Hoje se juntaram a nós 32 companheiros do Ceará, da
região “beneficiária” da transposição. Nossos objetivos foram
parcialmente atingidos; a vitória final será quando esse projeto
cruelmente anti-povo for arquivado. TRANSPOSIÇÃO NÃO, CONVIVER
COM O SEMI-ÁRIDO É A SOLUÇÃO! SÃO FRANCISCO VIVO – TERRA E ÁGUA,
RIO E POVO!
Cabrobó, 5 de
julho de 2007.
Povos Truká, Tumbalalá, Pipipã, Kambiwá, Pankará, Tuxá,
Pankararu, Xukuru, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó, Xocó, Katokinn,
Karapotó, Karuazu, Koiupanká, Atikum, Tinguí-Botó - Comunidades
Ribeirinhas, Quilombolas, Vazanteiras, Brejeiras, Catingueiras e
Geraiseiras da Bacia do Rio São Francisco - MST - MPA - MMC -
MAB - APOINME - MONAPE - CETA - SINDAE - CÁRITAS - CIMI - CPP -
CPT - CESE - KOINONIA - PACS - ASA - AATR - PJMP - Colônias de
Pescadores - STRs - CREA/BA - SINDIPETRO AL/SE - CONLUTAS -
Federação Sindical e Democrática de Metalúrgicos do Estado de MG
- Terra de Direitos - Fórum Nacional da Reforma Agrária - Rede
Brasileira de Justiça Ambiental
- Fórum
Permanente em Defesa do Rio São Francisco / BA - Fórum de
Desenvolvimento Sustentável do Norte de MG
- Fóruns de
Organizações Populares do Alto, Médio, Submédio e Baixo São
Francisco
- Frente
Cearense Por uma Nova Cultura da Água Contra a Transposição -
Projeto Manuelzão/MG
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