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Como o Brasil se tornou o maior consumidor
mundial de agrotóxicos?
por agrotoxiconao
A pesquisadora Lia Giraldo, da
Fiocruz, analisa o papel do lobby que transformou
o país no principal consumidor
de venenos agrícolas
Raquel Júnia
EPSJV/Fiocruz
A pesquisadora Lia Giraldo
explica como os agrotóxicos foram introduzidos no Brasil a
ponto de o país ser hoje o campeão mundial no uso de
venenos. Lia é pesquisadora do departamento de saúde
coletiva, do laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho, da
Fiocruz Pernambuco. Ela coordena um grupo de pesquisadores
responsáveis por revisar os estudos científicos existentes
sobre onze agrotóxicos que estão em processo de revisão pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O uso de agrotóxicos no
Brasil vem crescendo ano após ano. O país lidera o ranking
dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Por que
consumimos tanto veneno?
Desde a década de 70,
exatamente no ano de 1976, o governo criou um plano nacional
de defensivos agrícolas. Dentro do modelo da Revolução Verde
os países produtores desses agroquímicos pressionaram os
governos, através das agências internacionais, para
facilitar a entrada desse pacote tecnológico. Em 1976, o
Brasil criou uma lei do plano nacional de defensivos
agrícolas na qual condiciona o crédito rural ao uso de
agrotóxicos. Assim, parte desse recurso captado deveria ser
utilizada em compra de agrotóxicos, que eles chamavam, com
um eufemismo, de defensivos agrícolas. Então, com isso, os
agricultores foram praticamente obrigados a adquirir esse
pacote tecnológico. E também com muita rapidez foi formatado
um modelo tecnológico de produção que ficou dependente
desses insumos, e isso aliado ainda a uma concentração de
terras, mecanização, com a utilização de muito menos mão de
obra. Tivemos um grande êxodo rural: de lá para cá o Brasil
mudou completamente, era um país rural e virou um país
urbano, seguindo um fenômeno que aconteceu também em outros
países. Então, o Brasil se rendeu às pressões econômicas
internacionais na defesa desse modelo. Depois disso houve
muito lobby político, inclusive, tivemos ministro ligado a
empresas produtoras de agrotóxicos. E isso fez com que o
Brasil não só passasse a ser consumidor, mas também produtor
desses produtos. As cinco maiores produtoras de agrotóxicos
têm fábricas no Brasil – Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e
Monsanto. E depois, dentro dessa linha, e associado ao ciclo
de algumas monoculturas como a soja, o algodão, o café e a
cana de açúcar, esse modelo casou bem com o modelo de
produção de monocultura extensiva, demandando cada vez mais
terras, cada vez expulsando mais o pessoal do campo para a
cidade. Na divisão internacional do capital, o Brasil ficou
com esse perfil de exportador de commodities, com um modelo
de desenvolvimento baseado no agronegócio e essa é a
explicação para sermos os campeões no uso de agrotóxicos.
A pressão para que os
agricultores passassem a usar agrotóxicos também foi
colocada em prática nos outros países do hemisfério sul?
Sim. Se analisarmos países
da América Latina, como a Argentina e o Uruguai, cada um com
suas características, perceberemos que isso se repete. Mas
no Brasil esse quadro ganha proporções maiores com o nosso
gigantismo territorial e também facilidades e estratégias de
abertura para o capital externo, com um governo
absolutamente permeável. O Brasil estranhamente tem dois
ministérios da agricultura, um para o agronegócio, que é o
“gordão”, com bastante dinheiro, e outro para a agricultura
familiar, que é magrinho e com pouquinho dinheiro. São dois
ministérios da agricultura com políticas completamente
divergentes. E por onde a bancada ruralista consegue
pressionar a Casa Civil? Por dentro. Criaram uma estrutura
por dentro do governo, que é o Mapa [Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento], onde passam os
interesses do agronegócio.
E quais são as
características desses agrotóxicos hoje. Eles são mais
tóxicos do que nos anos 70?
A evolução da toxidade tem
mais a ver com a resistência das pragas aos produtos. A
motivação da evolução não é para produzir produtos menos
tóxicos para a saúde ou o meio ambiente. Mas sim porque a
natureza reage e as pragas se tornam mais resistentes, e as
empresas são obrigadas a produzir novas moléculas para os
agrotóxicos serem efetivos. Isso está aliado também com o
aumento da quantidade de uso, porque enquanto eles não
conseguem produzir uma nova molécula a qual a praga seja
mais sensível, eles aumentam a carga de agrotóxico. Então,
existe uma toxidade e um perigo com a introdução de novas
moléculas, que são mais tóxicas para os seres vivos,
portanto para nós, seres humanos também – para as células,
para o DNA, para as estruturas biológicas. Mas também há um
grande perigo quando se aumenta a concentração de um produto
que está tendo baixa eficácia e se aplica esse produto
sozinho ou associado a outro ou a um coquetel de outros
produtos tóxicos. Se, aumentando a concentração de
determinado produto, ele já começar a ameaçar a saúde
pública, esse produto já não pode mais ser usado. Aí
inventam uma outra molécula, e assim vai. E como as
experiências feitas para o registro são baseadas apenas em
efeitos agudos – ou seja, a morte – e não há testes de longo
prazo principalmente para a saúde humana, a nova molécula é
registrada. Mas uma coisa é ver se um ratinho desenvolve
câncer em seis meses ou um ano e outra coisa é uma pessoa
ficar exposta durante muitos anos. Então, esses aspectos não
são levados em consideração para o registro de novos
produtos e, com isso, eles têm conseguido registrá-los, até
que nós comecemos a registrar novamente danos à saúde e ao
meio ambiente e uma série de efeitos negativos que vão então
permitir que a agência reguladora casse o registro ou
restrinja os produtos.
E quais as consequências
disso para o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores
rurais e também para a população de modo geral?
As consequências vistas em
estudos experimentais são evidências importantes, mas não
são suficientes. Porque pode-se alegar que foi em
determinado contexto, que é para uma determinada espécie e
não para outra, então cria-se sempre uma flexibilidade na
hora de extrapolar os dados para a saúde humana. É muito
difícil estabelecer essas regras de consumo e de proteção
baseando-se nos parâmetros que são adotados, porque eles são
criados justamente para proteger o capital. É necessário,
portanto, que tenhamos outros indicadores de vigilância da
saúde que não sejam apenas esses restritos a estudos
experimentais em animais, mas sim baseados em estudos
clínicos e epidemiológicos. Há uma resistência quanto a
esses estudos serem internalizados como parâmetros para
tomar as decisões de registro ou de captação de uma
molécula, porque ou os estudos não existem, ou são muito
restritos. O governo, as universidades e mesmo as empresas
não incentivam esses estudos e a falta desse tipo de
informação é uma política para manter a outra política,
porque obviamente favorece a manutenção do modelo. Mas
existem muitas evidências de danos dos agrotóxicos à saúde,
só que, infelizmente, pelos protocolos que são
estabelecidos, esses danos não são reconhecidos para a
tomada de decisão.
Publicada no site do Jornal
Brasil de Fato
http://www.brasildefato.com.br/node/5754 |
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