              |
|
Agronegócio não garante segurança alimentar
Escrito por Raquel Júnia
No
Assentamento Americana, no município de Grão Mogol, região
norte de Minas Gerais, há de tudo um pouco - hortaliças,
legumes, frutas, frutos típicos do bioma cerrado que cobre a
região, criação de animais. De acordo com o Centro de
Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), que
presta assessoria aos assentados desde o início da ocupação
da área, tecnicamente o que está sendo desenvolvido na
região é o que se chama de sistemas agroflorestais e
silvipastoris - ou seja, a conciliação de atividades
agrícolas com a criação de animais e o extrativismo, de
forma a garantir a preservação do bioma cerrado e também a
produção de alimentos saudáveis. A situação dos moradores do
assentamento Americana, onde, segundo eles próprios, "há de
tudo um pouco", é um exemplo de como a agricultura familiar,
sobretudo a prática agroecológica, podem garantir a
segurança e a soberania alimentar.
Mas o que
significa segurança alimentar? De acordo com o Conselho
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea),
órgão consultivo ligado à presidência da República, a
concretização da segurança alimentar "consiste na realização
do direito de todos ao acesso regular e permanente a
alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem
comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo
como base práticas alimentares promotoras da saúde, que
respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental,
cultural, econômica e socialmente sustentáveis".
Outra
característica da produção no Americana que garante a
segurança alimentar da população é que, além da diversidade
de produtos e da convivência com o meio ambiente, os
agricultores praticam a agroecologia - um conjunto de
princípios que balizam a agricultura, entre eles a não
utilização de agrotóxicos. A EPSJV (Escola Politécnica de
Saúde Joaquim Venâncio) participou da visita ao assentamento
Americana durante a programação da Oficina Territorial de
Diálogos e Convergências do Norte de Minas, que reuniu
experiências dos agricultores familiares locais como etapa
preparatória a um encontro nacional.
Na mesa
dos brasileiros: resultados da agricultura familiar
De acordo
com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), é a
agricultura familiar a grande responsável pela alimentação
da população brasileira, garantindo em torno de 70% do que é
consumido. "É a agricultura familiar que produz feijão,
arroz, leite, verdura, é a produção diversificada que
consumimos todos os dias. Tem uma importância muito forte
para a segurança alimentar e também para a soberania
alimentar", afirma o secretário nacional de agricultura
familiar do MDA Laudemir Muller. Ele diz que a produção da
agricultura familiar tem crescido muito, acompanhando o
consumo de alimentos, que também aumentou. Laudemir explica
que a soberania alimentar também é garantida com este modelo
de agricultura. "É a agricultura familiar que preserva as
tradições, que tem uma produção diversificada, que mantêm a
tradição das sementes. Então, na escolha do que nós comemos,
a agricultura familiar é o grande bastião dessa diversidade,
seja dos povos da floresta, do cerrado, dos grupos de
mulheres", comenta.
Entretanto, dados do próprio Consea mostram que o
agronegócio cresce mais do que a agricultura familiar e, de
acordo os participantes da Oficina Territorial de Diálogos e
Convergências do Norte de Minas, este modelo de produção tem
ameaçado a segurança e a soberania alimentar do país por
vários motivos. Entre os problemas do agronegócio estão a
concentração de terras e a conseqüente diminuição das áreas
destinadas à agricultura familiar; a baixa diversidade de
produção, pois há regiões inteiras com apenas uma espécie
plantada - como as monoculturas de eucalipto, cana de açúcar
e soja; e a utilização de tecnologias como a dos agrotóxicos
e transgênicos, que apresentam um risco para a saúde.
Um
relatório do Consea lançado no final de 2010, que avalia
desde a Constituição de 1988 até a atualidade a segurança
alimentar e nutricional e o direito humano à alimentação
adequada no Brasil, apresenta dados que confirmam este
problema. De acordo com o estudo, o ritmo de crescimento da
produção agrícola destinada à exportação é muito maior do
que para o consumo interno. "A área plantada dos grandes
monocultivos avançou consideravelmente em relação à área
ocupada pelas culturas de menor porte, mais comumente
direcionadas ao abastecimento interno. Apenas quatro
culturas de larga escala (milho, soja, cana e algodão)
ocupavam, em 1990, quase o dobro da área total ocupada por
outros 21 cultivos. Entre 1990 e 2009, a distância entre a
área plantada dos monocultivos e estas mesmas 21 culturas
aumentou 125%, sendo que a área plantada destas últimas
retrocedeu em relação a 1990. A monocultura cresceu não só
pela expansão da fronteira agrícola, mas também pela
incorporação de áreas destinadas a outros cultivos", diz o
documento.
O
relatório também faz um alerta sobre o uso de agrotóxicos.
"O pacote tecnológico aplicado nas monoculturas em franca
expansão levou o Brasil a ser o maior mercado de agrotóxicos
do mundo. Entre as culturas que mais os utilizam estão a
soja, o milho, a cana, o algodão e os citros. Entre 2000 e
2007, a importação de agrotóxicos aumentou 207%. O Brasil
concentra 84% das vendas de agrotóxicos da América Latina e
existem 107 empresas com permissão para utilizar insumos
banidos em diversos países. Os registros das intoxicações
aumentaram na mesma proporção em que cresceram as vendas dos
pesticidas no período 1992-2000. Mais de 50% dos produtores
rurais que manuseiam estes produtos apresentam algum sinal
de intoxicação", denuncia o Consea.
Para a
presidente do Conselho Federal de Nutricionistas, Rosane
Nascimento, não é necessário que o Brasil lance mão de
práticas baseadas no uso de agrotóxicos e mudanças genéticas
para alimentar a população. "Estamos cansados de saber que o
Brasil produz alimento mais do que suficiente para alimentar
a sua população e este tipo de artifício não é necessário. A
lógica dessa utilização é a do capital em detrimento do
respeito ao cidadão e do direito que ele tem de se alimentar
com qualidade", protesta.
Ela
explica por que os transgênicos ameaçam a soberania
alimentar. "O alimento transgênico foi modificado na sua
genética e gerou uma dependência de um produto para ser
produzido, então não é soberano porque irá depender de uma
indústria de sementes para produzir aquele alimento, quando
na verdade ele deve ser crioulo, natural daquela região,
daquela localidade, respeitar os princípios da soberania",
afirma.
Enquanto o
MDA aposta na agricultura familiar e procura desenvolver
políticas públicas para fortalecer esta atividade, segundo
afirma o próprio ministério, outro ministério, o da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), aposta no
agronegócio. O MAPA confirma, por meio da assessoria de
imprensa, o alto desempenho da agricultura para exportação
no Brasil. "O Brasil alcançou recorde nas exportações
brasileiras do agronegócio nos últimos 12 meses. O número
chegou a US$ 78,439 bilhões, um valor 19,8% acima do
exportado no mesmo período do ano passado (US$ 65,460
bilhões)", afirma o ministério. Segundo dados do MAPA, em
janeiro de 2011, a exportação de carnes foi a mais
lucrativa, seguida pelos produtos do complexo
sucroalcooleiro (açúcar e álcool), produtos florestais (que
incluem borracha, celulose e madeira), café e o complexo da
soja (farelo, óleo e grãos).
Questionado sobre o uso abusivo de agrotóxicos na
agricultura brasileira, o MAPA responde: "O que podemos
dizer é que em 2010, os fiscais federais agropecuários do
Ministério da Agricultura analisaram 650 marcas de
agrotóxicos, em 197 indústrias do país. Do total, 74
produtos apresentaram irregularidades, o que representou
428,9 toneladas apreendidas. O resultado aponta que 88,6%
dos agrotóxicos estavam dentro dos padrões". E continua: "O
papel do Ministério da Agricultura é assegurar que os
agrotóxicos sejam produzidos por empresas registradas e
entrem no mercado da forma que consta no registro. Fazemos a
fiscalização para verificar, desde a qualidade química do
produto até o processo de fabricação e rotulagem".
Já o MDA
alerta que a monocultura de uma forma exagerada, com grandes
proporções, pode trazer problemas. "O ministério tem
trabalhado para apoiar e viabilizar, com políticas públicas,
este modelo de agricultura familiar, que é um modelo
diversificado. Nós não achamos interessante a monocultura,
seja a grande monocultura ou a pequena monocultura. Para a
nós a diversidade é muito importante. Para nós, o modelo
mais adequado e mais necessário para o país é o da
agricultura familiar", reforça Laudemir Muller. O secretário
destaca também que é um entusiasta da agroecologia. "Nós
sabemos que infelizmente o país está com este título (de
maior consumidor de agrotóxicos do mundo), e isso é uma das
conseqüências da expansão da monocultura em nosso país. É
preciso apoiar firmemente quem quer produzir de uma forma
agroecológica", diz.
Populações
tradicionais e indígenas correm mais risco
Segundo o
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS),
as populações indígenas e quilombolas são as que mais sofrem
com a insegurança alimentar e nutricional. O relatório
elaborado pelo Consea critica a demora na demarcação das
terras indígenas e quilombolas, o que prejudica o direito a
alimentação adequada. "Verifica-se que a morosidade para a
demarcação das terras indígenas tem impactado negativamente
a realização do direito humano à alimentação adequada dos
povos indígenas, desrespeitando a forte vinculação entre o
acesso a terra e a preservação dos hábitos culturais e
alimentares desses povos", diz o documento.
A
secretária nacional de segurança alimentar e nutricional do
MDS, Maya Takagi, afirma, por exemplo, que os índices de
crianças com baixa estatura em relação à idade é maior nas
comunidades indígenas e quilombolas, situação decorrente da
quantidade insuficiente de alimentos. "Nesses grupos
específicos ainda temos o problema da quantidade de
alimentos. Mas nosso desafio é também o da qualidade,
conseguir ofertar alimentos de maior qualidade, de forma que
as famílias de modo geral possam se alimentar de produtos
saudáveis e naturais. Então, temos ainda um problema duplo,
com o problema da quantidade mais localizado por grupos e
regiões", descreve. Maya cita os dados presentes no próprio
relatório do Consea, segundo o qual 6,7% da população
brasileira de crianças abaixo de cinco anos sofre com
problemas de insegurança alimentar. Indicadores, segundo
ela, considerados aceitáveis internacionalmente.
Entretanto, o problema se agrava quando o dado é analisado
por região e por grupos. A Região Norte é a que apresenta
mais risco, com 14,8% da população infantil sofrendo
insegurança alimentar; o índice é de 26% na população
indígena, 15% entre os quilombolas e 15,9% entre as famílias
mais pobres. No caso dos adultos, o déficit de peso
brasileiro diminuiu: passou de 4,4% em 1989 para 1,8% em
2010. Maya considera que é necessário haver muitas políticas
públicas para resolver a situação. "Regularização fundiária,
acesso a terra, apoio para a produção, banco de sementes,
assistência técnica, políticas de proteção social. Um
conjunto grande de políticas", elenca. 11,2 milhões de
pessoas com insegurança alimentar grave.
O estudo
do Consea mostra que os desafios para ser alcançada a
segurança alimentar no Brasil ainda são grandes. "Em 2009, a
proporção de domicílios com segurança alimentar foi estimada
em 69,8%, com insegurança alimentar leve 18,7%, com
insegurança alimentar moderada 6,5% e com insegurança
alimentar grave 5,0%. Esta última situação atingia 11,2
milhões de pessoas".
O
relatório também afirma que há diferenças na alimentação dos
mais pobres e mais ricos. "Comparando-se a maior e menor
faixa de rendimento, a participação dos alimentos é 1,5 vez
maior para carnes, 3 vezes maior para leite e derivados,
quase 6 vezes maior para frutas e 3 vezes maior para
verduras e legumes, entre os mais ricos.
Além
dessas diferenças, também ocorre maior consumo de
condimentos, refeições prontas e bebidas alcoólicas à medida
que ocorre o crescimento da renda".
No
Assentamento Americana, onde não se pode dizer que as
pessoas tenham alto poder aquisitivo, um almoço foi
preparado pelos camponeses do local para receber os
visitantes. Nas grandes panelas em cima do fogão à lenha,
havia feijão andu - uma das quatro espécies de feijão
produzidas no local - com farinha, arroz, carne de porco,
mandioca e couve temperada com óleo de pequi. Para
acompanhar, três tipos de suco de frutas e, de sobremesa,
marmelada. De tudo o que foi servido, apenas o arroz não foi
produzido na localidade. No entorno do assentamento, há
muitas terras destinadas à monocultura do eucalipto.
"Conseguimos avançar bastante e entendemos que para termos
uma vida digna é preciso ter alimentação, educação e saúde",
aposta Aparecido de Souza, assentado do local e diretor do
Grupo Extrativista do Cerrado, uma organização criada pelos
moradores.
Para
Rosane Nascimento, outro desafio é também garantir uma
mudança no perfil de consumo de alimentos. "A pesquisa de
orçamento familiar do IBGE corrobora uma tendência crescente
do surgimento das doenças crônico-degenerativas, tais como
diabetes, hipertensão, obesidade. São doenças causadas
principalmente por uma má alimentação e estilos de vida não
saudáveis. Com o crescimento econômico e uma possibilidade
de promover o acesso a essa alimentação, temos uma classe
que aumentou o acesso em termos de consumo. Mas isso não foi
associado a uma boa escolha dos alimentos que estão indo
para a sua mesa", analisa, destacando, entretanto, que o
problema da obesidade está em todas as classes. A
nutricionista acredita que deve haver políticas públicas que
ataquem o problema.
Lúcio
Moreira, também morador do Assentamento Americana, diz que
na comunidade já há uma conscientização quanto a isso. "Não
trazemos mais tanto refrigerante e dizemos para as pessoas
que muitas vezes elas consomem veneno quando compram no
supermercado", diz.
Texto publicado originalmente
no site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio |
|