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05/06/2008
O Preço da
Devastação
Estudo feito pela Associação de Geógrafos do Espírito Santo
afirma que a atividade da Aracruz causa fortes danos
ambientais e também reclama da “apropriação de recursos
hídricos” pela empresa papeleira
Rio muda de curso
Aracruz (ES) — A
degradação de nascentes e rios e destruição de matas nativas
no município de Aracruz foi registrada em detalhes por estudo
feito pela Associação de Geógrafos Brasileiros, seção Espírito
Santo. O estudo aponta assoreamento dos cursos d’água,
contaminação das águas, a destruição dos rios. “O rápido
crescimento urbano da sede de Aracruz produziu grande
quantidade de esgoto, que passou a ser despejado sem
tratamento nas nascentes dos rios e córregos próximos da área
urbana, entre eles os rios Sahy e Guaxindiba. Essa evacuação
in natura dos esgotos, somada a outras intervenções, como o
represamento, desmatamento, produtos químicos e obstrução dos
leitos por obras de engenharia para as estradas de transporte
de eucalipto, acabaram com a vida desses rios”, diz o
documento.
Os
índios tupiniquins e guaranis conseguiram no ano passado a
declaração de posse de 18 mil hectares ocupados pela Aracruz.
Mas receberam de volta uma terra degradada. Eles ainda não
decidiram o que fazer com os tocos de eucaliptos quando a
Aracruz retirar a madeira para produzir celulose. Se tirarem
os tocos, restarão os buracos. Nas proximidades
da
aldeia de Caieiras Velhas, o riacho Sossego está completamente
seco. As encostas, tomadas por tocos de eucaliptos. O
tupiniquim Lauro Martins, 51 anos, afirma que a nascente era
nas proximidades. “Começaram a derrubar o mato em 1970, com
trator na chapada e a machado nas encostas. Logo, as nascentes
começaram a secar. Antes, dava peixes como traíra, jundiá,
piaba. Com os eucaliptos, secou tudo”.
Segundo os cálculos da associação de geógrafos, a quantidade
de água consumida diariamente pela Aracruz Celulose
localizadas na Barra do Riacho, no processamento e
branqueamento da celulose, aproxima-se dos 250 mil metros
cúbicos, o que eqüivale ao consumo diário de uma cidade de 2,5
milhões de habitantes. Questionada pelo Correio, a
empresa não respondeu quanto consome de água, mas informou
que, na unidade Barra do Riacho (ES), possui “abastecimento
próprio” por represa de 47 milhões de m³ de água.

Domínio
O
estudo afirma que o projeto Aracruz Celulose “está baseado na
apropriação dos recursos hídricos por meio do domínio da
terra. Nessa perspectiva, o controle dos recursos hídricos é
peça fundamental para a existência e expansão deste
empreendimento. O domínio desses recursos se dá pelo monopólio
da terra, pelo crescimento urbano e pelas atividades
industriais”. O trabalho foi coordenado pelo professor Paulo
Scarim, na Universidade Federal do Espírito Santo.
As
conseqüências da transposição do Rio Doce também foram
analisadas pelos geógrafos. Eles relatam que, na saída do rio
para o canal artificial foi construída uma eclusa, que
controla a quantidade de água que entra no canal. Ao longo
desse duto existem outras eclusas que controlam a vazante da
água. Essas eclusas comandam, portanto, o regime dos rio
Comboios e Riacho de acordo com a necessidade da produção da
fábrica. “Dessa forma entende-se a inundação constante das
terras indígenas de Comboios, a mudança da qualidade das águas
e a diminuição dos peixes. De um regime fluvial natural de
cheias e vazantes derivou-se uma regime industrial”, diz o
estudo.
Fotos
aéreas de 1965, antes da chegada da empresa, demonstram que a
região detinha a maior parte de sua área coberta pela Mata
Atlântica. A análise dos estudos de impacto ambiental feitos
em 1987 pelo Instituto Tecnológico da Universidade Federal do
Espírito Santo afirma que, “por meio da análise de fotos
aéreas obtidas em 1970, verificou-se que pelo menos 30% do
município de Aracruz era cobertoa por floresta nativa no
início da década de 1970, que foi substituída por florestas
homogêneas de eucalipto”.
O
plantio nos territórios indígenas foi iniciado em 1967 pela
Vera Cruz Florestal. Pouco tempo depois, foi criada a Aracruz
Florestal (Arflo, que cuidava especificamente dos plantios da
Aracruz. No início da década de 1970, é criada a fábrica
Aracruz, que começou a produção de celulose com capacidade de
470 mil toneladas/ ano. Em 1971, o biólogo Augusto Ruschi
denunciava que espécies nativas da Mata Atlântica estariam
sendo destruídas pela empresa: “As presentes espécies eram
abundantíssimas nas matas que ligavam Santa Cruz a Aracruz,
onde foram feitas e ainda continuam as derrubadas com dois
tratores em paralelo, ligados por um correntão, que avançam
sobre a floresta virgem e levam tudo de roldão. A cada dia são
centenas de hectares, e após um mês, recebem fogo. Logo, com a
calagem do terreno, vem o plantio do eucalipto”.
Lúcio Vaz
Fonte: Correio Brasiliense
Domingo, 1° de Junho de 2008 |
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