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05/06/2008
Feridas abertas
nas Florestas
Empresa de celulose represa e inverte curso de rios, seca
nascentes e destrói mata nativa para plantar eucalipto no
Espírito Santo e na Bahia, com a conivência do poder público

Trator recolhe troncos de eucaliptos em plantações da Aracruz
Celulose
no
município de Conceição da Barra, ES. Nessas áreas, rios e
riachos estão
cada
vez mais secos. Os animais sumiram.
Aracruz (ES)
— Em operação no Espírito Santo
há cerca de 40 anos, a Aracruz Celulose construiu um império
empresarial que a colocou como a maior produtora mundial de
celulose de eucalipto. A empresa tem ligação estreita com o
mundo político. Nas três últimas eleições, investiu R$ 6,5
milhões em candidatos do estado. Com receita líquida anual de
R$ 2,8 bilhões, a Aracruz mantém 12 mil empregos diretos e
indiretos e paga cerca de R$ 200 milhões em impostos. Mas a
atividade também gera forte impacto ambiental. Parte de suas
florestas foi implantada em Mata Atlântica ou em terras de
índios e quilombolas. A empresa represou seis rios e inverteu
o curso de outro para abastecer a sua fábrica. Em várias
localidades, há lagoas, rios e riachos secos entre as
florestas.
O
Correio registrou esse impacto percorrendo cerca de dois
mil quilômetros no Espírito Santo e no Sul da Bahia, onde a
Aracruz instalou uma segunda fábrica, no município de
Eunápolis, em sociedade com a finlandesa Stora Enso. O
trabalho complementa uma série de reportagens feitas no Rio
Grande do Sul, onde a Aracruz, a Stora Enso e a Votorantim
(sócia da Aracruz) estão expandindo plantações de eucaliptos e
implantando novas fábricas de celulose. Os erros e acertos
vividos no Espírito Santo podem servir como ensinamento para a
atividade em outros estados.
As
conseqüências danosas da operação da fábrica de Barra do
Riacho nos recursos hídricos do município de Aracruz (ES) são
apontadas em estudo feito pela Associação de Geógrafos
Brasileiros, seção Espírito Santo. Para a construção das duas
primeiras unidades da fábrica, foi criado um sistema integrado
de represas no Rio Santa Joana e nos córregos Santa Joana,
Águas Claras, Arroz, Alvorada, Piabas e Constantino. “As
nascentes e grande parte do curso desses rios passaram a ser
de uso exclusivo da Aracruz Celulose”, diz o estudo.
Entre
1970 e 1975, foi construída uma eclusa no entroncamento dos
rios Riacho e Gimuhuna. Com o interrupção do curso dos rios
naquele ponto, a água que desce pelo Riacho sobe pelo Gimuhuna,
invertendo o curso desse rio. Bombas instaladas ao lado da
represa da Aracruz provocam a retroação do rio. Em vez de
descer em direção à foz, ele agora sobe em direção às máquinas
da fábrica. Na época, não havia exigência de Estudo de Impacto
Ambiental (Eia-Rima). Somente no ano passado, o sistema de
abastecimento de água foi inserido na licença de operação para
a fabricação de celulose pela empresa.
Para
a ampliação da produção, com a implantação da terceira fase da
fábrica, foi necessário mobilizar uma quantidade ainda maior
de água. Como os recursos hídricos já estavam escassos na
região, em 1998, a empresa aproveitou uma transposição de
águas do Rio Doce, de domínio federal. Com o aproveitamento de
antigos canais de drenagem, as águas chegaram até os rios
Comboios e Riacho, passando por áreas indígenas. Essa obra foi
feita apenas com Declaração de Impacto Ambiental. As águas do
rio Doce passam pelo rio Riacho e chegam até a fábrica com a
ajuda da eclusa.
Financiamento
A
Aracruz mantém boa relação com os políticos desde a sua
criação, no final da década de 1960, ainda no regime militar.
Nas três últimas eleições, fez doações de R$ 6,5 milhões a
candidatos do Espírito Santo. O governador Paulo Hartung
(PMDB) recebeu R$ 700 mil nas duas últimas eleições. A empresa
fez contribuições para 11 dos 26 deputados estaduais eleitos e
sete dos 10 integrantes da bancada federal, além dos senadores
eleitos.
Nas
últimas eleições municipais, a Aracruz investiu R$ 1,2 milhão
em candidatos a prefeito e vereador. O dinheiro foi muito bem
distribuído. Candidatos de 33 dos 58 municípios do estado
foram contemplados. Os candidatos de Aracruz levaram R$ 160
mil. Os do Sul da Bahia não foram esquecidos. Eles receberam
R$ 3,2 milhões nas últimas eleições. Nas municipais,
candidatos de 15 cidades daquela região ganharam R$ 717 mil em
contribuições de campanha da empresa.
César
Musso, representante do Fórum das Entidades Ambientalistas no
Conselho Estadual do Meio Ambiente, comenta o entrosamento
entre a Aracruz e os políticos do estado: “Isso já é tudo uma
coisa só. Não se pode mais chamar de governo. A atividade
empresarial tem o controle absoluto do Executivo. Quem está no
governo sabe que é melhor ficar bem com o setor produtivo. Se
não ficar, não vai ter dinheiro para a campanha”.

Programa
Com o
tempo, a Aracruz descobriu que também poderia ter aliados
entre os ambientalistas. Durante 10 anos, o biólogo André
Ruschi travou uma luta contra a disseminação da cultura do
eucalipto no estado, com distribuição de mudas sem nenhum
controle. Hoje, a empresa mantém 105 mil hectares de plantio
no Espírito Santo e 98 mil na Bahia. O programa Produtor
Florestal da empresa possui um total de 92,7 mil hectares
contratados no Espírito Santo, Bahia, Rio e Minas, sendo que
86,9 mil hectares já foram plantados.
Coordenador da Associação Capixaba de Proteção ao Meio
Ambiente (Acapema), Ruschi entrou com ação civil pública
contra a Aracruz, o governo do estado e o Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente (Ibama) em 1989. “O estado não tinha uma
política florestal. Estava à mercê das empresas que plantavam
no estado”, lembra. Em 1997, houve um acordo entre todas as
partes. Em 2000, o biólogo foi contratado pela Aracruz. “Ajudo
a avaliar peças de campanha, faço palestras para escolas”,
explicou. Questionado se recebe salário ou ganha por
contratos, respondeu: “São convênios em cima de projetos. Não
é uma venda comercial, é cooperação técnica. Temos objetivos
comuns”. Ele afirma que a Acapema “não faz críticas porque a
Aracruz é multinacional, capitalista. É sensata, ajuizada”.
Lúcio Vaz
Foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press
Fonte: Correio Brasiliense
Domingo, 1° de Junho de 2008 |
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