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Padre Josimo, mártir da luta pela Reforma
Agrária
Artigo de Frei Gilvander Moreira
Publicado em maio 12, 2008
Após tentativa de
assassinato contra padre Josimo Moraes Tavares, no dia 15 de
abril de 1986, quando cinco tiros foram disparados contra a
Toyota dele, profundamente ameaçado de morte e de
ressurreição, incompreendido até por colegas padres e
agentes de pastoral, padre Josimo foi “intimado” a elaborar
um relatório de suas atividades e a esclarecer as
circunstâncias que levaram a tantas ameaças de morte contra
ele.
Em seu belíssimo Testamento
Espiritual pronunciado durante a Assembléia Diocesana de
Tocantinópolis, MA, no dia 27 de abril de 1986, poucos dias
antes de seu assassinato, dizia Josimo que sua morte estava
anunciada, encomendada e prescrita nos anais das correntes
que desejavam ardentemente eliminá-lo. Novos Anás e novos
Caifás já o haviam julgado. Mas Josimo se encontrava firme,
pois havia assumido o seu trabalho pastoral no compromisso e
na causa em favor dos pobres, dos oprimidos e injustiçados,
impulsionado pela força do Evangelho. Josimo declarou:
“Pois
é, gente, eu quero que vocês entendam que o que vem
acontecendo não é fruto de nenhuma ideologia ou facção
teológica, nem por mim mesmo, ou seja, pela minha
personalidade. Acredito que o porquê de tudo isso se resume
em três pontos principais.
-
Por Deus ter me chamado com o dom da
vocação sacerdotal e eu ter correspondido.
-
Pelo senhor bispo, D. Cornélio, ter me
ordenado sacerdote.
-
Pelo apoio do povo e do vigário de
Xambioá, então Pe. João Caprioli, que me ajudaram a vencer
nos estudos.
“O discípulo não é maior do
que o Mestre. Se perseguirem a mim, hão de perseguir vocês
também.” Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta
pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido
nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os
defenderá? Quem lutará a seu favor? Eu pelo menos nada tenho
a perder. Não tenho mulher, filhos e nem riqueza sequer,
ninguém chorará por mim. Só tenho pena de uma pessoa: de
minha mãe, que só tem a mim e mais ninguém por ela. Pobre.
Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão dela. Nem o medo me
detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa. Agora
quero que vocês entendam o seguinte: tudo isso que está
acontecendo é uma conseqüência lógica resultante do meu
trabalho na luta e defesa pelos pobres, em prol do Evangelho
que me levou a assumir até as últimas conseqüências.
A minha vida nada vale em
vista da morte de tantos pais lavradores assassinados,
violentados e despejados de suas terras. Deixando mulheres e
filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora
de se levantar e fazer a diferença! Morro por uma causa
justa.”
Mas ele não imaginava que a
morte viria tão cedo. Dia 10 de maio de1986 foi assassinado
covardemente enquanto subia as escadas do prédio da Mitra
Diocesana de Imperatriz, MA, onde funcionava o escritório da
CPT Araguaia-Tocantins. Ainda teve forças para entrar no
hospital andando.
Padre Josimo era coordenador
da Comissão Pastoral da Terra – CPT – no Bico do Papagaio. O
pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa efetuou dois disparos
com uma pistola de calibre 7,65. Para executar Josimo contou
com a participação de Vilson Nunes Cardoso, que até hoje
está foragido.
Em 1993,
nova denúncia, apontou como mandantes do assassinato de
Padre Josimo, Geraldo Paulo Vieira, Adailson Vieira, Osmar
Teodoro da Silva, Guiomar Teodoro da Silva, Nazaré Teodoro
da Silva e Osvaldino Teodoro da Silva e João Teodoro da
Silva. Em 1998 Adailson Vieira, Geraldo Paulo Vieira (pai do
Adailson) e Guiomar Teodoro da Silva foram julgados e
condenados. Os dois primeiros foram condenados a 19 anos de
reclusão e Guiomar, a 14 anos e 3 meses. João Teodoro da
Silva faleceu antes de ser levado a julgamento. Geraldo
morreu alguns meses depois da sentença. Osmar Teodoro da
Silva ficou foragido durante anos, sendo capturado pela
polícia somente em 2001, depois de ter sido alvo do programa
Linha Direta, na TV Globo. Em setembro de 2003, ele foi
condenado, por unanimidade, a 19 anos de reclusão.
Geraldo
Rodrigues da Costa, o executor do crime, foi condenado, em
1988, a 18 anos e 6 meses de reclusão. Conseguiu fugir da
penitenciária por três vezes, mas, depois da última fuga,
nunca mais fora encontrado. Há informações de que faleceu
durante fuga após um assalto na cidade de Guarai, TO.
Há dois
anos atrás, Claudemiro Godoy do Nascimento, no artigo “20
anos com Josimo”, recordava:
“Há
20 anos atrás, o Brasil vivia momentos de transformações
políticas e econômicas que dinamizavam o cenário das
relações políticas. Na região do Bico do Papagaio a situação
não se diferenciava. Com o anuncio do fim do regime
ditatorial havia uma rearticulação política das oligarquias
rurais na chamada Nova República. A luta social se
encontrava diante de fortes momentos de tensão e conflito
por parte de fazendeiros e trabalhadores rurais que tinham
na Igreja, na CPT, nos sindicatos e nos novos movimentos
sociais do campo uma esperança em ver realmente a Terra
partilhada para todos e todas. Josimo é a testemunha fiel e
nos ensina de que vale a pena dar a vida pela causa do
Reino, das comunidades e do povo. Sua morte significou o
compromisso assumido em denunciar as estruturas de morte
alimentadas pelas injustiças políticas de mandos e desmandos
de uma oligarquia rural que ousava (ou ainda ousa) se
estabelecer no poder da República. É neste sentido que
Josimo se torna o padre mártir da Pastoral da Terra ao selar
com seu sangue uma opção, um compromisso e um engajamento na
defesa dos oprimidos, em especial, os trabalhadores rurais.
Poderíamos relembrar os versos de Pedro Tierra escritos por
ocasião do martírio de Padre Josimo em maio de 1986:
Quem é esse menino negro / Que desafia
limites? / Apenas um homem. /
Sandálias surradas. / Paciência e
indignação. / Riso alvo. /
Mel noturno. / Sonho irrecusável. /
Lutou contra cercas. / Todas as
cercas. / As cercas do medo. /
As cercas do ódio. / As cercas da terra.
/ As cercas da fome. / As cercas do
corpo. / As cercas do
latifúndio.
Diante de
tanta fé e de uma teimosia do Reino inexplicável, Josimo
sentia-se fortalecido pela experiência de Deus, pois se
encontrava dentro do próprio Deus. Com certeza, Josimo fez a
experiência de Deus que somente os grandes místicos da
humanidade fizeram. Um homem que chega a ponto de saber que
terá seu sangue derramado em defesa dos pobres e pela causa
do Reino só pode ter tido a experiência concreta do Deus que
se fez gente entre os homens e mulheres.
Para
Josimo ser padre significava sentir a vida brotando como
serviço justo a Deus e aos pobres, sobretudo. Para ele, o
culto, a eucaristia, a teologia do sacrifício significava o
agrado que fazemos a Deus no serviço aos pobres, aos doentes
e marginalizados da sociedade. Percebemos nos escritos, nos
poemas e nos registros de Josimo uma profunda intimidade com
sua opção primeira, a saber: a Diakonia, ou
seja, o serviço, o estar sempre servindo aos mais
necessitados. Necessitados do Bico do Papagaio eram os
trabalhadores rurais expulsos e espoliados da terra pelos
grandes fazendeiros locais e pelos políticos ao estilo
coronelista. Portanto, ser padre Josimo era ser Profeta na
Justiça, Pastor na Caminhada e Sacerdote humilde que
procurava oferecer a Deus oferendas justas. Josimo é a
própria oferta. Tornou-se um ofertório vivo para nossas
comunidades e para a construção do Reino.
Com certeza, a memória dos
22 anos do martírio de Padre Josimo nos traz à luz a
experiência das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base -, da
Igreja Povo de Deus, Igreja Povo Novo enquanto sinal do
Reino de Deus no mundo. Novos Josimos só surgirão quando a
Igreja novamente for sinal vivo do Reino de Deus, quando
estiver ao lado dos pobres e oprimidos, dos fracos e
perseguidos; quando denunciar as injustiças e as opressões
cometidas contra o povo; quando anunciar a esperança, a fé,
o amor e a alegria aos pobres.
10 de maio de 2008 são 22
anos com Josimo. Ele continua vivo. Vivo nas memórias do
povo, nas experiências dos educadores populares, nos
escritos da Teologia da Libertação e no compromisso dos
poucos agentes de pastorais que continuam reafirmando o
mesmo compromisso com o Reino, com a causa de um novo mundo,
com a justiça social e a solidariedade para com os excluídos
da sociedade. Vivo no martirológico latino-americano,
alternativo por excelência, sem nenhuma ligação e
reconhecimento por parte da estrutura eclesial oficial. A
história não pode perder a figura de Josimo. Ele é
importante na história porque promoveu com o povo a
história. Com Josimo, os dominados contam suas histórias.
Com Josimo, a história não é na lógica da classe dominante.
Com Josimo, os dominados são os sujeitos históricos.”
O nome de
Padre Josimo está hoje em centenas de Acampamentos de Sem
Terra, em centenas de Assentamentos de Reforma Agrária e em
centenas de Comunidades Eclesiais de Base. Ele está muito
vivo e presente nos corações e na mente de milhões de
pessoas que lutam para que a Mãe terra seja libertada das
garras do latifúndio e partilhada com milhões de sem-terra
através de uma autêntica reforma agrária.
Algumas
pessoas nos alertam perguntando: “Por que valorizar tanto ou
exclusivamente o martírio, o sofrimento…?” Devemos ser
criteriosos para não incentivarmos um martírio voluntário. É
claro que existem tantas pessoas que de mil e uma formas, e
não raro, mais eficientes e abrangentes, dão testemunho,
dinamizam a vida, atuam na cidadania e constroem o bem
comum. Não podemos também jamais esquecer a memória dos
inúmeros mártires da caminhada. Ai de um povo que esquece os
seus mártires.
Belo
Horizonte, 10 de maio de 2008, 22 anos com Pe. Josimo.
Frei Gilvander Luís Moreira,
e-mail:
gilvander@igrejadocarmo.com.br
Nota do EcoDebate: Frei
Gilvander Moreira é Frei Carmelita, mestre em Exegese
Bíblica, professor de Teologia Bíblica, assessor da CPT,
CEBs, SAB, CEBI e Via Campesina, colaborador e articulista
do EcoDebate.
http://www.gilvander.org |
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