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04/10/2007
Deixem o Velho
viver em Paz!
Manifesto
para o Dia do Rio São Francisco
Dia 4
de outubro, dia de São Francisco – o Santo e o Rio! Dia de
luta pela revitalização de sua Bacia Hidrográfica e contra a
transposição de suas águas!
Muitas acontecem comemorações, mais numerosas e intensas,
desde quando, nas ilhas, assentamentos, igrejas, aldeias e
quilombos, comunidades rurais e urbanas, vem se fortalecendo a
luta em defesa do Rio, contra a transposição. Rio -
Território de vida, que é Água e Terra e seu Povo.
Transposição mentirosa, de águas que não existem, nem
necessidades.
São
Francisco, o Santo da Ecologia, eleito Homem do Milênio
passado, é todo luz para o novo milênio. Sob sua inspiração,
estamos debatendo e construindo um Projeto Popular para o Rio
São Francisco, que de fato lhe devolva e preserve a vida. E
não é um projeto de letras e planilhas no papel, nem de muitas
falas e propagandas. Vai se formando e crescendo numa rede de
iniciativas pequenas, localizadas ou mais amplas. Vão desde
cata de lixo a preservação de nascentes; de assentamentos
agro-extrativistas a retomadas de territórios indígenas e
quilombolas; de experiências agroecológicas a beneficiamento
de frutos dos cerrados e das caatingas; de grupos e festivais
de arte e cultura a caravanas e romarias; de associações e
fóruns a conselhos e comitês; de seminários e debates a
acampamentos e ocupações... Devagar, ao ritmo lento mas seguro
do correr das águas densas do Velho Chico, o Povo do Rio se
descobre e se levanta em sua defesa.
Assim, propositivamente, rechaçamos uma revitalização oficial
de fachada, insuficiente, dada como moeda de troca para impor
a transposição. Afora algumas obras de saneamento, não
enfrenta à altura os reais problemas sócio-ambientais da
bacia. O atual governo diz revitalizar o Rio, mas na prática
investe na sua destruição. Os recursos para os chamados
“grandes projetos” são enormes. A exemplo dos perímetros
irrigados, que despejam toneladas de adubos sintéticos e
agrotóxicos nas águas dos Rios da bacia. Monocultores,
exportam soja e frutas, mas escondem lavagem de dinheiro e
narcotráfico. Negócios administrados por grandes empresas, mas
só têm viabilidade econômica com os incentivos fiscais e
creditícios dos governos. E são um desastre social e
ambiental. Mesmo assim, novos projetos – de irrigação,
barragens, centrais nucleares, agrocombustíveis, transposição
– continuam sendo planejados e impostos.
Cerrados e caatingas devastados, contaminação por agrotóxicos
e trabalho escravo são um preço alto demais e impagável, na
contramão do que exige a crescente consciência contemporânea
sobre o futuro do planeta e da humanidade. Urge uma moratória
para o Rio! As recentes contaminações por cianobactérias
alimentando gigantesca proliferação de algas nas águas do São
Francisco, desde a foz do Rio das Velhas, que recebe os
esgotos de Belo Horizonte, até Manga, na fronteira de Minas
com Bahia, são sinais de que a destruição chegou ao limite.
Basta!
A
continuar esse mesmo modelo de expansão econômica, em nome do
“desenvolvimento”, ainda que se diga “sustentável”, não há
programa de revitalização que consiga recuperar a vida do São
Francisco e reverter o quadro terminal em que se encontra.
Quanto tempo mais sobreviverá o Velho Rio “das barbas
brancas”, símbolo da “unidade nacional”? Se a nação ainda faz
sentido é para resgatar o direito e a dignidade de seu povo,
em seu território, para isso prioritariamente usado.
A
transposição é só o mais recente desatino contra o Rio. Ele
não tem capacidade de sustentar o volume de água que será
retirado, bem maior do que os alegados 26 m3 por
segundo e mesmo os projetados 127 m3 por segundo.
Hoje a retirada de água do Rio já é maior do que ele suporta.
Só a produção de energia compromete a vazão de 70% de suas
águas. O governo não diz, mas sabe. E projeta a sua integração
com o Rio Tocantins. Os rios, vistos como “recursos hídricos”,
são apenas oportunidades de grandes e lucrativos negócios. É a
lógica por trás das transposições e privatizações hídricas.
O
destino das águas transpostas para o imaginado Nordeste
Setentrional não deixa dúvidas: 70% para irrigação de frutas e
cana (para produzir álcool combustível) e criação de camarão;
26% para uso urbano e industrial, como as siderúrgicas do
Pecém, em Fortaleza-CE; e apenas 4% para a população espalhada
nas caatingas, em nome da qual a propaganda oficial visa
justificar o projeto. Quanto vai custar essa água? Quem vai
pagar? Aos questionamentos e oposições o governo responde com
o Exército, militarizando a região das obras, intimidando os
movimentos sociais e toda a população da região.
Nossa
luta é pela democratização da água, pela priorização do
abastecimento humano e das economias solidárias, que respeitam
as limitações e potencialidades do semi-árido. Nesta direção
está o Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano da ANA - Agência
Nacional de Águas. Com 530 obras descentralizadas, a metade
dos custos da transposição, propõe resolver o déficit para
consumo humano em 1.356 sedes municipais de 9 estados,
beneficiando 34 milhões de pessoas. Para o meio rural, já se
somam mais de 140 tecnologias de convivência com o semi-árido,
que vão da captação e armazenamento de água de chuva ao manejo
de caatinga e comercialização direta de produtos agrícolas.
Com água captada de chuva, de superfície e subterrânea, e com
iniciativas de economia popular solidária, está sendo gestado
o sertão sustentável.
Exigimos o fim da transposição, moratória para o Rio e
revitalização para valer! Deixem o Velho viver em Paz!
Articulação
Popular pela Revitalização do São Francisco
Terra e Água, Rio e Povo!
Bacia do São
Francisco, 4 de outubro de 2007.
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