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04/06/2008
Terras passaram de
empregados à Aracruz
Correio
Braziliense – 03 de junho de 2008
Lúcio
Vaz - Enviado especial
O
preço da devastação
Funcionários e ex-funcionários da empresa de celulose
receberam áreas do governo capixaba e as transferiram para a
companhia meses depois
Conceição da Barra (ES) – A Aracruz Celulose utilizou
funcionários para legitimar a aquisição de terras em Conceição
da Barra e São Mateus, no interior do Espírito Santo, para
plantar milhares de hectares de eucaliptos no início dos anos
70. Eles receberam terras devolutas do governo do estado e as
repassaram para a empresa, como mostram registros em
cartórios. Cerca de 24 mil hectares de terras nesses
municípios são reivindicados hoje por quatro comunidades
quilombolas. “As comunidades foram expulsas ou pressionadas a
vender as suas terras a preços baixos”, afirma o líder
quilombola Domingo Firmiano dos Santos, o Chapoca.
Com
base em depoimentos prestados à CPI da Assembléia Legislativa
que investigou em 2001 supostas irregularidades em licenças
ambientais concedidas à Aracruz, 13 entidades entraram com
representação no Ministério Público Estadual em 2004. Pedem a
investigação da legalidade das aquisições de terras feitas
pela Aracruz por meio de funcionários. A representação cita 65
áreas. “Após ‘legitimarem’ as terras em seus nomes, repassavam
essas terras para a Aracruz Celulose. Foram mais de 13 mil
hectares de ‘legitimação’ de terras ‘transferidas’ por esses
empregados e ex-empregados à empresa”, diz a representação.
Segundo a representação, Orlindo Bertolini fez requerimento
para aquisição de 997 hectares em São Mateus. “No processo de
legitimação dessas terras aparece o nome do presidente do
Conselho de Administração da Aracruz Celulose, Erling Sven
Lorentzen, que firmou procuração onde nomeava um dos
procuradores que atuou junto a órgãos do estado, para proceder
a transferência das terras legitimadas pelos empregados e
ex-empregados para Aracruz Celulose, numa atitude que, em
tese, corroborava as irregularidades que estavam sendo
cometidas para as legitimações e as transferências, o que só
faz aumentar a necessidade de intervenção do Estado para
reaver essas terras”.
A
empresa diz que a aquisição de suas terras foi realizada de
acordo com os princípios constitucionais e a legislação da
época, que “permitia a legitimação de terras para projetos de
pecuária, agricultura e agronegócio. Foi nesse contexto que a
Aracruz adquiriu suas terras”. Segundo avaliação da companhia,
“o aparecimento de nomes e funcionários da Aracruz nada tem de
irregular, tendo sido apenas um recurso para atender os
apertados prazos do Plano Nacional de Desenvolvimento e da
legislação sobre reflorestamento. Era evidente a boa-fé da
empresa e de seus funcionários, tanto que fazia constar dos
processos de legitimação que as áreas destinavam-se a integrar
o programa de reflorestamento da Aracruz”. A empresa
acrescentou que pagou pelas terras, que também teriam sido
compradas por seus funcionários.
Desde
domingo, numa série de reportagens, o Correio vem expondo o
preço político da desvastação no Espírito Santo. A Aracruz é
muito influente no estado. Nas últimas eleições, fez doações
de R$ 6,5 milhões.
Litígio
Os
maiores territórios em litígio no estado são os de Linharinho
(9,5 mil hectares), em Conceição da Barra, e São Jorge (13 mil
hectares), em São Mateus. Os relatórios técnicos de
identificação e delimitação dessas áreas já foram publicados.
São documentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra). Esses territórios estão delimitados, mas há
inúmeras fases processuais até a sua titulação.
Pelo
Decreto 4887/2003, consideram-se remanescentes das comunidades
dos quilombos os grupos étnico-raciais com trajetória
histórica própria, dotados de relações territoriais
específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada
com a resistência à opressão histórica sofrida.
A
empresa afirma que as reivindicações pela demarcação de terras
para comunidades descendentes de quilombolas “é uma questão
que não afeta somente a Aracruz Celulose. As demandas impactam
as atividades de diversas empresas e até mesmo pequenos
proprietários rurais que adquiriram legalmente suas terras no
passado. A reinvindicação é baseada em um decreto cuja
constitucionalidade está sendo argüida no STF. Cabe à Justiça
resolver”.
Depoimento
Depoimento de ex-funcionários da Aracruz Celulose na CPI da
Assembléia Legislativa do Espírito Santo que investigou, em
2001, irregularidades nos licenciamentos ambientais concedidos
à empresa.
Ivan
de Andrade Amorim -
Afirmou que, após adquirir as terras, as titulou para as
empresas Brasileste, Vera Cruz e Aracruz Celulose, garantindo:
“Fiz isso por liberalidade. A empresa me pediu, e não hesitei,
porque era um pedido da empresa. E, por ter sido bem tratado,
sempre tive bom relacionamento. Titulei, mas nada recebi. (…)
Na época, assinei o requerimento, depois que a escritura foi
liberada, não sei em que período, outorguei a escritura para a
empresa”.
Orlindo Antônio Bertolini -
“Trabalhei para a Aracruz
Celulose de 1968 a 1998”. Afirmou que tinha um sítio em
Aracruz. Perguntado se teve outras áreas, respondeu: “Tive
outras e passei para empresa, depois de legitimadas. Tinha
consciência de que iriam ser requeridas em meu nome para
passar posteriormente, depois de legalizadas, para a Aracruz.
Foi de imediato, assim que as adquiri, passei para a Aracruz”.
Afirmou que “essas terras foram só legalizadas em meu nome
para que eu passasse para a Aracruz, para uso de
reflorestamento de eucalipto”.
Quilombolas vivem de sobras -
O preço da devastação
Enquanto esperam que a Justiça defina a posse de suas terras,
comunidades sobrevivem com o aproveitamento dos fachos, nome
dado aos restos de eucaliptos. Em alguns casos, derrubam
clandestinamente árvores.
Conceição da Barra (ES) – Além de reivindicar as terras
ocupadas pela Aracruz Celulose, as comunidades quilombolas
denunciam a degradação ambiental na região, que apresenta
lagoas e riachos secos entre as plantações de eucaliptos.
Enquanto esperam pelos processos de identificação e
delimitação de suas terras, além de decisões judiciais, as
comunidades vivem basicamente de carvoarias que são
abastecidas por restos de eucaliptos (fachos), muitas vezes
colhidos furtivamente nas plantações da Aracruz. Vários
quilombolas já foram presos nessa atividade. O clima de
conflito e tensão vivido na década de 70 voltou à região.
Líder
da comunidade Angelim 2, em Conceição da Barra, Domingo
Firmiano dos Santos, o Chapoca, de 48 anos, conta como os
quilombolas teriam perdido suas terras para a Aracruz. “Isso
aconteceu no início da década de 70. Mais de 95% do pessoal
era analfabeto, não conhecia os seus direitos. Chegou aqui um
militar, conhecido como tenente Merson. Ele vinha fardado.
Seduziu um negro comerciante de Conceição da Barra, chamado
Pelé, que fazia negócios com a comunidade. Esse negro fazia os
primeiros contatos. Depois, vinha o tenente Merson”.
Segundo afirma Chapoca, Merson dizia que aqueles terras eram
devolutas (de propriedade do Estado). “Se o morador tinha
título, eles tentavam comprar. Se não queriam sair, eles
expulsavam ou pagavam um preço simbólico. Diziam que a gente
tinha que sair porque a empresa (Aracruz) precisava das terras
para desenvolver a região. Eles faziam terrorismo. Quando não
vendiam, ele falava que ia prender. Era a época da ditadura
militar”. Questionada sobre a suposta participação de Merson
na aquisição de suas terras, a Aracruz não se manifestou.
Trabalho duro
Parte
da comunidade foi cadastrada pela empresa para colher os
fachos, por intermédio da Associação de Pequenos Agricultores
Lenhadores de Conceição da Barra. Mas nem todos os quilombolas
conseguiram o cadastro. O Correio acompanhou um grupo na
coleta de fachos no dia 21 de maio, nas proximidades da
comunidade de Linharinho. Vermino dos Santos, de 41 anos,
explica por que se dedica a essa atividade: “A gente ficou
confinado entre os eucaliptos. O que planta não dá. A gente
foi obrigado a pegar esses restos de madeira”.
Embaixo de sol escaldante, a líder comunitária Miúda, de 49
anos, trabalha junto com os homens. “A gente planta mandioca e
faz farinha, mas não dá pro sustento da família. A gente
entrava e pegava os restos. Aí, eles criaram um cadastro de
catadores de facho, mas não dá para todos, porque entrou muita
gente de fora”. Chapoca afirma que havia muita caça na mata
nativa. “Tinha tatu, onça, anta, gambá (a melhor caça), catitu
e veado. Agora, com os eucaliptos, só tem tatu e alguma paca”.
O líder também se preocupa com a degradação ambiental. Mostra
uma lagoa e dois riachos secos entre as plantações. “O
eucalipto chupa muita água. Tá tudo seco. Mas a gente vai
conquistar a área e recuperar as nascentes, mata nativa”.
Mais
adiante, ele mostra a carvoaria da comunidade de São Domingos,
em Conceição da Barra. Jorge Brandino, de 53 anos, fala da
escassez de madeira. “Eles não deixam a gente pegar facho.
Eles vigiam, alguns já foram presos, mas a gente não vai ficar
com fome.” Ele serra algumas toras de eucaliptos. Pachoca
explica que eles também recolhem algumas toras. “A gente entra
e pega mesmo. Ninguém vai passar fome. Isso aqui é nosso”.
No
final do ano passado, oito negros foram presos nas florestas
da Aracruz. Após uma manifestação em frente à delegacia de
polícia, com cerca de 100 quilombolas, todos foram soltos. A
Aracruz afirma que a Justiça vai resolver o conflito, mas
acrescenta: “Independentemente dessa solução, a Aracruz vem
desenvolvendo trabalhos com as comunidade negras do norte do
estado, buscando melhorar o seu padrão de vida. Este é um
esforço do qual também estão participando as prefeituras da
região, o governo do estado e o governo federal”. Sobre a
existência de rios e lagoas secas, a empresa diz: “A questão
de secas periódicas em alguns rios não está restrita a essa
região, alcançando diversas regiões do Espírito Santo, e tendo
como principal causa o desmatamento nas áreas das nascentes”.
Muito
eucalipto, nenhum emprego
Cerca
de 60% do território de Conceição da Barra (104 mil hectares)
está ocupado com plantações de eucaliptos. O Correio perguntou
à secretária municipal de Agricultura, Gisani Baldotto,
quantos empregos diretos e indiretos essa atividade gera no
município. “Nenhum”, responde a secretária. Ela explica que o
corte de eucaliptos, atividade mais trabalhosa, é mecanizada e
feita por empresas prestadores de serviços sediadas em São
Mateus. O secretário de Finanças, Djalma Cosme, acrescenta: “O
que está errado é essa concentração de terra na mão de poucos.
Mas é um erro do passado. Isso tem 30 anos”.
Cosme
lembra que “a riqueza é produzida aqui, mas gira em outros
municípios. Isso enfraquece o comércio, a cadeia produtiva não
gira. A empresa grande ganha o dinheiro aqui e vai gastar lá
na conxinchina”. Mas ele não responsabiliza as empresas de
celulose. “Não é culpa deles. Nós é que não nos preparamos
para mexer com eucaliptos”. Duas empresas, Aracruz e Suzano,
têm plantações no município. A Suzano tem fábrica de celulose
no sul da Bahia. A atividade desses empresas no município gera
R$ 10,3 milhões em Imposto sobre Circulação de Mercadorias
(ICMS), mas esse tributo é recolhido pelo governo do estado.
O
secretário de Finanças é contrário à reivindicação das
comunidades quilombolas. “Aquilo é uma das coisas mais
nojentas que eu conheço. Essas terras não valiam nada. Então,
as pessoas começaram a vender para a Aracruz. Sou contra isso.
Não tem assentamento para outros? Por que não para eles? Eles
não sabem trabalhar a terra, vão derrubando e tocando fogo”.
Odor
e renda
A
Aracruz Celulose ocupa 40% do território do município de
Aracruz, distante 79 quilômetros de Vitória, incluindo as
instalações da fábrica de Barra do Riacho, as plantações de
eucaliptos, as reservas naturais, as represas e as estradas.
Só a área de plantio representa 23,4% do município. A
prefeitura considera favorável a presença da papeleira, que
gera empregos diretos na fábrica e indiretos nas empresas
prestadoras de serviços.
A
única queixa é o mau cheiro da fábrica: “O odor atrapalha sim.
De acordo com o Instituto Estadual do Meio Ambiente, a emissão
de odores está dentro das normas estabelecidas, mas mesmo
assim incomoda”, afirma o secretário municipal do Meio
Ambiente, Valber Campores. Ele acrescenta que “todo o efluente
da fábrica é lançado no mar e não nos rios”.
O
prefeito, Ademar Devéns, diz que “a Aracruz não é uma empresa
isolada. Há uma rede se serviços em seu entorno, de grande
contribuição para o município na geração de tributos,
desenvolvimento e empregos. A companhia atua em parceria, o
que a torna um exemplo em desenvolvimento”. |
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