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03/07/2007
Cabrobó
Cartas de Literatura Nº 08

Ademar Bogo

Cabrobó significa: “Lugar de cabras pretas”. Era originariamente “Caproboi, mas com o tempo, no falar, o “i” se foi, e a cabra trocou o “p”por “b”; ficou melhor de soletrar sem engasgar.

Este nome, embora decifrado, poderia ter se originado, das cabras ou de Pedro; pois não havia no passado um ditado, quando alguém se referia aos de antigamente, diziam: “No tempo de Pedro Bó”? E era uma resposta condizente!

Vai ver foi isso mesmo: D Pedro II, saiu tangendo as cabras, com as narinas em brasas. Foi quando deteve a atenção e, sua imaginação faceira, ganhou asas. Pensou ele: ‘ao invés de trazer as cabras todo dia, com um pouco de esforço e ousadia, eu levo o rio para passar em frente a minha casa!’.

Veio a briga por independência. O rio e as cabras saíram das consciências e uma a uma cada geração, levava a água do rio de caminhão. Até que um dia novamente, Ignácio Bó, por ser da terra descendente, sem analisar o seu fracasso, decidiu, dar ao rio um novo braço.

Mas eis que teve reação. Bem ali no “lugar das cabras pretas”, os cabras reagiram ao ouvirem o toque das primeiras cornetas.

Os sertanejos da região de secas brabas, também são conhecidos como cabras. Deve ser pela intensa resistência, paciência e rebeldia. Ao saírem a pé em romaria, todos os dias, tangendo as cabras sob os raios reluzentes, pernas de bichos e de gente, se entrelaçam naqueles matagais. Nas terras do sertão, os bichos são, todos iguais.

Mas o Ignácio, muito bem relacionado com o agro-negócio, sentindo que os cabras reagiriam, em defesa do rio, mandou o Exército, tanger as cabras e meter os picaretas. Picaretas, também no masculino, pois tinha uns trezentos, que, não eram meninos, mas moravam, do outro lado da praça, em frente a casa do tal desviado, e que seriam também beneficiados.

Picareta de cá, picareta de lá, e as cabras, marcadas para fugir, e os cabras marcados para morrer de fome e asfixia, só porque Ignácio Bó decidiu que, tanger cabra não é economia, e destinou todas as terras do sertão, não para produzir o pão, mas energia.

E o Exército entrou fundo, cavando e tangendo. Tangendo e cavando. Ignácio Bó, sempre no comando da abertura do canal; apelou para a ordem judicial e, ao invés de contratar construtoras e seguranças, fez do Exército uma empresa de pujança.

Mas logo ali em Cabrobó? É, ali é que foi marcado o encontro dos cabras com as águas, onde o bebedor virou um lameiro. Cabras contra o Exército, do mesmo jeito como foi no tempo de Antônio Conselheiro. Do outro lado do rio, vejam só! Canudos após a guerra, virou Cocorobó. Um açude colocado sobre os ataúdes.

Cabrobó! Cocorobó! É um projeto só. Águas contra os cabras. Moreira César era o comandante da terceira expedição e voltou para o Sul, tampado num caixão ou num envelope de madeira; a urna onde se colocam os corpos e as caveiras.

Em Cabrobó o Moreira é o Ignácio. Comanda com o apoio do agro-negócio. Está na segunda expedição; dizem que prepara igual Moreira, a terceira.

Mas, como as urnas já não são mais de madeira, não haverá formas de se transportar os corpos e as caveiras. Então, o “lugar das cabras pretas”, não será mais conhecido com o nome que Cabrobó herdou; mas o projeto onde Ignácio se enterrou.

 
 

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