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Esplanada dos Ministérios é Terra Livre para os povos
indígenas
Principal mobilização do
movimento indígena, acampamento segue até quinta-feira,
quando povos definirão lista de reivindicações para
apresentar ao governo federal
Por Renato Santana
Povos
indígenas de todo o país ocupam a Esplanada dos Ministérios,
em Brasília, no Acampamento Terra Livre 2011. Local de
manifestação e abrigo para os índios brasileiros, o evento,
organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib),
está em sua oitava edição.
A
principal mobilização do movimento indígena teve início na
madrugada desta segunda-feira, 2 de maio, e segue até a
próxima quinta-feira. Integrantes de pelo menos 70 povos
levantaram barracas para exigir do governo federal e da
Fundação Nacional do Índio (Funai) que os direitos indígenas
sejam respeitados.
O
secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi),
Eden Magalhães, frisou o apoio da entidade ao Terra Livre
como espaço de unidade do movimento indígena preocupado com
as mais variadas formas de agressão aos territórios das
comunidades.
“Acreditamos que outro mundo é possível com os indígenas”,
disse. Para ele, os grandes empreendimentos, como a usina de
Belo Monte, no Pará, a falta de demarcações das terras
indígenas e a criminalização das lideranças são formas de
alienar direitos tradicionais e constitucionais dos povos.
A
sociedade envolvente cada vez mais encara a construção de
barragens e a expansão do agronegócio como sinais de
desenvolvimento nacional. No entanto, os indígenas não veem
dessa maneira. “A construção de uma hidrelétrica faz com que
tudo o que esteja ao redor fique debaixo da água. Como
poderemos viver sem nossas florestas? Todo um ciclo da
cultura indígena está ali. Desde os nossos antepassados aos
animais e aos remédios naturais”, disse Kretã Kaingang.
Vida sob a
lona
O ataque
aos povos indígenas afeta de maneira semelhante comunidades
de todo o Brasil. Algumas situações, porém, revelam o
tamanho do descaso das autoridades governamentais, sobretudo
da Funai. Os Guarani do Rio Grande do Sul, por não terem
terras suficientes demarcadas e homologadas, sobrevivem à
beira das rodovias sob barracos de saco preto e lona. Cerca
de três mil Guarani estão espalhados pelo estado. Situação
também vivenciada pelos Guarani do Mato Grosso do Sul.
Maurício
Guarani é uma das lideranças de seu povo. Ele explica que
algumas terras foram demarcadas, “mas são muito pequenas e
nossa população aumentou (...) nessas terras meu povo também
não consegue plantar o alimento”. A vida dos Guarani sob a
lona no estado está às margens das rodovias BR-101, BR-116,
BR-290 e BR-040. O povo sobrevive sem água potável,
assistência médica, o alimento é escasso e falta saneamento
básico.
“O Terra
Livre é um momento importante de mostrar tudo isso para a
presidente Dilma (Roussef) e exigir que nossos direitos
sejam respeitados. É o grito Guarani e de todos os povos do
país”, afirmou Maurício.
Belo
Monte, Bela Morte
No Pará, o
desafio dos povos é combater a construção da usina de Belo
Monte. Josinei Arara vive com sua comunidade na chamada
Volta Grande do Xingu. O empreendimento acabará com a aldeia
onde vive, além de outras 29 na região. Para ele, a usina
irá destruir a floresta e isso afetará inclusive comunidades
que não irão para debaixo da água.
“Não
queremos nada que venha destruir nossa Amazônia, nossa
floresta. Dela tiramos nossa cultura. Temos de preservá-la
para nossos filhos e netos. Vamos lutar até o fim”,
salientou. Belo Monte é outra pauta na lista de
reivindicações do Terra Livre. A usina se tornou um símbolo,
ao lado das prisões e assassinatos de lideranças indígenas,
do quanto o governo federal passa por cima de direitos
garantidos por lei. A Funai chegou a forjar uma consulta aos
povos para a construção da usina.
Josinei
Arara relata ameaças sofridas: “Falam que vão incendiar a
aldeia”. Toda pressão sofrida pelos indígenas, inclusive da
Polícia Federal como na Serra do Padeiro, sul da Bahia,
local onde vive o povo Tupinambá, aumenta cada vez mais. Na
plenária do Terra Livre, depoimentos de várias lideranças
corroboram com as notícias de assassinatos, mandados de
prisão e ameaças de morte.
Neguinho
Truká vive com seu povo em Pernambuco. A transposição do rio
São Francisco é o empreendimento que põe em risco as aldeias
Truká. “Desde 2005 estamos lutando pela demarcação. Com a
transposição estima-se que 385 mil hectares de caatinga
serão desmatados”, diz. Neguinho relata que uma base do
Exército Brasileiro está instalada nas terras Truká como
forma de intimidar seu povo.
A
resistência acaba sendo a única saída dos povos contra o
ataque aos seus direitos. “Os federais somos nós
(indígenas). Mas se os federais quiserem vir nos tirar das
terras, nós temos as bordunas (espécie de bastão de madeira)
para eles”, afirma Isabel Apinajé, do Tocantins. |